{"id":1586,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/letra-a-bala\/"},"modified":"2022-08-27T18:38:37","modified_gmt":"2022-08-27T21:38:37","slug":"letra-a-bala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/letra-a-bala\/","title":{"rendered":"Letra \u00e0 bala"},"content":{"rendered":"<p>Perguntaram ao escritor, inventor de frases, o que lhe surtia id\u00e9ias. Como as sortia, caixa-surpresa, versando sobre o que n\u00e3o se viu, ouviu dizer ou nem mesmo se tentou em entendimentos? De que alquimia, colocar nomes-letras em mat\u00e9ria inexistente?<\/p>\n<p>O homem, de sua pena-compaix\u00e3o, disse nada: convidando quem o questionava a buscar a pr\u00f3pria resposta, baixou novamente a cabe\u00e7a, rasa, lisa, em branco, \u00e0 altura do papel. Debru\u00e7ou-se de todo peso: corpo, esp\u00edrito inventivo, experi\u00eancia e ignor\u00e2ncia. Desdobrou-se experimento, \u00e0 m\u00e3o armada do instrumento preferido de lutar seus poucos conheceres: a caneta que o recriava criativo, inspira\u00e7\u00e3o-respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O homem de cavocar letras p\u00f4s-se a desenrolar, enovelando-se na trama de palavras que formava tecido, pele organismo, em tinta sangue-suor que lhe escorria a vida, hemorr\u00e1gica, escolhendo-lhe em vidas avalanches de rodas fortuitas, movidas \u00e0 intensidade de serem em s\u00e9rie e muitas: todas as fun\u00e7\u00f5es que uma \u00fanica alma pudesse atender.<\/p>\n<p>Uma \u00fanica alma socorria-se de todas, existentes ou inventadas, resistentes &nbsp;e passivas, coloridas, doloridas, vincos, rasgos e rusgas, nas letras do escritor que confeccionava p\u00e1gina em pele.<\/p>\n<p>Debru\u00e7ado em seu tempo-v\u00edscera, que era todo o vigor de que dispunha, o homem colecionava press\u00e1gios, sinas, cren\u00e7as, estigmas e des\u00edgnios, sendo-se demais nos demais, a despeito de um \u201ca seu respeito\u201d, em respeito ao peito m\u00faltiplo dos tambores-t\u00edtulo e rodap\u00e9s. Ciranda: nada o detinha. Compaix\u00f5es, entreatos e retrato dos redores; menos criador que espelho da cria\u00e7\u00e3o, devolvia ao mundo, uso-fruto, fruto do que imaginava ter-lhe retirado.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria assentir mediocridades responder ao curioso como concatenavam-lhe as tantas linhas entrelinhas? Que olhasse pr\u00f3prias \u00f3rbitas e visse flores a vales em ossos; respirasse de oxig\u00eanio a toxicidades, regurgitasse em tons ent\u00e3os, salivas c\u00edtricos e adocicados, o amargo de ser-se de outros. O curioso que desse ao trabalho de respirar menos enterrado rep\u00f3rter personagem, e rendesse ao irremedi\u00e1vel que a fun\u00e7\u00e3o desvelar o mundo sugeria: paix\u00e3o por compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que o fulano n\u00e3o se sentava na cadeira do escritor, experimentando como seria-se de outro traseiro?<\/p>\n<p>O escritor levantou-se do papel em que se debru\u00e7ara, deixando o assento estofado que ocupava-lhe o costume, oferecido ao indagador. Entregou-lhe o papel, rec\u00e9m-escrito \u00e0 trama-letra, \u00e0 pele e tinta, frescas. O perguntador sentou-se, acanhado, em lugar escritor, indeciso sobre ser ou n\u00e3o ser de outra vida, tanto mais aquela que abarcava pena de tantas: a sina de um inventor de vidas. O rapaz inseguro p\u00f4s-se a ler as id\u00e9ias, vestidas tinta fresca, tomando cuidado para n\u00e3o borr\u00e1-las de m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o. Leu o que foi descrito acima, at\u00e9 aqui, mantando-se \u00e0 dist\u00e2ncia reticente desses tr\u00eas pontos infinais&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, entendeu do que era feito imaginar diversos. Tomou-se da caneta do escritor, repousada sobre a mesa, em seu papel de ser, e sempre ser, o que a m\u00e3o inventiva lhe somatizasse, e tornou-se um vivo-tinta, letra pelando a pele, fluindo um sangue de verter-se de suas pr\u00f3prias impress\u00f5es: diversos em versos. Debru\u00e7ou-se, talvez primeira vez, despindo-se do personagem imposto favorito, retendo-se a ater-se ao que levava um homem a querer-se muitos. Escreveu, letras em esc\u00e2ndalo, revirando-lhe os escombros de mero observador, concluindo o papel que lhe era oferecido pelo escritor.<\/p>\n<p>&#8220;Compaix\u00e3o \u00e9 o termo que leva a termo vontade da alma, criadora e espelho do mundo que a cont\u00e9m, incontida. Com paix\u00e3o, vivem as letras de sermos todos e um&#8221;.<\/p>\n<p>E finalizou, sem mais abra\u00e7ar-se em necessidades de resposta explicativa. O curioso descobrira-se, em rascunho de caneta delatora, num sussurro \u201cescritor para leitor\u201d, um ser de sempre ser, mais de outros que da curiosidade que o continha, retido, ref\u00e9m de si mesmo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao exato som do ponto final curioso, o escritor, mirando-lhe a alma no fundo-olho espelho, puxou gatilho, assinando-o assassinado, escorrendo tinta-trama-letra misturada \u00e0 pr\u00f3pria pele. Jamais permitiria passivamente que lhe revelassem o segredo compassivo, demitindo-lhe do protagonista imposto preferido.<\/p>\n<p>E escorrendo a pr\u00f3pria historia como fosse outra, imaginou, letra \u00e0 bala, algum novo curioso que lhe reescreveria:<\/p>\n<p>\u201cEsse talvez tenha sido o mais genial final do escritor: o ponto final morrer-lhe, \u00e0 mira de outro ponto de vista\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perguntaram ao escritor, inventor de frases, o que lhe surtia id\u00e9ias. Como as sortia, caixa-surpresa, versando sobre o que n\u00e3o se viu, ouviu dizer ou nem mesmo se tentou em entendimentos? De que alquimia, colocar nomes-letras em mat\u00e9ria inexistente? 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