{"id":1584,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/as-asas-do-mar\/"},"modified":"2022-08-27T17:45:40","modified_gmt":"2022-08-27T20:45:40","slug":"as-asas-do-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/as-asas-do-mar\/","title":{"rendered":"As asas do mar"},"content":{"rendered":"<p>Um ser que usava asas, parado frente ao todo mar. Extasiado ou reflexivo; im\u00f3vel em seu despertar \u00e0s \u00e1guas incalcul\u00e1veis. Algu\u00e9m que usava asas (isso estava claro), mas abstinha-se delas, recolhidas em respeito \u00e0 for\u00e7a \u00e1gua que o absorvia. Olhos inundados de azul, \u00e1gua e horizonte.<\/p>\n<p>Aproximou-se passos rasteiros, acalmados; confiando p\u00e9s \u00e0 areia \u00famida e deixando vazar reclus\u00f5es. Parecia at\u00e9 mais limpo vestindo, sal e suores, novo-\u00e2nimo. Parecia at\u00e9 mais claro que possu\u00eda asas. Parecia at\u00e9 mais t\u00ea-las, at\u00e9 mais s\u00ea-las.<\/p>\n<p>At\u00e9 mais&#8230; a qualquer desvio que acaso tomava-se dele em ent\u00e3os. O ser que usava asas guardadas teve um peito todo expans\u00e3o, mesmo ainda mantendo-as recolhidas em respeito-ora\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a azul motora que o mar despertava, destituindo-lhe de qualquer mal. O mar protegia, assim, ora\u00e7\u00e3o-antecipa\u00e7\u00e3o, dissolvendo sal e terra quaisquer destinos inimigos. O mar sabe dessas coisas de vida e morte.<\/p>\n<p>O ser de asas fechou os olhos, engolindo fragilidade. Como se fazia pequeno frente ao todo mar&#8230; Como se fazia livre de adverso, mau trato&#8230; Como se fazia cor no mar trato&#8230; Respirando em sil\u00eancio fundo, fundos do mar, encheu pulm\u00f5es \u00e0 novidade que sempre lhe esteve \u00e0 tona: o mar era todo seu. De prover-lhe, de porto seguro, de lavar afli\u00e7\u00f5es. O mar todo seu, ondas e ondas trazidas sopro de vento c\u00e9u. O mar todo seu, em firmamento, afirmando-o ser de asas e pedindo que voasse.<\/p>\n<p>Obedecendo espelhos d\u2019\u00e1gua, a criatura alargou-se, alastrou-se, tal fosse agradecimento. Engrandeceu -se, de \u00e1gua, sal e ar. Pulm\u00f5es de mar. Criou-se de um novamente que nem sabia existir. N\u00e3o resistiu \u00e0 ousadia das pr\u00f3prias asas: voou.<\/p>\n<p>E foi como se jamais tivesse sido feito a outro instinto. Voar , voar &#8230; mar alto, respirando a fronte de gotejos sal-sua ess\u00eancia. Mar alto&#8230;<\/p>\n<p>E p\u00f4de entender-se, estendendo ao limite das asas, a humildade voadora, a grandeza de poder lan\u00e7\u00e1-las. P\u00f4de entender-se reflexo do infinito, irm\u00e3o do mar, c\u00e9u e terra molhada; \u00a0parte que partia pertinente: a parte que se al\u00e7ava. Era feito de Sol e mar o peito esgar\u00e7ado em asas de voar.<\/p>\n<p>Al\u00e7ando v\u00f4os, descobriu-se p\u00e1ssaro, naturalmente alturas. Apreendeu seu o que seu sempre fora: c\u00e9u. Planando, de rasos \u00e0 imensid\u00e3o; sempre fora c\u00e9u e \u00e1guas de mar.<\/p>\n<p>Visto o tudo l\u00e1 embaixo, nem ouviu dizer de suas pegadas, de quando antes intimidava-se pousado, observador. \u00c9pocas de quando mar surtia-lhe efeito em separado: ele, um lado, o mar de outro, medo e admira\u00e7\u00e3o. \u00c9pocas de quando n\u00e3o havia dado aten\u00e7\u00e3o as tens\u00f5es vozes de mar\u00e9 que sopravam-lhe um murm\u00fario do dom das asas. Mar\u00e9 chamava-o de irm\u00e3o. Ora\u00e7\u00e3o. Cora\u00e7\u00e3o em asas.<\/p>\n<p>A praia apagara-lhe o antes n\u00e3o p\u00e1ssaro. A \u00e1gua dissolvera a areia que marcava-lhe o tempo estagnado que n\u00e3o passara: ele n\u00e3o havia desaprendido de voar, tinha apenas se esquecido. Tinha sido entregue \u00e0s penas de n\u00e3o possuir-se nas alturas que lhe mereciam. Foi o mar que o descobriu de seu manto protetor, sua mentira de ser em penas reclusas. Foi ao mar o v\u00f4o da retomada, a enxaguar-lhe todo o mal. Mal n\u00e3o maldades, que quem tem asas traz um destino que n\u00e3o trai; cedo tarde chega, assim, nas asas de uma brisa mar. O mar enx\u00e1gua todo mal de si, daquele de asas que se pensa a peso de p\u00e9s. Que se pesa enterrado areia, podendo, de um bate-peito e um respiro de sal, \u00a0voar-se.<\/p>\n<p>O mal que carregava nas costas asas, ainda que nem soubesse o qu\u00e3o sufocar lhe fazia abster-se de tentar-se al\u00e7ar. S\u00f3 soube quando lan\u00e7ou-se. S\u00f3 a\u00ed soube que o antes n\u00e3o lhe havia existido. O tempo em que esquecera-se da fun\u00e7\u00e3o das asas desapareceu. A praia n\u00e3o mais guardava seu rastro estagn\u00e1rio, mero observador. A praia aguardava-lhe o lastro renascimento. E do ent\u00e3o que se fizera, guardaria-lhe apenas em imagem viva de c\u00e9u-seu o reflexo voador de nenhum limite.<\/p>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width: 800px;\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"800px\">","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um ser que usava asas, parado frente ao todo mar. Extasiado ou reflexivo; im\u00f3vel em seu despertar \u00e0s \u00e1guas incalcul\u00e1veis. Algu\u00e9m que usava asas (isso estava claro), mas abstinha-se delas, recolhidas em respeito \u00e0 for\u00e7a \u00e1gua que o absorvia. Olhos inundados de azul, \u00e1gua e horizonte. 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