Caça ao tesouro

Revisando gavetas à procura de moedas. Tal fosse brincadeira de criança: caça ao tesouro. Reboliços por centavos.

Das quatro gavetas da estante da sala, aquela seria a última tentativa, e mesmo assim, o total da busca não ultrapassava dois e quarenta…

Preço de que, dois e quarenta? Maço de cigarro? Inútil a um não fumante… Café chocolate de padaria? Mas e a gorjeta? Dois cachorros quentes ambulantes, desconfiáveis?

Preço de nada… A conta de dois e quarenta era de somar ansiedade acumulada, transferida a frenéticas buscas por trocados; quase esmola. Não havia mais graça naquela brincadeira de caçar moedas.

Mas nem mesmo a consciência adulta era capaz de fazê-lo desistente. Ainda havia um algo de mágico no barulho cintilante de bolsos afortunados. Algo para além de dinheiro. Talvez a brincadeira de esconder, a recompensa do encontrar…

Caçar moedas deveria ter muito mais graça, agora; afinal, não eram mais de plástico: tilintavam de real. Então por que o jogo revestira-se de tempo à toa, falta do que fazer, ansiedade maturada? Se o agora adulto, ainda garoto, pudesse caçar moedas de verdade, não haveria empecilho que o despistasse; seria seu brinquedo preferido.

Mas adultos não caçam tesouros, simplesmente acumulam moedas. Contradições humanas… A maturidade é capaz de trazer experiência e liquidez argumentativa e, ao mesmo tempo, proporcional inabilidade para lidar com o mais simples. Por exemplo: valorar dois e quarenta de gaveta.

O rapaz, que uma vez tinha sido menino, continuava em sua busca por centavos, mesmo a julgar-se um tanto infantil. No fundo, sabia que não o era: infantilidades presenteiam com emoção, divertimento. Ele se sentia, na realidade, um tolo.

Trazia-as homônimas, tolice e infância, por puro despeito de adulto sem fantasia. Hora outra desequilibrava-se de sua sobriedade e, por instantes, em ansiedade crua e colorida, no fundo da gaveta, encontrava-se com o menino caça-tesouros… E aí, o pouco mais de dois e cinqüenta (já havia encontrado outros quinze centavos!) podia ser muito: bala e bombom, papéis de desenho e recorte, dois cachorros quentes para dividir com companhia, uma tarde qualquer… Preço de pequenas coisas que lhe dariam algos inestimáveis.

Sim, era questão de tempo e centavos: em sua busca de gaveta, cedo ou tarde, o adulto recuperaria-se menino.

E vasculhava, alternando-se entre o rapaz coletor de moedas e o menino caça-tesouros: contas, canetas, chaveiros, folhetos fast-food. Badulaques habitantes de armário e gaveta. Nenhuma droga de moeda, nem miúda, nem ousada! Nada que valesse a pena!

E mesmo que o homem tentasse revestir a busca de formalidades reclamativas, o menino insistia na brincadeira. E insistiria até que o homem percebesse o verdadeiro valor das moedas.

Canetas, contas, fast-fast, banco, chave… Chave de fenda, prego e alicate.

Já quase desistia, devolvendo seus dois e pouco à gaveta mais próxima que, provavelmente, revisitaria, ainda e sempre, contaminado do menino caçador… Quase desistia dos valores quando, de repente, deparou-se com a mãe, moça: uma fotografia intrusa em seu roteiro do fundo mais fundo da gaveta de centavos.

Fotografia dessas que nem existem mais. A mãe: contorno feminino acrescido de um preto e branco artista, luz, sombra e contraste. Uma moça que talvez jamais tivesse imaginado fazer parte, em instantâneo, da gaveta de um suposto filho caçador.

Magnetizavam, os olhos limpos, brilhantes de vida mesmo em sépia. Zombavam da objetiva que os flagrara e riam-se, em beleza esverdeada de preto e branco, da infantilidade do menino. Ou do homem caçador?

Ria-se a moça das vãs objetividades das lentes, em sua tentativa de capturá-la de seu mundo e sufocá-la na gaveta. Ria-se do homem afoito por moedas que, surpreso, reconhecera-a, ainda tão moça, como mãe. Ria-se…

Não sorriso de deboche: condescendente, de quem traz nos olhos em sépia, a tranquilidade de saber-se então moça, depois mãe e depois… E depois?

Era a mesma: mãe, moça e fotografia. O rosto, os dentes e perfumes…A mãe… Em preto e branco, cores e movimento, trazendo o menino caçador de homens e o homem caçador de moedas, nos braços.

O que a mãe diria se o visse à procura de moedas?

A foto ria-se, mãe, achando graças do moleque adultizado, adulterado em suas motivações infantis e caças ao tesouro. A mãe ria-se, foto, como se esperasse por ele para dar-lhe conselhos e resolver-lhe a falta de moedas.

A mãe riu-se dele e, desconcertando-o, interrompeu-lhe a busca. Foi só então que o rapaz encontrou, em mesmo tom sépia, no fundo mais fundo da gaveta, seu tesouro.

A obsessão por moedas não residia motivada pela troca de valores (maço cigarro, café-chocolate, bala de goma) mas pelos valores em troca de seu tempo passado. O mesmo que decorrera desde que a foto tornara-se mãe. O tempo corridio, escorrido, que o desvendara homem feito e o desviara do caminho. Qual seria o caminho do menino caçador?

Talvez, tal fizera ao sorriso materno, o tempo pudesse conservar-lhe os tesouros esquecidos, guardados em gavetas, validados ainda que em deságio, tal centavos. Talvez o tempo o aguardasse, ali, na gaveta, desvelando-lhe o retrato triste da realidade de homem adulto, para trazê-lo nos braços da mãe em sépia, novamente menino.

Pregaram-lhe uma peça: a moça mãe, as moedas, os anos decrescidos de crescentes ausências, refutáveis e frágeis razões. Pregaram-lhe a peça que faltava para excluí-lo das buscas miseráveis, para que esquecesse das migalhas e atentasse aos mais ricos cofres. Quanta riqueza de si, nos olhos maternos, no fundo gaveta, no preto e branco de seu menino colorido…

Despejou os trocados de bolso na gaveta, em nada, derrotado. Despejou-os na intenção de tornar a procurá-los; não como homem de ganância, ou como quem esconde o menino. Voltaria a contabiliza-los como moleque de brincar. Caça ao tesouro .

Tomou em mãos a foto da mãe. O sorriso sépia.

Não quis guardá-lo ali, fundo vinco de gaveta. Lembranças escondidas enrugam. Quis retribuir: enlaçou-a em colo filho. Recém-nascida a esperança de que tempo eterniza e de que ele sempre seria, não o homem, mas o menino caçador de moedas.

Veja mais

Criança-me

Criança-me

Queria fossem brinquedos, essas peças que articulo, desengonçado, com as mãos. Queria que me inspirassem alguma, formato racional; o melhor encaixe, eureka ou esses tipos de insight. Queria fossem...

ler mais
Sobre os girassóis e o tempo…

Sobre os girassóis e o tempo…

Sobre os girassóis e o tempo… Giram Sóis, só solitários, giram em vertigem, Tal a Terra Tal em Guerra Tal em fuga ou fogo… Girassóis queimam como o tempo Com o tempo... Sobre os girassóis, pairava o...

ler mais
A algum ponto da partida

A algum ponto da partida

Voltar ao lugar de início. Não é esse o instrumento? O que te soa quando notas, já distante, de lá longe, o imenso percorrido? O que te escorre face quando usa os olhos em ré?  O que te sua: lágrima...

ler mais
As asas do mar

As asas do mar

Um ser que usava asas, parado frente ao todo mar. Extasiado ou reflexivo; imóvel em seu despertar às águas incalculáveis. Alguém que usava asas (isso estava claro), mas abstinha-se delas, recolhidas...

ler mais
Cheiro de Reich

Cheiro de Reich

O mundo cheira a Reich Mais que haxixe E chora chorume Enquanto vela, afogado, Restos de um bem que não há E nunca ouve, Sem sentido, Ressentido de vender-se Já vencido, aos mesmos erros Recidivos...

ler mais
Letra à bala

Letra à bala

Perguntaram ao escritor, inventor de frases, o que lhe surtia idéias. Como as sortia, caixa-surpresa, versando sobre o que não se viu, ouviu dizer ou nem mesmo se tentou em entendimentos? De que...

ler mais