{"id":1025,"date":"2022-04-12T17:29:47","date_gmt":"2022-04-12T20:29:47","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/?post_type=project&#038;p=1025"},"modified":"2022-08-29T17:55:32","modified_gmt":"2022-08-29T20:55:32","slug":"get-back-to-where-you-once-belonged","status":"publish","type":"project","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/project\/get-back-to-where-you-once-belonged\/","title":{"rendered":"Get Back to Where You Once Belonged!"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Central Park &#8211; Nova Iorque<br>Um grilo a observava, equilibrado no vidro do carro em movimento. Pussy Jane, de dentro, passageira, espiava suas entranhas. Estranha aquela vis\u00e3o: os olhos do bicho, penetrantes, confidentes.<br>O r\u00e1dio tocava Deep Purple: \u201cCan you remember, remember my name?\u2026\u201d Perfect Strangers era o nome da m\u00fasica! E \u00e0s vezes Pussy n\u00e3o conseguia lembrar o pr\u00f3prio nome\u2026<br>O grilo parecia saber disso\u2026 \u201cAs I float from your life\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes que o bicho fugisse, Pussy tentou captur\u00e1-lo com a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica. Queria registrar aquele encontro que os fazia de mesma esp\u00e9cie: ela, a passageira estrangeira; ele, o grilo norte-americano, pousado em seu vidro janela que nem seu era; encarando-se ao som de Perfect Strangers. Um vidro fechado, uma tarde de sol e quem sabe, solid\u00e3o. N\u00e3o dessas tristes, que se canta em m\u00fasica de amores chorosos. Uma solid\u00e3o dura, por concreta, de ser si mesma. Logo ela que, muitas vezes, nem seu nome lembrava\u2026 Devia ter algum problema com nomes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>\u201cIf you hear me talking on the wind\u2026 you\u2019ve got to understand we must remain Perfect Strangers\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Ent\u00e3o Pussy Jane preparou foco, lentes e olhos. Estava pronta para prend\u00ea-lo para sempre em um instant\u00e2neo digital quando o vidro da janela se movimentou e ele fugiu, em alguma rua de uma pa\u00eds que era estranho e que, naquele momento, n\u00e3o mais lhe era.<br>O grilo-gafanhoto, o inseto, besouro, desapareceu\u2026 voando em suas asas as necessidades de Pussy, de apreender as coisas que n\u00e3o lhe pertenciam\u2026<br>\u200dTeve \u00edmpetos de jogar a m\u00e1quina pela janela\u2026 perseguir o grilo de sua liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma vontade de se livrar das tentativas de registros e explica\u00e7\u00f5es que deve ter herdado de n\u00e3o sabia de quem\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabia, sim\u2026 herdara de ser humano. Grilos gafanhotos n\u00e3o precisavam entender momentos, apenas observar e voar de suas pr\u00f3prias asas, sem pesos de passados e penas de futuros. Insetos eram s\u00e1bios\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E virou-se para o lado, banco motorista. Seu pai dirigia o autom\u00f3vel. Fora ele mesmo quem abrira a janela e permitira a fuga do grilo mudo-falante. Seu pai\u2026 seu pr\u00f3prio pai sabotara a vontade de registrar momentos e guard\u00e1-los para sempre\u2026 Seu pr\u00f3prio pai\u2026 Teve vontade de culp\u00e1-lo pela fuga do inseto. Claro, todo primeiro \u00edmpeto \u00e9 culpar os pais, mas \u00e9 trivial, \u00e9 muito pouco pr\u00f3prio para quem est\u00e1 em busca de sua identidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Culpou-o, sim, afinal, todos reagem crian\u00e7as e um tanto mimados ante a perda de um algo. Mas perdera algo que nem era seu. E a\u00ed?? E a\u00ed, ningu\u00e9m \u00e9 culpado. Nem o grilo, porque sua fuga n\u00e3o tinha sido fuga, fora instinto de asas. E o ressentimento de Pussy nem fora ressentimento, apenas instinto de quem pensa que possui, de quem desistiu da pr\u00f3pria liberdade e desativou as pr\u00f3prias asas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200dOlhou para o pai, que nem era seu pai. Tamb\u00e9m era da mesma esp\u00e9cie do gafanhoto e da mesma esp\u00e9cie livre de que ela queria inventar-se. Inventar n\u00e3o, de que queria assumir-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E viu nele a mesma voz do inseto voador, reiterando liberdades. Foi isso sempre que o pai tentou ensinar-lhe: a voar\u2026 Ela nunca havia entendido\u2026 Ela, que sabe-se l\u00e1 de onde guardara necessidades de registro e espera. Ela, que sabe-se l\u00e1 de onde aprendera a ser prisioneira. Disso n\u00e3o podia culp\u00e1-lo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 se orgulhou da conclus\u00e3o respons\u00e1vel: era autora dos pronomes que carregava at\u00e9 ent\u00e3o, de seus sujeitos indefinidos e mal explicados, suas sintaxes prolet\u00e1rias, pobres, n\u00e3o por gram\u00e1ticas, mas por se fazerem tamanho dram\u00e1ticas. Tal as can\u00e7\u00f5es de amor-\u00f3dio e melodramas, aquelas com as quais tanto se desidentificava. Talvez ainda n\u00e3o tivesse entendido Perfect Strangers\u2026 Precisava de mais Deep Purple\u2026<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd5206094b8646dae8485_03x03-Img03.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era isso o que buscava. Entender de liberdade, desidentifica\u00e7\u00e3o, de perda de passado, de futuro e de conquistar-se, sem registro, sem saudade, sem solid\u00e3o clich\u00ea\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cGet back, get back, get back to where you once belonged\u201d\u2026 Come\u00e7ou a tocar Beatles, ou talvez fosse s\u00f3 a trilha que lhe soprava pensamentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu pai abrira a janela do grilo mudo-falante, deixando escapar de Pussy a necessidade de guardar algo para sempre; assim como ele pr\u00f3prio fazia, em exerc\u00edcio de vida. Um desprendimento que ela sempre buscou\u2026 Seu pai, que nem era seu pai, t\u00e3o pr\u00f3prio de suas liberdades que nenhum r\u00f3tulo o suportaria. Seu pai, que nem era seu pai\u2026 ensinando-lhe a voar at\u00e9 onde ela realmente pertencia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd53ef04f38c64cbcaeac_03x03-Img04.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cGet back, get back, get back to where you once belonged\u201d\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 o desprendimento pode tornar um homem o que ele realmente \u00e9. Aquela foi a primeira vez em que Pussy Jane ouviu Beatles\u2026 apesar de todas as outras, apesar das instru\u00e7\u00f5es musicais que seu pai, que nem era seu pai, lhe ensinara a vida toda, que nem era toda, e nem era s\u00f3 sua; e s\u00f3 por isso podia chamar de sua\u2026 A vida toda de can\u00e7\u00f5es e letras que nem eram can\u00e7\u00f5es e letras: eram indica\u00e7\u00f5es de caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o entendeu o que estavam fazendo ali, viajando quil\u00f4metros lado a lado, pai e filha, ou Perfect Strangers, ouvindo Beatles e outros insetos\u2026 Entendeu que nenhum encontro era para sempre, e s\u00f3 por isso podia se tornar eterno\u2026<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5c869e9f284cd41840174f26\/5c8fd5729e46f17b28d59c23_03x03-Img05.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-pale-pink-color has-alpha-channel-opacity has-pale-pink-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Central Park &#8211; Nova IorqueUm grilo a observava, equilibrado no vidro do carro em movimento. 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