O destino atrás da porta

Atrás da porta dorme um destino; acordado tempos atrás em luzes e tons de esperança. Atrás da porta, adormeceu; sem se saber ao certo quando ou o motivo. Cansado de esperar que despertasse, o homem, em sua direção.

Atrás da porta aberta adormeceu; que ficou lá, esquecido, como se nem existissem futuros, como se desistissem os planos, como se o homem consentisse em viver, imutável, seus todos dias.

O destino dormiu atrás da porta aberta.

E seria tão fácil encontrá-lo, tão óbvio entregar-se a suas promessas de caminhos. Que todo destino é justo, desde que o homem saiba pertencer. Um homem não é seu, é de seu destino, do único que lhe cabe, o único capaz de indicar-lhe a porta aberta, que agora jaz. Que agora, já em tempo, desdetinou-se…

E o homem, desavisado, como foi esquecer o destino atrás da porta? Um destino pronto, seu. Foi o destino, ele próprio: abriu a porta, dando boas-vindas ao homem que nem o notou… Passou despercebido, esquecendo um futuro, escolhido encolhido, escorrido atrás da porta. Que destino triste, esse do futuro…

O homem passou pela porta aberta, cruzou a linha que, tênue, separava-o de seu original. Cruzou a porta desdenhando o destino desenhado, um homem-cópia que a partir dali, assumiu-se como tal, um não-total, incompleto. Um partido, sem destino.

E o destino logo ali, próximo, guardando atrás da porta, sua versão integral. Seu destino aguardando…

E foi tamanha a espera, que adormeceu. E nem pôde correr atrás do homem, nem o viu passar. Nem pôde avisá-lo que todas as glórias tinham sido deixadas atrás da porta. Uma fatalidade…

E por vezes, um e outro enxergam-se nesse homem; que ele existe caminhando, por aí, passo por passo; caminhando caminhar, com um destino atrás da porta.

Um e outro enxergam-se dessa mesma estrada, sem direção; que um e outro também perderam-se indestinos. Um e outro quase inexistem… Certas vezes, desistem. A cada porta do dia comum, aberta ou fechada, a cada porta que importa a memória do destino que lhes cabia, já fugidia, e que exporta, nos passos vacilantes desses uns e outros, a dor lancinante do que jamais viveram, reincidente.

Mas quem se importa? O destino atrás da porta?

O destino, por acidente, já transformado em passado, atormentado, um incômodo indecifrável?… Não, ao destino que deveria ter sido, não se reporta…

Mas, e se houvesse de recuperá-lo? Se houvesse, ao menos, de fazer o homem entender que se perdera… Se o homem pudesse olhar atrás da porta…

Se houvesse um caminho em retrocesso e esse meio homem que perdeu-se indestino pudesse reconhecer o destino, já velho, esquecido passado atrás da porta; se pudesse reconhecer-se, seu outro meio-homem contaminado de vãos vazios… Se soubesse voltar atrás… bem ali, atrás da porta…

Talvez o tempo retornasse, talvez lhe tomasse em fúria as dores dos passos impasses; talvez, o tempo desse um tempo ao destino e ele, meio-homem, encontraria-se, meio-homem e, por fim, existiria um só destino.

Se houvesse de voltar atrás, bem ali, atrás daquela porta em que jaz um destino, um e outro descobriria-se às metades e, só assim, poderia fechar a porta que o separava de seu destino para, dali para frente, nunca mais voltar atrás.

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