{"id":1029,"date":"2022-04-12T17:35:47","date_gmt":"2022-04-12T20:35:47","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/?post_type=project&#038;p=1029"},"modified":"2024-07-10T16:47:24","modified_gmt":"2024-07-10T19:47:24","slug":"going-rome","status":"publish","type":"project","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/project\/going-rome\/","title":{"rendered":"Going Rome"},"content":{"rendered":"[et_pb_section fb_built=&#8221;1&#8243; admin_label=&#8221;section&#8221; _builder_version=&#8221;3.22&#8243; global_colors_info=&#8221;{}&#8221; theme_builder_area=&#8221;post_content&#8221;][et_pb_row admin_label=&#8221;row&#8221; _builder_version=&#8221;3.25&#8243; background_size=&#8221;initial&#8221; background_position=&#8221;top_left&#8221; background_repeat=&#8221;repeat&#8221; global_colors_info=&#8221;{}&#8221; theme_builder_area=&#8221;post_content&#8221;][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243; _builder_version=&#8221;3.25&#8243; custom_padding=&#8221;|||&#8221; global_colors_info=&#8221;{}&#8221; custom_padding__hover=&#8221;|||&#8221; theme_builder_area=&#8221;post_content&#8221;][et_pb_text admin_label=&#8221;Text&#8221; _builder_version=&#8221;3.27.4&#8243; background_size=&#8221;initial&#8221; background_position=&#8221;top_left&#8221; background_repeat=&#8221;repeat&#8221; global_colors_info=&#8221;{}&#8221; theme_builder_area=&#8221;post_content&#8221;]\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E l\u00e1 estava ela\u2026 Absolutamente em casa: t\u00e3o longe, e perto demais de si mesma; o que muitas vezes parece inevit\u00e1vel\u2026<br>&#8220;\u00c9 exatamente quando a dist\u00e2ncia dos algos que nos escondem se faz imposta, que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para \u201ceus&#8221; impostores ou impositores de verdades apreendidas aprendidas. \u00c9 s\u00f3 quando se est\u00e1 s\u00f3, que nenhuma m\u00e1scara-personalidade se faz poss\u00edvel, e nem prov\u00e1vel\u2026<br>\u00c9 bem prov\u00e1vel que s\u00f3 se seja si mesmo \u00e0 beira do abismo, num sentido de n\u00e3o haver como recuar da possibilidade da escolha entre saltar ou retroceder, porque uma vez que se consegue enxergar que h\u00e1 escolha, o salto j\u00e1 foi dado; se est\u00e1 muito presente para que se minta, at\u00e9 para que se sinta. \u00c9 instinto e s\u00f3.<br>E s\u00f3 se \u00e9 instinto, num l\u00e1 dentro que j\u00e1 longe de tudo, porque tudo j\u00e1 \u00e9 l\u00e1 de dentro. \u00c0 beira do abismo se \u00e9 uno com o mundo, em suas \u00fanicas e prov\u00e1veis dire\u00e7\u00f5es: o fim.&#8221;<br>Puta que pariu, hein, Pussy Jane!!\u2026 Filosofia nessas horas n\u00e3o cola, ou gruda demais\u2026 V\u00ea se se localizar no mapa turista porque sen\u00e3o, al\u00e9m de perdida em hip\u00f3teses e faltas de argumento, voc\u00ea perde tamb\u00e9m o \u00f4nibus para o hotel.<br>S\u00f3 faltava essa: de um rec\u00e9m tomado p\u00e9 na bunda a dormir ao relento\u2026 Devia ter ficado no Brasil!<br>\u200d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd61c9e46f10c20d59d9e_03x04-Img1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelo mapa, o hotel nem era longe dali, mas melhor se apressar; uma longa exposi\u00e7\u00e3o ao frio da noite romana a menos de seis graus, seria muito mais drama do que o &#8220;ser ou n\u00e3o ser&#8221; desestruturado que ela estava tentando desenvolver, rascunho, no folheto &#8220;boas vindas&#8221; que recebera em Fiumicino, aeroporto da cidade.<br>Roma era amor de tr\u00e1s pra frente: casais de m\u00e3os dadas, \u00e0s luvas; bares e pequenos caf\u00e9s espalhando mesinhas sobre as cal\u00e7adas rusticamente apertadas, regadas a ciocolatta calda e canutti con pana\u2026 Ah, canutti!! Que saudades da nonna Tormenta di Poggiomarino\u2026<br>\u201cFiglio di un cane!!\u201d- era nonna se referindo ao nonno Michelle, toda vez que ele chegava tarde para o almo\u00e7o do domingo (que para ele, retornando da noitada, era cedo at\u00e9 demais). O nonno jamais entenderia a histeria das mulheres, sobretudo das italianas\u2026<br>A imagem dos gladiadores romanos, nonno e nonna, fez com que Pussy Jane, apesar dos casais de m\u00e3os dadas e da ciocolatta calda espalhados pela rua, entendesse que nada era t\u00e3o rom\u00e2ntico assim.<br>Talvez todos os casais, mesmo aqueles mais aparentemente aconchegados de si, fossem todos, gladiadores: nonno e nonna. Pussy recordou a foto de cabeceira de cama dos dois: sorridentes como se feitos um para o outro.<br>Engra\u00e7ado que ela sempre achara aquele retrato t\u00e3o\u2026 t\u00e3o\u2026 Retrato.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd691deeeaf9918397693_03x04-Img4.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"426\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olha l\u00e1, sentados \u00e0 mesa do Caf\u00e9 Eliseo: o cara de m\u00e3o dada com a namorada e piscando para a gar\u00e7onete! Figlio di un cane! Pussy observava, em sua viagem de \u00f4nibus a caminho do hotel, a reitera\u00e7\u00e3o da imagem do retrato &#8220;nonno e nonna&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Roma talvez fosse, literalmente, amor de tr\u00e1s pra frente. S\u00f3 um jogo de palavras como aquele, de ler invertido, que ela costumava jogar quando crian\u00e7a, e que a fazia parecer mais inteligente, ou com algum dom especial; afinal ningu\u00e9m entendia do que estava falando\u2026<br>Crescida, Pussy descobrira que as pessoas criam nessas coisas tamb\u00e9m quando adultas: inventam saberes in\u00fateis para se sentirem superiores a algo ou algu\u00e9m. Ok, o jogo de ler tr\u00e1s pra frente tinha at\u00e9 lhe sido \u00fatil, j\u00e1 que lhe conferia, mesmo \u00e0s escuras, uma possibilidade de dom. Mas ser\u00e1 que ela era realmente mais inteligente por isso? Ou apenas mais est\u00fapida por se sentir superior, inventando um saber de mentira? Era uma idiota mesmo\u2026 Que prop\u00f3sito em ler o mundo de tr\u00e1s pra frente?? Ou de ponta cabe\u00e7a??<br>Ah, Pussy Jane, talvez n\u00e3o fosse assim de todo mal entender o avesso das coisas. Se n\u00e3o fosse o jogo de palavras, como voc\u00ea chegaria \u00e0 tal conclus\u00e3o de que Roma, naquele instante, era e deveria significar apenas o amor de tr\u00e1s pra frente: a batalha nonno x nonna, apesar do retrato mentiroso; o namorado de m\u00e3os dadas desejando apalpar a bunda da gar\u00e7onete? Como voc\u00ea leria Roma em letras corretas em um folheto que se escondia em boas-vindas, se n\u00e3o soubesse entender que a vida era do avesso?<br>Olha l\u00e1, a vida \u00e9 o cara piscando pra gar\u00e7onete! Ele s\u00f3 finge que tem uma namorada. Anos dali, ele se transformar\u00e1 no nonno filgio di un cane; e a mo\u00e7a, na nonna que se desfazia em l\u00e1grimas de molho de macarr\u00e3o, todo domingo, todo santo domingo, ap\u00f3s a missa\u2026 Pensando bem, a mo\u00e7a merecia algo melhor do que o papel de nonna; a nonna merecia muito mais do que molho de tomate. Elas um dia j\u00e1 haviam encantado-se com o card\u00e1pio de possibilidades\u2026<br>Eram umas tontas, isso sim! Tutte pazze!! Se tivessem olhos mais atentos e n\u00e3o acreditassem nas lorotas de quem fala o mundo de tr\u00e1s pra frente; se soubessem, como Pussy, ler os avessos, talvez enxergassem que os patifes que lhes ofereciam as m\u00e3os (nonno que perdoasse Pussy Jane) e uma alian\u00e7a sem compromisso algum (exceto financeiro, com a loja que a vendera \u00e0 presta\u00e7\u00e3o), cobi\u00e7avam, na verdade, o rabo da gar\u00e7onete\u2026<br>Cazzo!! Da gar\u00e7onete que devia visitar a Piet\u00e1 de Michelangelo para fazer a selfie da semana\u2026 Cazzo, nonna!! Como voc\u00ea n\u00e3o enxergou a merda toda?? Questi filgi di un cane que enfiassem o canutti no pr\u00f3prio rabo! Ou no rabo da gar\u00e7onete, se assim lhes fosse mais recomend\u00e1vel\u2026<br>E o \u00f4nibus de Pussy estacionou na Via Nazionale: seu destino final, ao menos naquela noite. E n\u00e3o era bom saber disso: que o destino podia durar apenas uma noite e jamais ser eternizado em retratos que eram apenas retratos, que eram apenas m\u00e3os dadas apertando a bunda de uma gar\u00e7onete qualquer?<br>O destino de uma noite e s\u00f3! E depois poderia se fazer outra, e mais outra, e mais outra viagem\u2026<br>\u00c9 Pussy Jane, \u00e0s vezes os abismos s\u00e3o apenas trilhos de metr\u00f4: s\u00f3 mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o. Se a nonna soubesse\u2026 A vida \u00e9 muito mais Roma do que um p\u00e9 na bunda e um marido atrasado no almo\u00e7o de domingo. Hist\u00f3ria, catacumbas, ru\u00ednas e concreto. Talvez os finais n\u00e3o fossem mesmo nada, comparados \u00e0s batalhas do Coliseu. E as ru\u00ednas, apenas hist\u00f3rias da raccontare, pedra sobre pedra, de um concreto que nunca existiu; era apenas porta-retrato em cabeceira de cama de casal.<br>Tomara a mo\u00e7a do Caf\u00e9 Eliseo, tomando ciocolatta calda, entendesse isso antes de descobrir que o nonno era um grande figlio da\u2026 puttanesca. Ou talvez nem fosse\u2026 Talvez ele simplesmente n\u00e3o tenha visto o encantamento nos olhos da mo\u00e7a da ciocolatta calda, que se tornaria a nonna do molho de tomate curtido in padela n\u00e3o menos que seis horas, todo domingo, esperando o marido tornar ubriaco de uma noitada fellianiana.<br>N\u00e3o havia desculpa: o encantamento da mo\u00e7a ou da nonna, s\u00f3 n\u00e3o foram vistos porque o nonno e o namorado cascamorto estavam piscando pro rabo da gar\u00e7onete que fazia pose pra selfie no facebook\u2026 Selfie com a Piet\u00e1 de Michelangelo\u2026 Una putana! Que com certeza nem sabia cozinhar! Spaghetti alla puttanesca era f\u00e1cil!!<br>Pior \u00e9 que o rabo da mo\u00e7a do Caf\u00e9 Eliseo (e o da nonna Tormenta) deviam ser muito melhores que o da gar\u00e7onete, que nem devia entender nada sobre molho de tomate de seis horas\u2026 Mas \u00e9 a tal da s\u00edndrome da pomba: cagar na cabe\u00e7a alheia \u00e0s escondidas. O nonno e o cara deviam se sentir melhor consigo mesmos sabendo que passavam algu\u00e9m para tr\u00e1s, nem que os tais algu\u00e9ns fossem as mulheres que lhes davam as m\u00e3os (e lhes cozinhavam o molho,as tripas, o rabo, e lhes descascavam a banana).<br>Pensandoci benne, ler de tr\u00e1s pra frente e nas entrelinhas, era muito digno! E absolutamente inteligente! Parab\u00e9ns, Pussy Jane: voc\u00ea realmente tem um dom!<br>Ent\u00e3o, da pr\u00f3xima vez, ao inv\u00e9s de ficar choramingando pelo leite ou p\u00e9 na bunda derramado, antes que a sua despenque, \u00a0em homenagem \u00e0 nonna Tormenta e \u00e0 mo\u00e7a desconhecida do Caf\u00e9 Eliseo tomando chocolate quente (e no rabo allo stesso tempo), manda o seu pr\u00f3prio pseudo namorado cozinhar o carbonara ou apalpar alguma gar\u00e7onete que o fa\u00e7a.<br>T\u00e1, t\u00e1!! Chega, que saco! \u00a0N\u00e3o d\u00e1 pra curtir uma tristeza profunda, um sentimento de perda, um luto, uma rejei\u00e7\u00e3o, como qualquer pessoa comum?!! Tem que sempre existir um senso acusat\u00f3rio, auto-depreciativo, uma culpabilidade intr\u00ednseca, uma\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>&#8220;VAFFANCULO, PUSSY JANE!! &#8221; &#8211; dessa vez quem falou foi Mos\u00e8, do alto de sua estatu\u00e1ria de mille metri, na Fontana dell\u2019 Acqua Felice, na Piazza San Bernardo, logo ali, pr\u00f3ximo a via Nazionale, onde se deitava o destino de Pussy Jane naquela noite. Pelo menos naquela noite\u2026<br>&#8220;VAFFANCULO, PUSSY JANE!!!&#8221; &#8211; com uma voz que atravessava mares e montanhas, e fazia brotar \u00e1gua da rocha esculpida em m\u00e1rmore travertino, grave a austera, como p\u00e9 na bunda algum, por mais dolorido, jamais poderia ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>\u201cVAFFANCULOOOOOOOO!!!&#8221;<br>E um vento da Roma noturna de menos de seis graus, com toda sua hist\u00f3ria, ru\u00ednas, gl\u00f3rias e batalhas, inundou a parca humanidade de Pussy e sua filosofia barata de quem tem os melhores olhos para o cara que pisca para a bunda da gar\u00e7onete\u2026 E que piscasse para bunda da rei de Roma, se ele andasse de r\u00e8! Bela merda! N\u00e3o era a sua e pronto; punto basta! isso j\u00e1 bastava para desqualificar, tanto a bunda da gar\u00e7onete quanto o cara\u2026 E anche r\u00e9 do r\u00e8 di Roma.<br>\u201cVAFFANCULOOOOOO&#8221; &#8211; Mos\u00e8, com a precis\u00e3o que s\u00f3 os deuses poderiam ter\u2026<br>&#8220;CULOOOOOOO&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd6ebdeeeaf349d39790d_03x04-Img5.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"467\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200dE Pussy Jane n\u00e3o teve como n\u00e3o obedecer: recolheu sua ingenuidade vitimesca, tratou de por o rabo bem baixo, sob as ordens de Mos\u00e8, e jurou a si mesma que, dali em diante, andaria reta e digna, sem olhos para gar\u00e7onetes, casais de mentira e meias verdades que significavam absolutamente nada!<br>Fez como lhe disse Mos\u00e8: um sonoro VAFFANCULO aos que n\u00e3o liam o mundo como era, de tr\u00e1s pra frente e \u00e0s avessas!<br>Um revigorante e verdadeiro p\u00e9 na bunda dos deuses, e jamais se sentira t\u00e3o em casa. Aquela noite seu destino era estar precisamente ali: \u00e0s barbas do profeta!<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5f8ca3660533ac0bd403ad91_5c8fd7059e46f1eddad59f66_03x04-Img6.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sentiu-se como em Noites de Cab\u00edria, s\u00f3 um tanto menos ing\u00eanua, e legitimamente Felliniana. Dona de suas todas noites que deitariam: hoje, ali; amanh\u00e3, quem sabe\u2026 Sentiu-se dona da verdade que sempre soubera ser a \u00fanica, mas que tentara, a vida toda, encaixar nos porta-retratos de cabeceira dos casais gladiadores: n\u00e3o existiam felizes para sempre.<br>Nunca um p\u00e9 no rabo lhe dera tamanho vigor!<br>E resolveu que n\u00e3o deixaria a mo\u00e7a do Caf\u00e9 Eliseo e a ciocolatta calda acreditarem nos porta-retratos, nem nos molhos de tomate ou gar\u00e7onetes de sorriso (e outras partes) arreganhados. Recuperou o elo perdido entre a Pussy Jane de inf\u00e2ncias que acreditava que suas tran\u00e7as a levariam aos c\u00e9us, e a adulta que, n\u00e3o fosse Roma e as barbas de Mois\u00e9s, ainda estaria vitimizando-se por mais um p\u00e9 no rabo, mesmo sabendo que relacionamentos, em sua grande maioria, falavam em letras de tr\u00e1s pra frente, e j\u00e1 come\u00e7avam terminando. Em Roma e na vida, todo amor que Pussy poderia experimentar estivera e estaria bem ali: o amor pr\u00f3prio que n\u00e3o se retrata em selfie gar\u00e7onete, ou em retrato de cabeceira; se vive em mapa, mochila e inesquec\u00edveis noites fellinianas.<br>Pussy saiu em disparada em dire\u00e7\u00e3o ao Caf\u00e9 Eliseo, onde se encontrava o tal casal que logo se transformaria, tal nonno e nonna, em porta-retrato de cabeceira. A mo\u00e7a (ou talvez fosse a nonna) deliciando-se de chocolate quente, um perfume doce misturado \u00e0 boca do forno de biscoitos de am\u00eandoa, r\u00e9cem assados, desses del\u00edrios gastron\u00f4micos que s\u00f3 a Italia pode ter. A mo\u00e7a (s\u00f3 podia ser nonna Tormenta) satisfeita: chocolate e m\u00e3os dadas. O rapaz (s\u00f3 podia ser o nonno), de luvas e inten\u00e7\u00f5es escusas, ainda pensando no rabo da gar\u00e7onete\u2026 E a Nonna com um rabo daquele, cozinhando com o molho de seis horas de domingo\u2026 Mamma Mia!!!<br>Pussy Jane, a menina das tran\u00e7as que subiria aos c\u00e9us, temperou, com as ordens do profeta, s\u00e9culos e s\u00e9culos de ru\u00ednas sentimentais e vitimiza\u00e7\u00f5es, seus, de sua nonna e de todas as mulheres que ainda criam em card\u00e1pios de receita \u00fanica e; dentre todas as escolhas, diante do abismo, resolveu saltar: cutucou o ombro do cara que segurava a m\u00e3o da namorada, ao mesmo tempo em que apertava a bunda da gar\u00e7onete, esperou que ele virasse e, num tom de voz que ela imaginou em Mos\u00e8 nella Fontana della\u2019acqua felice, gritou em letras esculpidas a m\u00e1rmore travertino com seu melhor italiano:<br>VAFFANCULO, FIGLIO DI UN CANE!! &#8211; e lhe virou o tapa mais bem dado da hist\u00f3ria de Roma, aquele que a nonna deveria ter esculpido h\u00e1 s\u00e9culos, aquele que a mo\u00e7a do chocolate quente talvez desse dali a 30 anos, muito depois que o namorado cafajeste oferecesse-lhe uma alian\u00e7a que n\u00e3o significava, nem ao avesso, nada; quando j\u00e1 seria tarde demais para descobrir que uma sua vida de ciocolatta calda esfriara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd725f04f3825b4bcb26a_03x04-Img7.jpg\" alt=\"\" width=\"671\" height=\"503\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<br>E os dedos de Pussy Jane ficaram \u00a0estampados \u00e0 fogo na cara de pau do namorado da mo\u00e7a (ou o seu? ou o nonno?), enquanto ela calmamente dava as costas \u00e0 cena, orgulhosa da miss\u00e3o cumprida. O cara (e o nonno) deviam saber porque estavam apanhando: molho de seis horas, o cazzo!<br>A gar\u00e7onete fugiu do Caf\u00e9 Eliseo, mas ainda teve tempo para posar para uma selfie (seria a selfie da semana!! quase quase com o mesmo n\u00famero de curtidas daquela da semana passada, em que ela chupava o ded\u00e3o de Netuno na Fontana di Trevi).<br>A namorada, a tal mo\u00e7a do chocolate quente, meio nonna, meio Pussy, repetiu o &#8220;figlio di un cane\u201d r\u00e9cem proferido e esbofeteou o namorado tamb\u00e9m (apesar dele n\u00e3o ter tido a dignidade de lhe oferecer a outra face). Ela sabia que, no fundo, j\u00e1 devia ter desistido da vida de tr\u00e1s pra frente e outras ingenuidades que aquele e outros caras do mesmo material perec\u00edvel de car\u00e1ter poderiam oferecer. Saiu liberta, tal Pussy (e nonna Tormenta vingada); protagonista de seu pr\u00f3prio filme Fellini: uma panor\u00e2mica no leite derramado, a\u00e7\u00facar e chocolate, e como fundo-cen\u00e1rio, c\u00famplice, o caf\u00e9 Eliseo. Registrando aquele momento \u00a0inesquec\u00edvel, de se ler a vida de tr\u00e1s pra frente em letras claras e de dali em diante. A mo\u00e7a sabia que aquele n\u00e3o era o chocolate quente que merecia; quando provasse um de verdade, reconheceria.<br>E Pussy Jane foi &#8220;in culo&#8221;, como lhe cumpria o profeta, com sua dignidade reiterada, resgatada, reintegrada, como somente Roma poderia ter-lhe escrito. Nunca um p\u00e9 na bunda fora t\u00e3o \u201clev\u00e1-la de volta para casa\u201d: Roma, de onde ela jamais deveria ter sa\u00eddo, almeno quella notte. As outras, cada qual de seu pr\u00f3prio destino\u2026<br>De um simples porta-retrato, a um filme de Fellini\u2026 Quem diria, hein, Pussy Jane? Cab\u00edria aplaude\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5f8ca321d63eeee46721f953_5c8fd6353a73123081e2466d_03x04-Img2.jpg\" alt=\"\" width=\"488\" height=\"554\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-pale-pink-color has-alpha-channel-opacity has-pale-pink-background-color has-background\"\/>\n[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E l\u00e1 estava ela\u2026 Absolutamente em casa: t\u00e3o longe, e perto demais de si mesma; o que muitas vezes parece inevit\u00e1vel\u2026&#8221;\u00c9 exatamente quando a dist\u00e2ncia dos algos que nos escondem se faz imposta, que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para \u201ceus&#8221; impostores ou impositores de verdades apreendidas aprendidas. \u00c9 s\u00f3 quando se est\u00e1 s\u00f3, que nenhuma m\u00e1scara-personalidade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1031,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_et_pb_use_builder":"on","_et_pb_old_content":"<!-- wp:paragraph -->\n<p>E l\u00e1 estava ela\u2026 Absolutamente em casa: t\u00e3o longe, e perto demais de si mesma; o que muitas vezes parece inevit\u00e1vel\u2026<br>\"\u00c9 exatamente quando a dist\u00e2ncia dos algos que nos escondem se faz imposta, que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para \u201ceus\" impostores ou impositores de verdades apreendidas aprendidas. \u00c9 s\u00f3 quando se est\u00e1 s\u00f3, que nenhuma m\u00e1scara-personalidade se faz poss\u00edvel, e nem prov\u00e1vel\u2026<br>\u00c9 bem prov\u00e1vel que s\u00f3 se seja si mesmo \u00e0 beira do abismo, num sentido de n\u00e3o haver como recuar da possibilidade da escolha entre saltar ou retroceder, porque uma vez que se consegue enxergar que h\u00e1 escolha, o salto j\u00e1 foi dado; se est\u00e1 muito presente para que se minta, at\u00e9 para que se sinta. \u00c9 instinto e s\u00f3.<br>E s\u00f3 se \u00e9 instinto, num l\u00e1 dentro que j\u00e1 longe de tudo, porque tudo j\u00e1 \u00e9 l\u00e1 de dentro. \u00c0 beira do abismo se \u00e9 uno com o mundo, em suas \u00fanicas e prov\u00e1veis dire\u00e7\u00f5es: o fim.\"<br>Puta que pariu, hein, Pussy Jane!!\u2026 Filosofia nessas horas n\u00e3o cola, ou gruda demais\u2026 V\u00ea se se localizar no mapa turista porque sen\u00e3o, al\u00e9m de perdida em hip\u00f3teses e faltas de argumento, voc\u00ea perde tamb\u00e9m o \u00f4nibus para o hotel.<br>S\u00f3 faltava essa: de um rec\u00e9m tomado p\u00e9 na bunda a dormir ao relento\u2026 Devia ter ficado no Brasil!<br>\u200d<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"width\":600,\"height\":450} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter is-resized\"><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd61c9e46f10c20d59d9e_03x04-Img1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Pelo mapa, o hotel nem era longe dali, mas melhor se apressar; uma longa exposi\u00e7\u00e3o ao frio da noite romana a menos de seis graus, seria muito mais drama do que o \"ser ou n\u00e3o ser\" desestruturado que ela estava tentando desenvolver, rascunho, no folheto \"boas vindas\" que recebera em Fiumicino, aeroporto da cidade.<br>Roma era amor de tr\u00e1s pra frente: casais de m\u00e3os dadas, \u00e0s luvas; bares e pequenos caf\u00e9s espalhando mesinhas sobre as cal\u00e7adas rusticamente apertadas, regadas a ciocolatta calda e canutti con pana\u2026 Ah, canutti!! Que saudades da nonna Tormenta di Poggiomarino\u2026<br>\u201cFiglio di un cane!!\u201d- era nonna se referindo ao nonno Michelle, toda vez que ele chegava tarde para o almo\u00e7o do domingo (que para ele, retornando da noitada, era cedo at\u00e9 demais). O nonno jamais entenderia a histeria das mulheres, sobretudo das italianas\u2026<br>A imagem dos gladiadores romanos, nonno e nonna, fez com que Pussy Jane, apesar dos casais de m\u00e3os dadas e da ciocolatta calda espalhados pela rua, entendesse que nada era t\u00e3o rom\u00e2ntico assim.<br>Talvez todos os casais, mesmo aqueles mais aparentemente aconchegados de si, fossem todos, gladiadores: nonno e nonna. Pussy recordou a foto de cabeceira de cama dos dois: sorridentes como se feitos um para o outro.<br>Engra\u00e7ado que ela sempre achara aquele retrato t\u00e3o\u2026 t\u00e3o\u2026 Retrato.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"width\":300,\"height\":426} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter is-resized\"><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd691deeeaf9918397693_03x04-Img4.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"426\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Olha l\u00e1, sentados \u00e0 mesa do Caf\u00e9 Eliseo: o cara de m\u00e3o dada com a namorada e piscando para a gar\u00e7onete! Figlio di un cane! Pussy observava, em sua viagem de \u00f4nibus a caminho do hotel, a reitera\u00e7\u00e3o da imagem do retrato \"nonno e nonna\".<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Roma talvez fosse, literalmente, amor de tr\u00e1s pra frente. S\u00f3 um jogo de palavras como aquele, de ler invertido, que ela costumava jogar quando crian\u00e7a, e que a fazia parecer mais inteligente, ou com algum dom especial; afinal ningu\u00e9m entendia do que estava falando\u2026<br>Crescida, Pussy descobrira que as pessoas criam nessas coisas tamb\u00e9m quando adultas: inventam saberes in\u00fateis para se sentirem superiores a algo ou algu\u00e9m. Ok, o jogo de ler tr\u00e1s pra frente tinha at\u00e9 lhe sido \u00fatil, j\u00e1 que lhe conferia, mesmo \u00e0s escuras, uma possibilidade de dom. Mas ser\u00e1 que ela era realmente mais inteligente por isso? Ou apenas mais est\u00fapida por se sentir superior, inventando um saber de mentira? Era uma idiota mesmo\u2026 Que prop\u00f3sito em ler o mundo de tr\u00e1s pra frente?? Ou de ponta cabe\u00e7a??<br>Ah, Pussy Jane, talvez n\u00e3o fosse assim de todo mal entender o avesso das coisas. Se n\u00e3o fosse o jogo de palavras, como voc\u00ea chegaria \u00e0 tal conclus\u00e3o de que Roma, naquele instante, era e deveria significar apenas o amor de tr\u00e1s pra frente: a batalha nonno x nonna, apesar do retrato mentiroso; o namorado de m\u00e3os dadas desejando apalpar a bunda da gar\u00e7onete? Como voc\u00ea leria Roma em letras corretas em um folheto que se escondia em boas-vindas, se n\u00e3o soubesse entender que a vida era do avesso?<br>Olha l\u00e1, a vida \u00e9 o cara piscando pra gar\u00e7onete! Ele s\u00f3 finge que tem uma namorada. Anos dali, ele se transformar\u00e1 no nonno filgio di un cane; e a mo\u00e7a, na nonna que se desfazia em l\u00e1grimas de molho de macarr\u00e3o, todo domingo, todo santo domingo, ap\u00f3s a missa\u2026 Pensando bem, a mo\u00e7a merecia algo melhor do que o papel de nonna; a nonna merecia muito mais do que molho de tomate. Elas um dia j\u00e1 haviam encantado-se com o card\u00e1pio de possibilidades\u2026<br>Eram umas tontas, isso sim! Tutte pazze!! Se tivessem olhos mais atentos e n\u00e3o acreditassem nas lorotas de quem fala o mundo de tr\u00e1s pra frente; se soubessem, como Pussy, ler os avessos, talvez enxergassem que os patifes que lhes ofereciam as m\u00e3os (nonno que perdoasse Pussy Jane) e uma alian\u00e7a sem compromisso algum (exceto financeiro, com a loja que a vendera \u00e0 presta\u00e7\u00e3o), cobi\u00e7avam, na verdade, o rabo da gar\u00e7onete\u2026<br>Cazzo!! Da gar\u00e7onete que devia visitar a Piet\u00e1 de Michelangelo para fazer a selfie da semana\u2026 Cazzo, nonna!! Como voc\u00ea n\u00e3o enxergou a merda toda?? Questi filgi di un cane que enfiassem o canutti no pr\u00f3prio rabo! Ou no rabo da gar\u00e7onete, se assim lhes fosse mais recomend\u00e1vel\u2026<br>E o \u00f4nibus de Pussy estacionou na Via Nazionale: seu destino final, ao menos naquela noite. E n\u00e3o era bom saber disso: que o destino podia durar apenas uma noite e jamais ser eternizado em retratos que eram apenas retratos, que eram apenas m\u00e3os dadas apertando a bunda de uma gar\u00e7onete qualquer?<br>O destino de uma noite e s\u00f3! E depois poderia se fazer outra, e mais outra, e mais outra viagem\u2026<br>\u00c9 Pussy Jane, \u00e0s vezes os abismos s\u00e3o apenas trilhos de metr\u00f4: s\u00f3 mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o. Se a nonna soubesse\u2026 A vida \u00e9 muito mais Roma do que um p\u00e9 na bunda e um marido atrasado no almo\u00e7o de domingo. Hist\u00f3ria, catacumbas, ru\u00ednas e concreto. Talvez os finais n\u00e3o fossem mesmo nada, comparados \u00e0s batalhas do Coliseu. E as ru\u00ednas, apenas hist\u00f3rias da raccontare, pedra sobre pedra, de um concreto que nunca existiu; era apenas porta-retrato em cabeceira de cama de casal.<br>Tomara a mo\u00e7a do Caf\u00e9 Eliseo, tomando ciocolatta calda, entendesse isso antes de descobrir que o nonno era um grande figlio da\u2026 puttanesca. Ou talvez nem fosse\u2026 Talvez ele simplesmente n\u00e3o tenha visto o encantamento nos olhos da mo\u00e7a da ciocolatta calda, que se tornaria a nonna do molho de tomate curtido in padela n\u00e3o menos que seis horas, todo domingo, esperando o marido tornar ubriaco de uma noitada fellianiana.<br>N\u00e3o havia desculpa: o encantamento da mo\u00e7a ou da nonna, s\u00f3 n\u00e3o foram vistos porque o nonno e o namorado cascamorto estavam piscando pro rabo da gar\u00e7onete que fazia pose pra selfie no facebook\u2026 Selfie com a Piet\u00e1 de Michelangelo\u2026 Una putana! Que com certeza nem sabia cozinhar! Spaghetti alla puttanesca era f\u00e1cil!!<br>Pior \u00e9 que o rabo da mo\u00e7a do Caf\u00e9 Eliseo (e o da nonna Tormenta) deviam ser muito melhores que o da gar\u00e7onete, que nem devia entender nada sobre molho de tomate de seis horas\u2026 Mas \u00e9 a tal da s\u00edndrome da pomba: cagar na cabe\u00e7a alheia \u00e0s escondidas. O nonno e o cara deviam se sentir melhor consigo mesmos sabendo que passavam algu\u00e9m para tr\u00e1s, nem que os tais algu\u00e9ns fossem as mulheres que lhes davam as m\u00e3os (e lhes cozinhavam o molho,as tripas, o rabo, e lhes descascavam a banana).<br>Pensandoci benne, ler de tr\u00e1s pra frente e nas entrelinhas, era muito digno! E absolutamente inteligente! Parab\u00e9ns, Pussy Jane: voc\u00ea realmente tem um dom!<br>Ent\u00e3o, da pr\u00f3xima vez, ao inv\u00e9s de ficar choramingando pelo leite ou p\u00e9 na bunda derramado, antes que a sua despenque, \u00a0em homenagem \u00e0 nonna Tormenta e \u00e0 mo\u00e7a desconhecida do Caf\u00e9 Eliseo tomando chocolate quente (e no rabo allo stesso tempo), manda o seu pr\u00f3prio pseudo namorado cozinhar o carbonara ou apalpar alguma gar\u00e7onete que o fa\u00e7a.<br>T\u00e1, t\u00e1!! Chega, que saco! \u00a0N\u00e3o d\u00e1 pra curtir uma tristeza profunda, um sentimento de perda, um luto, uma rejei\u00e7\u00e3o, como qualquer pessoa comum?!! Tem que sempre existir um senso acusat\u00f3rio, auto-depreciativo, uma culpabilidade intr\u00ednseca, uma\u2026<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>\"VAFFANCULO, PUSSY JANE!! \" - dessa vez quem falou foi Mos\u00e8, do alto de sua estatu\u00e1ria de mille metri, na Fontana dell\u2019 Acqua Felice, na Piazza San Bernardo, logo ali, pr\u00f3ximo a via Nazionale, onde se deitava o destino de Pussy Jane naquela noite. Pelo menos naquela noite\u2026<br>\"VAFFANCULO, PUSSY JANE!!!\" - com uma voz que atravessava mares e montanhas, e fazia brotar \u00e1gua da rocha esculpida em m\u00e1rmore travertino, grave a austera, como p\u00e9 na bunda algum, por mais dolorido, jamais poderia ser.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><br>\u201cVAFFANCULOOOOOOOO!!!\"<br>E um vento da Roma noturna de menos de seis graus, com toda sua hist\u00f3ria, ru\u00ednas, gl\u00f3rias e batalhas, inundou a parca humanidade de Pussy e sua filosofia barata de quem tem os melhores olhos para o cara que pisca para a bunda da gar\u00e7onete\u2026 E que piscasse para bunda da rei de Roma, se ele andasse de r\u00e8! Bela merda! N\u00e3o era a sua e pronto; punto basta! isso j\u00e1 bastava para desqualificar, tanto a bunda da gar\u00e7onete quanto o cara\u2026 E anche r\u00e9 do r\u00e8 di Roma.<br>\u201cVAFFANCULOOOOOO\" - Mos\u00e8, com a precis\u00e3o que s\u00f3 os deuses poderiam ter\u2026<br>\"CULOOOOOOO\"<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"width\":450,\"height\":467} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter is-resized\"><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd6ebdeeeaf349d39790d_03x04-Img5.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"467\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>\u200dE Pussy Jane n\u00e3o teve como n\u00e3o obedecer: recolheu sua ingenuidade vitimesca, tratou de por o rabo bem baixo, sob as ordens de Mos\u00e8, e jurou a si mesma que, dali em diante, andaria reta e digna, sem olhos para gar\u00e7onetes, casais de mentira e meias verdades que significavam absolutamente nada!<br>Fez como lhe disse Mos\u00e8: um sonoro VAFFANCULO aos que n\u00e3o liam o mundo como era, de tr\u00e1s pra frente e \u00e0s avessas!<br>Um revigorante e verdadeiro p\u00e9 na bunda dos deuses, e jamais se sentira t\u00e3o em casa. Aquela noite seu destino era estar precisamente ali: \u00e0s barbas do profeta!<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\"} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5f8ca3660533ac0bd403ad91_5c8fd7059e46f1eddad59f66_03x04-Img6.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Sentiu-se como em Noites de Cab\u00edria, s\u00f3 um tanto menos ing\u00eanua, e legitimamente Felliniana. Dona de suas todas noites que deitariam: hoje, ali; amanh\u00e3, quem sabe\u2026 Sentiu-se dona da verdade que sempre soubera ser a \u00fanica, mas que tentara, a vida toda, encaixar nos porta-retratos de cabeceira dos casais gladiadores: n\u00e3o existiam felizes para sempre.<br>Nunca um p\u00e9 no rabo lhe dera tamanho vigor!<br>E resolveu que n\u00e3o deixaria a mo\u00e7a do Caf\u00e9 Eliseo e a ciocolatta calda acreditarem nos porta-retratos, nem nos molhos de tomate ou gar\u00e7onetes de sorriso (e outras partes) arreganhados. Recuperou o elo perdido entre a Pussy Jane de inf\u00e2ncias que acreditava que suas tran\u00e7as a levariam aos c\u00e9us, e a adulta que, n\u00e3o fosse Roma e as barbas de Mois\u00e9s, ainda estaria vitimizando-se por mais um p\u00e9 no rabo, mesmo sabendo que relacionamentos, em sua grande maioria, falavam em letras de tr\u00e1s pra frente, e j\u00e1 come\u00e7avam terminando. Em Roma e na vida, todo amor que Pussy poderia experimentar estivera e estaria bem ali: o amor pr\u00f3prio que n\u00e3o se retrata em selfie gar\u00e7onete, ou em retrato de cabeceira; se vive em mapa, mochila e inesquec\u00edveis noites fellinianas.<br>Pussy saiu em disparada em dire\u00e7\u00e3o ao Caf\u00e9 Eliseo, onde se encontrava o tal casal que logo se transformaria, tal nonno e nonna, em porta-retrato de cabeceira. A mo\u00e7a (ou talvez fosse a nonna) deliciando-se de chocolate quente, um perfume doce misturado \u00e0 boca do forno de biscoitos de am\u00eandoa, r\u00e9cem assados, desses del\u00edrios gastron\u00f4micos que s\u00f3 a Italia pode ter. A mo\u00e7a (s\u00f3 podia ser nonna Tormenta) satisfeita: chocolate e m\u00e3os dadas. O rapaz (s\u00f3 podia ser o nonno), de luvas e inten\u00e7\u00f5es escusas, ainda pensando no rabo da gar\u00e7onete\u2026 E a Nonna com um rabo daquele, cozinhando com o molho de seis horas de domingo\u2026 Mamma Mia!!!<br>Pussy Jane, a menina das tran\u00e7as que subiria aos c\u00e9us, temperou, com as ordens do profeta, s\u00e9culos e s\u00e9culos de ru\u00ednas sentimentais e vitimiza\u00e7\u00f5es, seus, de sua nonna e de todas as mulheres que ainda criam em card\u00e1pios de receita \u00fanica e; dentre todas as escolhas, diante do abismo, resolveu saltar: cutucou o ombro do cara que segurava a m\u00e3o da namorada, ao mesmo tempo em que apertava a bunda da gar\u00e7onete, esperou que ele virasse e, num tom de voz que ela imaginou em Mos\u00e8 nella Fontana della\u2019acqua felice, gritou em letras esculpidas a m\u00e1rmore travertino com seu melhor italiano:<br>VAFFANCULO, FIGLIO DI UN CANE!! - e lhe virou o tapa mais bem dado da hist\u00f3ria de Roma, aquele que a nonna deveria ter esculpido h\u00e1 s\u00e9culos, aquele que a mo\u00e7a do chocolate quente talvez desse dali a 30 anos, muito depois que o namorado cafajeste oferecesse-lhe uma alian\u00e7a que n\u00e3o significava, nem ao avesso, nada; quando j\u00e1 seria tarde demais para descobrir que uma sua vida de ciocolatta calda esfriara.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>\u200d<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"width\":671,\"height\":503} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter is-resized\"><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd725f04f3825b4bcb26a_03x04-Img7.jpg\" alt=\"\" width=\"671\" height=\"503\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>\u200d<br>E os dedos de Pussy Jane ficaram \u00a0estampados \u00e0 fogo na cara de pau do namorado da mo\u00e7a (ou o seu? ou o nonno?), enquanto ela calmamente dava as costas \u00e0 cena, orgulhosa da miss\u00e3o cumprida. O cara (e o nonno) deviam saber porque estavam apanhando: molho de seis horas, o cazzo!<br>A gar\u00e7onete fugiu do Caf\u00e9 Eliseo, mas ainda teve tempo para posar para uma selfie (seria a selfie da semana!! quase quase com o mesmo n\u00famero de curtidas daquela da semana passada, em que ela chupava o ded\u00e3o de Netuno na Fontana di Trevi).<br>A namorada, a tal mo\u00e7a do chocolate quente, meio nonna, meio Pussy, repetiu o \"figlio di un cane\u201d r\u00e9cem proferido e esbofeteou o namorado tamb\u00e9m (apesar dele n\u00e3o ter tido a dignidade de lhe oferecer a outra face). Ela sabia que, no fundo, j\u00e1 devia ter desistido da vida de tr\u00e1s pra frente e outras ingenuidades que aquele e outros caras do mesmo material perec\u00edvel de car\u00e1ter poderiam oferecer. Saiu liberta, tal Pussy (e nonna Tormenta vingada); protagonista de seu pr\u00f3prio filme Fellini: uma panor\u00e2mica no leite derramado, a\u00e7\u00facar e chocolate, e como fundo-cen\u00e1rio, c\u00famplice, o caf\u00e9 Eliseo. Registrando aquele momento \u00a0inesquec\u00edvel, de se ler a vida de tr\u00e1s pra frente em letras claras e de dali em diante. A mo\u00e7a sabia que aquele n\u00e3o era o chocolate quente que merecia; quando provasse um de verdade, reconheceria.<br>E Pussy Jane foi \"in culo\", como lhe cumpria o profeta, com sua dignidade reiterada, resgatada, reintegrada, como somente Roma poderia ter-lhe escrito. Nunca um p\u00e9 na bunda fora t\u00e3o \u201clev\u00e1-la de volta para casa\u201d: Roma, de onde ela jamais deveria ter sa\u00eddo, almeno quella notte. As outras, cada qual de seu pr\u00f3prio destino\u2026<br>De um simples porta-retrato, a um filme de Fellini\u2026 Quem diria, hein, Pussy Jane? Cab\u00edria aplaude\u2026<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>\u200d<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"width\":488,\"height\":554} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter is-resized\"><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5f8ca321d63eeee46721f953_5c8fd6353a73123081e2466d_03x04-Img2.jpg\" alt=\"\" width=\"488\" height=\"554\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>\u200d<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:separator {\"backgroundColor\":\"pale-pink\"} -->\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-pale-pink-color has-alpha-channel-opacity has-pale-pink-background-color has-background\"\/>\n<!-- \/wp:separator -->","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"project_category":[26,21],"project_tag":[],"class_list":["post-1029","project","type-project","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","project_category-capitulo_5","project_category-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/project\/1029","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/project"}],"about":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/project"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1029"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/project\/1029\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1031"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1029"}],"wp:term":[{"taxonomy":"project_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/project_category?post=1029"},{"taxonomy":"project_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/project_tag?post=1029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}