{"id":1034,"date":"2022-04-12T17:37:38","date_gmt":"2022-04-12T20:37:38","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/?post_type=project&#038;p=1034"},"modified":"2022-08-30T15:22:32","modified_gmt":"2022-08-30T18:22:32","slug":"sobre-as-rodas-a-bicicleta-e-a-vontade-de-voltar","status":"publish","type":"project","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/project\/sobre-as-rodas-a-bicicleta-e-a-vontade-de-voltar\/","title":{"rendered":"Sobre as Rodas, a Bicicleta e a Vontade de Voltar"},"content":{"rendered":"<p>Talvez tenha sido o Dia dos mortos&#8230; Ou as faltas de vida, ou a mania de pautas. Talvez tenha sido tudo junto&#8230; Pussy Jane acordara sem saber o que faria da pauta da vida. Literalmente, e com todas as analogias gram\u00e1tico-morfol\u00f3gicas cab\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o que n\u00e3o soubesse de si, seus motivos ou caminhos; at\u00e9 sabia, na maioria das vezes. Mas o que se faz do dia em que a sanidade suicida nos visita para avisar que o tempo acabou? Acabou o tempo de esperar pela vida que vir\u00e1, de chorar de canto de retrovisor, de estender as perdas da mesma corda com que se ata os punhos por medo de mudar.<\/p>\n\n\n\n<p>E j\u00e1 se foi o tempo de esperar pelo tempo que se foi&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u200d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd9683a73120cade24d40_03x05-Img01.jpg\" alt=\"\" width=\"447\" height=\"428\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u200dPussy Jane, mascando sua dor revisitada, do mesmo chiclete sem gosto que se mascara do sabor de saber que um dia foi doce&#8230; Pussy Jane, inconformada de sua dor quase reconfortante, porque habitual, previs\u00edvel&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E Pussy Jane feriu-se; que a dor, no fundo, era cortante como navalha. Assim como a pauta da vida e suas morfologias gramaticais enganosas: a dor n\u00e3o era reconforto, era corte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd97d6094b8138eae8b1a_03x05-Img02.jpg\" alt=\"\" width=\"447\" height=\"596\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Pussy socorreu-se nas gavetas de passado. Devia haver algo que a fizesse parar de sangrar mem\u00f3rias, que a fizesse parar de perder o tempo que era cor, que era sangue. O tempo que lhe era vital.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo nas gavetas de sua hist\u00f3ria que a fizesse mais viva naquele dia de mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>E uma foto, do mesmo papel de cumprir o papel de selar os instantes, cada um e todos eles, como algo pret\u00e9rito. Uma foto, do mesmo papel de embalar seus sonhos infantis e cant\u00e1-los em palavras doces de ninar. Uma foto, do mesmo papel, que era s\u00f3 um papel mas n\u00e3o era. Um papel que era mortal porque rasgava-se, indel\u00e9vel, no peito de sua menina, que era o mesmo peito que ela levaria para sempre, fosse ou n\u00e3o Dia dos mortos. O mesmo papel de abra\u00e7ar os seus.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma foto, estancando a dor de tudo passar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Calma, Pussy, tudo passa&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E de repente, o av\u00f4, assoprando-lhe o joelho esfolado da primeira tentativa de andar na bicicleta, sem as rodinhas capazes de ampar\u00e1-la. E Pussy, em l\u00e1grimas superfaturadas, doendo de uma dor que nem era dor de joelho, era dor de orgulho: um primeiro fracasso por ter derrubado-se da bicicleta. Justo ela, que queria ser competente em tudo; justo ela, derrubada e sangrando tempo em seus joelhos inflex\u00edveis de afli\u00e7\u00e3o. &#8220;Calma Pussy, tudo passa&#8230; &#8220;<\/p>\n\n\n\n<p>Nem o av\u00f4 nem ela sabiam que a frase n\u00e3o era conforto; a frase escondia a senten\u00e7a mais triste e dolorida do tempo. Mais vermelho que sangue, mais preto e branco que cinza, mais intoler\u00e1vel que o fracasso pela queda da bicicleta.<\/p>\n\n\n\n<p>E talvez o av\u00f4 e ela soubessem; e por isso o choro inconsol\u00e1vel, por isso a queda, o sangue, a bicicleta no ch\u00e3o de pneus estacion\u00e1rios que nunca voltariam atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>A foto do av\u00f4&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E talvez fosse s\u00f3 o Dia de finados ou &nbsp;n\u00e3o saber o que fazer da pauta da vida. Talvez fosse a vontade de andar de bicicleta, ou s\u00f3 contar para o av\u00f4 que ela sabia viver sem rodinhas, apesar de saber que, l\u00e1 no fundo, ainda precisava de amparo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou talvez fosse s\u00f3 a voz do tempo &#8220;Calma Pussy, tudo passa&#8230;&#8221;, s\u00f3 a voz do av\u00f4 assoprando-lhe os joelhos que, \u00e0s vezes, pareciam desistir. Calma Pussy, tudo passa&#8230; <\/p>\n\n\n\n<p>O tempo soprando-lhe as alternativas de caminho: sedar o passado para que o presente pudesse montar na bicicleta sem rodinhas e ser livre.<\/p>\n\n\n\n<p>A foto do av\u00f4&#8230; O Dia dos mortos&#8230; \u00c0s vezes a falta de vida&#8230; que todos sedam, esperando que a dor suporte sozinha as feridas da desist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u200d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd9b19e46f1d274d5b3da_03x05-Img03.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u200dPussy colou a foto do av\u00f4 em algum lugar no peito, que era onde mais sangrava saudades, estancando um tanto do sangue vermelho que, em cinzas, escorria pelos dias, intermitente, insistente, vingativo. Colou, como se faz com band aid barato, um remediar instintivo, uma certeza de que quando o curativo ca\u00edsse, n\u00e3o haveria mais ferida; apenas a pele refeita, lisa, de at\u00e9 se esquecer qualquer corte. Como se faz com band aid barato: Calma Pussy, tudo passa&#8230; Tudo passa&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas engra\u00e7ado, v\u00f4&#8230; Por que algumas feridas n\u00e3o cicatrizam?&#8221;. \u00a0E a dor se transforma em um punhal mais fundo: saudades.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;How I wish, how I wish you were here&#8230; We&#8217;re just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year. Running over the same old ground. What have you found? The same old fears&#8230; Wish you were here&#8230;&#8221; <\/p>\n\n\n\n<p>Pink Floyd sempre tinha raz\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd9d26094b835bfae8b68_03x05-Img04.jpg\" alt=\"\" width=\"447\" height=\"449\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u200dTalvez tenha sido o Dia dos mortos, a foto do av\u00f4, a vontade de andar de bicicleta, a vergonha pela queda, a voz cortante do tempo, Pink Floyd&#8230; Pussy Jane jamais entendera t\u00e3o bem que a vida n\u00e3o precisava de pauta. Talvez tenha sido a presen\u00e7a indel\u00e9vel de algu\u00e9m que se ama&#8230; Era esse, Pussy Jane, sempre seria esse, o significado da vida.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-pale-pink-color has-alpha-channel-opacity has-pale-pink-background-color has-background is-style-default\"\/>\n\n\n\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez tenha sido o Dia dos mortos&#8230; Ou as faltas de vida, ou a mania de pautas. Talvez tenha sido tudo junto&#8230; Pussy Jane acordara sem saber o que faria da pauta da vida. Literalmente, e com todas as analogias gram\u00e1tico-morfol\u00f3gicas cab\u00edveis. 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