Era uma vez

Era uma vez Pussy Jane Allsteam, uma menina muito alegre, inteligente, inventiva, boca suja vez em quando, mas iluminada, como toda criança deve ser…
Pussy Jane queria ser Peggy Sue, uma boneca heroína de histórias infantis, princesa de épocas encantadas e contos de fada. Uma heroína quase do mal, de tão terrivelmente magra e esguia; e Pussy Jane era apenas… Pussy Jane Allsteam, uma gordinha que não cabia em números amenos e nem encaixava nos balanços da escolinha pré-primário.
Mas Pussy adorava dançar, mesmo um tanto desengonçada, nem tão leve ou nada parecida com Peggy Sue e suas botas de cano alto e minissaias que caiam feito luva… sua roupinha de aula de balé, seu vestido formatura… Definitivamente, Pussy Jane não era Peggy Sue… Até se sentia bem em sua própria pele, como qualquer criança em idades inocentes deveria; mas, a cada dia, o sentimento de querer transformar-se em Peggy Sue crescia.
Pussy adorava namorar os meninos da escola, só que ela nunca namorava… Pussy era muito, muito gorda, pobre Pussy…


“Ela tem os ossos largos assim como a família inteira do pai”. Os ossos largos eram bom álibi para que a mãe justificasse sua ausência genética de culpa pelas dobrinhas da barriga da filha, e um excelente álibi para Pussy Jane jamais tentar perder um grama, ideal para a menina afogar-se em gulodices. Mas acreditar em álibis não lhe traria os quadris nem a cintura da boneca Peggy Sue.

Pussy Jane estava pronta para um dos dias mais felizes de sua vida: o bailinho de fim de ano da escola. Lá se foi Pussy, de vestidinho estilo balonê, sapatos de boneca, duas tranças Rapunzel e toda esperança de se tornar namorada de alguém… “Porra, Pussy… vestido balonê e sapato de lacinho, filha?? Tenha dó!!
“…
Ai… como o pai era sensível… Homens sensíveis eram sua sina…
A festinha estava cheia e a melhor parte (além dos comes e bebes espalhados), a pista de dança, começou a fervilhar. Pussy foi uma das primeiras meninas a começar a dançar, sozinha. Os meninos bonitos, e os nem tanto, estavam rodeando a cena. Por alguns momentos ela até se esquecera dos docinhos de amendoim e do refrigerante gelado; era muito melhor ser namorada de alguém! Pussy era só esperança e alegria. Mas música vai, música vem, e nada. Até que as músicas lentas começaram; finalmente os meninos teriam que chamá-la para dançar. As amigas já tinham começado a passar de mão em mão e ela ali… ainda sozinha.
Até que um dos meninos, da ala dos bem bonitos, aproximou-se dela com as mãos para trás, como que escondendo alguma coisa. Seria um presente? Uma flor? Um brigadeiro? Uma queijadinha?! Na pista meio escura, de luzes coloridas, não deu para ver.
Tchan tchan tchan tchan…
Nada disso Pussy… O @#@#* do menino sensível entregou-lhe uma vassoura… Um ícone do desprezo, traduzindo que ela era única da festa que merecia ser rodopiada por um pedaço de pau e piaçava… Pussy não sabia o que faria com aquela vassoura.
Quase pôde ouvir as palavras que o pai com certeza diria: “Manda enfiarem a vassoura no rabo, isso sim!!

Até pensou em obedecer a suposta e provável ordem paterna, mas estava muito arrasada para isso… Muito mais gorda e muito menos próxima de ser a namorada de qualquer um… Apenas colocou a vassoura embaixo do braço e foi para casa, sentindo-se uma bruxa.

Justo ela que queria um príncipe, acabara de engolir um sapo, o mais e mais calórico de sua toda pouca existência. Justo ela que queria ser Peggy Sue…

“Enfiem a vassoura no rabo, isso sim!” , foi a primeira frase do pai ao vê-la entrar em casa empunhando a vassoura. Devia ser triste para os pais, que palpitam nos modelos de sapatos, assistirem à decepção dos filhos. Agora Pussy Jane Allsteam carregava uma vassoura no currículo.

Será que algum dia dançaria com alguém? Um namorado?

Será que o namorado lhe daria algo mais do que uma vassoura?

Pussy Jane Allsteam olhou-se no espelho. Não era mais a menina. Tanto tempo se passara e ela ainda incomodava-se da vassoura… Pussy Jane era, agora, uma mulher…

Será que algum dia dançaria com alguém? Um namorado? Será que o namorado lhe daria algo mais interessante do que uma vassoura?

Olhou-se no espelho…

Pensando bem, Pussy Jane Allsteam… Você ainda é a mesma menina.


* “Era uma vez” é uma adaptação para internet de um trecho do livro “Contos de F…”