{"id":932,"date":"2022-04-12T16:42:44","date_gmt":"2022-04-12T19:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/?post_type=project&#038;p=932"},"modified":"2022-08-30T15:00:41","modified_gmt":"2022-08-30T18:00:41","slug":"eclipse","status":"publish","type":"project","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/project\/eclipse\/","title":{"rendered":"Eclipse"},"content":{"rendered":"<p>Pussy Jane escureceu\u2026 E era dia. Uma das mais belas manh\u00e3s primaveras. E era setembro, m\u00eas de independ\u00eancia, de 11, de guerra, de flores e armas, terror\u2026 N\u00e3o, n\u00e3o era primavera. Era cinza em alguma esta\u00e7\u00e3o\u2026 Cinza sob o mais belo Sol, equivocadamente invernal.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deveria amanhecer em dias de inverno e cinzas\u2026 Era aud\u00e1cia, viol\u00eancia. N\u00e3o deveria amanhecer quando a alma estava sem cor. E o corpo p\u00f3lvora, como se em verbo: polvorar. Como se um verso em que o Sol-amanhecer surgisse, equivocadamente invernal, incendiando o que era mortal, em rima\u2026 O Sol, em chama, cremando o que j\u00e1 era cinza.<\/p>\n\n\n\n<p>Pussy Jane escureceu\u2026 Como, diabos, podia ser dia? Um dia de cal\u00e7adas iluminadas, pessoas ocupadas, passos passageiros, em celulares, d\u00edgitos, erros e necessidades de acertar. Automatizadas, aut\u00f4nomas, aut\u00f4matas, empregadas, infelizes. Tudo o que era certo ou errado desfilando, figurante, meio desfigurado. Afinal, era dia, e Pussy estava cinza\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Como se colore mesmo a cena naquele programa? Control o qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Control C&#8221;, &#8220;Control V&#8221;: e a vida se copiava cotidiana, independente da cor, independente do setembro, do dia, do m\u00eas, da data comemorativa. Ningu\u00e9m via isso? Ningu\u00e9m via? O mundo estava cego pela manh\u00e3 azul, mas n\u00e3o sabia que aquilo era s\u00f3 photoshop\u2026 Parecia ningu\u00e9m sabia, apenas ela.<\/p>\n\n\n\n<p>All that you touch, all that you see, all that you taste, all you feel\u2026<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8c02d5df5dd02c3c9e8fd9_02x03-Img02.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Mas que droga! N\u00e3o queria guardar segredo, n\u00e3o queria roubar para si a tristeza de enxergar as coisas como eram: a manh\u00e3 disfar\u00e7ada de azul, os passos disfar\u00e7ados de assertivos, as pessoas disfar\u00e7adas de gente. Que sente ou sente muito, que se olha, que se fala, que se importa com as manh\u00e3s cinzas de algu\u00e9m, apesar de ter as suas em tons de azul\u2026 Como era mesmo o comando??<\/p>\n\n\n\n<p>Queria &#8220;Control Z&#8221; para desfazer seu senso cr\u00edtico, desdizer as vis\u00f5es apocal\u00edpticas el\u00edpticas, recorrentes, de um humano que n\u00e3o se \u00e9. N\u00e3o queria essa tristeza de saber s\u00f3 para si\u2026 Queria dividi-la: twitter, facebook, fibra \u00f3tica. Pussy Jane escureceu e estava enxergando melhor do que nunca.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&#8220;All that you touch, all that you see, all that you taste, all you feel\u2026&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E lembrou da m\u00fasica\u2026 Era Pink Floyd. Qual o nome mesmo? Naquele momento a letra parecia t\u00e3o sua, autoral\u2026 T\u00e3o melhor que os slogans idiotas que tinha que inventar como redatora publicit\u00e1ria, vendendo solu\u00e7\u00f5es de mentira para vidas desembrulhadas da verdade. Embrulhou o est\u00f4mago\u2026 Ela mesma havia embrulhado a alma, cuidadosamente, para um presente de que se queria esquecer. Um presente de se programar para futuro\u2026 Que presente era aquele? Que passado resultaria? Olhou para tr\u00e1s, e era cinza\u2026 Sim, o passado era cinza, como o embrulho de papel e a manh\u00e3 azul\u2026&nbsp;and all you create , and all you destroy, and all that you do, and all that you say\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8c02eb6dbd3c871bb0562a_02x03-Img03.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Como era mesmo o nome da m\u00fasica? E achou inocentes, infantis, suas tentativas de lidar com a alma que era cinza escura e jamais conseguiria aprender um mundo que pintava as manh\u00e3s de azul no photoshop.<\/p>\n\n\n\n<p>As manh\u00e3s eram cinzas, droga! De setembros em guerra, e terror nas esquinas, de homens comendo lixo e traindo irm\u00e3os. Ningu\u00e9m via? Ningu\u00e9m dividia? Mas o cinza se multiplicava e parecia s\u00f3 ela sentia. Sentia muito\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8c03036dbd3c3f25b0563a_02x03-Img04.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u200d&#8221;All that you need, and everyone you meet, and you slight and everyone you fight&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E como tentara\u2026 Como tentava ser de um normal que se diz aceito\u2026 Amante do comum, das unhas a fazer, dos vestidos de noiva, das m\u00e3os dadas, das contas a pagar, dos cumprimentos &#8220;oi e nunca mais&#8221;. Como apagar de si que o comprimento da vida real n\u00e3o se mede por manh\u00e3s de photoshop, que o cumprimento de uma vida n\u00e3o admite o superficial. Ainda n\u00e3o se havia inventado um modo de pagar o pre\u00e7o pelo que n\u00e3o se viveu de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;and all that is now, and all that is gone, and all that`s to come,<br>&nbsp; &nbsp;and everything is under the sun&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Pussy Jane tentava entreter-se, tentava entender-se, mas o cinza era t\u00e3o forte, que j\u00e1 se tornara mais belo que a manh\u00e3 azul. Mais promissor de um amanh\u00e3 azul. Ela enxergava, e talvez s\u00f3 isso bastasse. Talvez um dia soubesse o que fazer com aquilo\u2026 talvez trocasse mesmo, os slogans idiotas pelo sonho de escrever letras suas, t\u00e3o suas quanto aquela, Pink Floyd que n\u00e3o lhe saia da cabe\u00e7a\u2026 Mas hoje, numa manh\u00e3 azul photoshop\u2026 Hoje, era s\u00f3 dia de contemplar: a tristeza, o cinza, as pessoas disfar\u00e7adas de gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Pussy Jane escureceu em uma manh\u00e3 de Sol\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o precisava mais lembrar o nome da m\u00fasica: era eclipse. Ela mesma tinha escrito\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u2026&nbsp;everything under the sun is in tune, but the sun is eclipsed by the moon\u2026&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;There&#8217;s no dark side of the moon really. Matter of fact it&#8217;s all dark.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Pussy Jane escureceu e era dia\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Umas das mais belas manh\u00e3s primaveras\u2026<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8c0322eac35c7286135503_02x03-Img05.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-pale-pink-color has-alpha-channel-opacity has-pale-pink-background-color has-background\"\/>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pussy Jane escureceu\u2026 E era dia. Uma das mais belas manh\u00e3s primaveras. E era setembro, m\u00eas de independ\u00eancia, de 11, de guerra, de flores e armas, terror\u2026 N\u00e3o, n\u00e3o era primavera. Era cinza em alguma esta\u00e7\u00e3o\u2026 Cinza sob o mais belo Sol, equivocadamente invernal. 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Afinal, era dia, e Pussy estava cinza\u2026<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>Como se colore mesmo a cena naquele programa? Control o qu\u00ea?<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>\"Control C\", \"Control V\": e a vida se copiava cotidiana, independente da cor, independente do setembro, do dia, do m\u00eas, da data comemorativa. Ningu\u00e9m via isso? Ningu\u00e9m via? 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Que sente ou sente muito, que se olha, que se fala, que se importa com as manh\u00e3s cinzas de algu\u00e9m, apesar de ter as suas em tons de azul\u2026 Como era mesmo o comando??<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>Queria \"Control Z\" para desfazer seu senso cr\u00edtico, desdizer as vis\u00f5es apocal\u00edpticas el\u00edpticas, recorrentes, de um humano que n\u00e3o se \u00e9. N\u00e3o queria essa tristeza de saber s\u00f3 para si\u2026 Queria dividi-la: twitter, facebook, fibra \u00f3tica. Pussy Jane escureceu e estava enxergando melhor do que nunca.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>\u00a0 \u00a0All that you touch, all that you see, all that you taste, all you feel\u2026<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>E lembrou da m\u00fasica\u2026 Era Pink Floyd. Qual o nome mesmo? Naquele momento a letra parecia t\u00e3o sua, autoral\u2026 T\u00e3o melhor que os slogans idiotas que tinha que inventar como redatora publicit\u00e1ria, vendendo solu\u00e7\u00f5es de mentira para vidas desembrulhadas da verdade. Embrulhou o est\u00f4mago\u2026 Ela mesma havia embrulhado a alma, cuidadosamente, para um presente de que se queria esquecer. Um presente de se programar para futuro\u2026 Que presente era aquele? Que passado resultaria? Olhou para tr\u00e1s, e era cinza\u2026 Sim, o passado era cinza, como o embrulho de papel e a manh\u00e3 azul\u2026\u00a0and all you create , and all you destroy, and all that you do, and all that you say\u2026<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image -->\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8c02eb6dbd3c871bb0562a_02x03-Img03.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Como era mesmo o nome da m\u00fasica? E achou inocentes, infantis, suas tentativas de lidar com a alma que era cinza escura e jamais conseguiria aprender um mundo que pintava as manh\u00e3s de azul no photoshop.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>As manh\u00e3s eram cinzas, droga! 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Como apagar de si que o comprimento da vida real n\u00e3o se mede por manh\u00e3s de photoshop, que o cumprimento de uma vida n\u00e3o admite o superficial. Ainda n\u00e3o se havia inventado um modo de pagar o pre\u00e7o pelo que n\u00e3o se viveu de verdade.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>\u00a0 \u00a0and all that is now, and all that is gone, and all that`s to come,<br>\u00a0 \u00a0and everything is under the sun<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image -->\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8c0322eac35c7286135503_02x03-Img05.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8c033adf5dd03dd49e9397_02x03-Img06.jpg\"><\/figcaption><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Pussy Jane tentava entreter-se, tentava entender-se, mas o cinza era t\u00e3o forte, que j\u00e1 se tornara mais belo que a manh\u00e3 azul. Mais promissor de um amanh\u00e3 azul. Ela enxergava, e talvez s\u00f3 isso bastasse. Talvez um dia soubesse o que fazer com aquilo\u2026 talvez trocasse mesmo, os slogans idiotas pelo sonho de escrever letras suas, t\u00e3o suas quanto aquela, Pink Floyd que n\u00e3o lhe saia da cabe\u00e7a\u2026 Mas hoje, numa manh\u00e3 azul photoshop\u2026 Hoje, era s\u00f3 dia de contemplar: a tristeza, o cinza, as pessoas disfar\u00e7adas de gente.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>Pussy Jane escureceu em uma manh\u00e3 de Sol\u2026<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>N\u00e3o precisava mais lembrar o nome da m\u00fasica: era eclipse. Ela mesma tinha escrito\u2026<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>\u00a0 \u2026\u00a0everything under the sun is in tune, but the sun is eclipsed by the moon\u2026<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>\"There's no dark side of the moon really. 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