Confissões de um Primata I

“Estamos quase vivos… Vivos, exceto pelas faltas cometidas, acometidas de um ímpeto de culpa que já nos parece inato.

Culpados ao nascer. Exceto pelos erros insistidos e remorsos plantados e acolhidos, que uma parte boa qualquer, algum resto de consciência, teima em tornar ferida não cicatrizada. Exceto pelos dias passageiros e aqueles que latejam in memoriam, desmemoriados, hemorragias e fluido vital desperdiçado. Exceto pelas ruas conhecidas, resistentes ao presente, ruas que, apesar de passos novos de mesmos pés, agora envelhecidos, teimam em negar outros rumos de caminho.

Ruas que indicam sempre as mesmas placas, as mesmas vistas, os mesmos rostos, existam ou não. O mesmo concreto que se guarda em lembrança de passado; não importando quão recente, ou quão longínquo. Apenas um passado que passou, enlaçando os tais asfaltos; trancafiando-as, todas as ruas tracejadas, em formol, distantes de tudo que cative um agora. Ruas que se foram”

Imaginou as palavras, assim, eméticas, sequenciais, e as anotou em papel profissional. Como era Tolo: palavras profissionais não nasceriam de mãos; nasceriam digitais, nem mais impressas. Impressionante sua ingenuidade amadoresca.

Ficou expresso no rosto um desapontamento de si mesmo: Tolo, um rapaz amador de letras que não sabia que tudo que nasce à mão, seria nati-morto. Mesmo assim, se pudesse trazer à luz das letras o mundo inescrupuloso que reinventava em sonhos e acréscimos de entendimento, se pudesse fazê-lo frase de contar história, jamais desdenharia o direito de tantos outros de falar língua de livros. Queria poder expressão. Querer o poder do íntimo expresso, que  podia ser anseio de muitos mas, concreto, de poucos.

Parou para um café, um expresso, para ele, vindo de trem. Atrasado, sempre atrasado; afinal, não chegaria a lugar algum. Melhor um café expresso do que um bilhete rápido de trem. O gole quente e sentado de bar o levaria mais adiante do que o trem atravessador de cidade.

E, por falar nisso, aonde pretendia terminar sua tarde mesmo? Ah, sim, claro  uma visita ao analista . Uma novidade! A consulta das quatro e meia da tarde, hora do chá e bolachas. Serviriam algum tira-gosto a julgar o preço competente, competindo com o curto custo de suas longas horas em carteira assinada. O que diabos o analista cuspiria como seus problemas? E não se surpreenderia em perceber-se conivente com as suposições do médico prozaquiano, dali a três ou quatro semanas. Não se surpreenderia…

Nem se lembrava de quem fora a tal idéia. Família? Gente do trabalho? Delírio de heroína? Auto-comiseração? Nem se lembrava… Mas o fato de a consulta estar marcada significava que, em algum momento de suas linhas recentes, pontuava um desconforto, um agudo incompreendido, um “quê” de anormal.

Saíra mais cedo do trabalho; sua dispensa médica servira ao menos para desaborrecê-lo em algumas horas de serviço. Saíra expresso do escritório-escrotório; tal a xícara de café, até entusiasmado, em velocidades de quem vai ao encontro de algo. Só agora, refletido em líquido negro coado de cafeína barata, apoiado em balcão bêbado de boteco; só agora percebia não haver motivo de agitação. Seu expresso ia de encontro ao analista; uma doença, um distúrbio. Esse o tão animador destino de sua passagem de trem.

Bebeu um gole quente, sem açúcar. Amargo de café e de seu íntimo, expresso tão friamente: uma consulta para avaliar insanidades, para julgá-lo um erro, um assombro. Um íntimo expresso amargamente, engolido seco em xícara de café .

Tirou o endereço do bolso. Nas costas do papel, algumas frases de caminho, nascidas dessas suas fecundações absurdas de cruzamento de avenidas. Frases surgidas de seu observatório de sensações, inspiradas de transeuntes de dias comuns atropelados, de faróis fechados, sóis repetitivos, florestas de cal. Suas frases falando pelas costas do papel que endereçava a clínica do tal analista. Suas frases, debochando do doutor e seu divã psiquiátrico, do doutor e suas pílulas cerebrais, quase cirúrgicas .

Queriam arrancar-lhe o cérebro criativo. As frases protegiam-no, cuspindo em Dr Manoel da Nóbrega; o nome da rua que ele mesmo assinalara a caneta Bic. Dr Manoel da Nóbrega … A rua então também tinha título de curandeiro; a rua também era doutor. Doutor de ter gente, ou deter gente, ou doutor detergente, de ensaboar perfume envenenado.

Doutores não eram confiáveis; ainda mais aquele, residente em rua que não permitia outro título; uma rua só de doutores. Repetitiva, sinalizadora das mesmas placas, intitulada de doutor… Doutor de receber infinitas visitas, sinalizador da mesma chaga, analista. Pregador, martelando cérebros com psicossomatizações enlouquecidas, vendendo droga a preço de pomada. Doutor analista de sistemas, desprogramando os cérebros pessoais, desconectando-lhes a tomada a toque de pomada e preço… Preço infinitamente mais caro que os miolos pacientes. Ele não era paciente. Ruas com nome de Doutor não eram confiáveis. E talvez se visitasse o tal endereço do papel, jamais voltaria livre. Poderia ser considerado louco, em suas frases de falar às costas, em seus pensamentos expressos em rascunhos, desalinhados, desprotegidos. Apenas conclusões de um homem que ainda não se conhecia louco ou são. Um homem que ainda não se conhecia; mas que, no fundo, não se julgava um erro.

Temeu ser desqualificado por um doutor prozaquiano qualquer. Um doutor que habita em endereço de doutor; um qualquer de marchar buscando ser igual. Um expresso vazio de identidade .

Misturou os pensamentos ao último gole de expresso; rápido, decidido. No cérebro duvidoso, as frases, suas e as das costas de papel, impressas tal livro profissional.

No cérebro duvidoso, passível de psicanalista doutor, a vontade de ter desvendadas todas as suas visões de mundo; insanas e não. O cérebro duvidoso era muito mais leal do que as odes psicanalistas. Psicanaletas, de jorrar alusões científicas e suposições empírico-ilusórias. Psicanalhas, de julgar as novas teorias de mundo submerso, suas frases autorais que falavam às costas de papel.

Deixou o bar e esqueceu o endereço da consulta, que sua chaga era desvendar a vida. Se a curasse, não haveria mais propósito.

Na boca, um expresso de gosto doce: era o espírito agradecido, mesmo sem dizer palavra.

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