{"id":1582,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/sobre-os-girassois-e-o-tempo\/"},"modified":"2022-08-27T17:44:39","modified_gmt":"2022-08-27T20:44:39","slug":"sobre-os-girassois-e-o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/sobre-os-girassois-e-o-tempo\/","title":{"rendered":"Sobre os girass\u00f3is e o tempo\u2026"},"content":{"rendered":"<p>Sobre os girass\u00f3is e o tempo\u2026<\/p>\n<p>Giram S\u00f3is, s\u00f3 solit\u00e1rios, giram em vertigem,<\/p>\n<p>Tal a Terra<\/p>\n<p>Tal em Guerra<\/p>\n<p>Tal em fuga ou fogo\u2026<\/p>\n<p>Girass\u00f3is queimam como o tempo<\/p>\n<p>Com o tempo&#8230;<\/p>\n<p>Sobre os girass\u00f3is, pairava o tempo&#8230;<\/p>\n<p>De um azul instinto, t\u00e3o sonho quanto horizontes e preces ao destino.<\/p>\n<p>Uma estrada recortava, quase sem cor, sem gra\u00e7a, o amarelo campo girassol.<\/p>\n<p>A estrada era franca, reta e sem demais sinaliza\u00e7\u00f5es. Apesar da indica\u00e7\u00e3o caminho \u00fanico, perdia-me em olhares redores, desviando aten\u00e7\u00f5es, criando a tens\u00e3o de um suposto algo a mais, maculando a calma plena da retid\u00e3o a que se propunha o caminho: apenas seguir em frente. Meu tempo entre os girass\u00f3is e o azul, entre ch\u00e3o e firmamento era esperar por devires do que havia, e via, logo ali. Meio dia ou coisa assim.<\/p>\n<p>Sob os girass\u00f3is, o tempo.<\/p>\n<p>De terra que tudo e nada permitia. Liberdades giram s\u00f3is: um dia ap\u00f3s o outro e o azul que era eterno, j\u00e1 n\u00e3o mais seria; e chegaria a noite e cobriria, impune, o amarelo vivo dos girass\u00f3is e a chama intensa, meio dia ou coisa.<\/p>\n<p>E ainda assim, escondida de suas cores, a estrada existiria reta, regrada de \u00fanico sentido&#8230; Mesmo no escuro, n\u00e3o se poderia escapar \u00e0 senten\u00e7a: n\u00e3o havia desvio de rota.<\/p>\n<p>E eu, atento ao que viria logo ali, desatento \u00e0 beleza dos girass\u00f3is, em um tempo que, talvez, de minha inf\u00e2ncia, que talvez imaginado, que talvez dado como presente por uma vista de Van Gogh, ou emprestado de tinta barata de calend\u00e1rio folhetim&#8230; Cego pela esperan\u00e7a de um horizonte, eu, desatento, caminhava os campos girass\u00f3is&#8230;<\/p>\n<p>E sobre mim, o tempo anteparo, contando-me os segundos, anunciando desimportado, que um dia a estrada de girass\u00f3is escureceria, n\u00e3o importando o qu\u00e3o horizonte parecesse. Um dia, os s\u00f3is em giro virariam noite e os campos girass\u00f3is seriam apenas uma vaga mem\u00f3ria em pincel. Uma pena\u2026 um poema, uma lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Jamais acreditei no tempo&#8230; Aparentemente t\u00e3o inofensivo em suas simpatias tic-tac-tic-tac; em suas desorienta\u00e7\u00f5es de ponteiros, ora c\u00e1 ora acol\u00e1, ora hora nenhuma. Esse tempo, um piadista&#8230; esse tempo gira&#8230;. gira s\u00f3is&#8230; At\u00e9 que escurece&#8230;<\/p>\n<p>De fato, jamais poderia acreditar no tempo&#8230; tic tic tic tac tic tic tic tac&#8230; dizendo que a estrada fugiria. Como acreditar em um tempo que oferece \u00e0 m\u00e3o armada, de m\u00e3o beijada, quase em b\u00ean\u00e7\u00e3o, a plenitude de amarelo azul, e um horizonte que inspira todas as encarna\u00e7\u00f5es que o arb\u00edtrio pode ter, e, ao mesmo tempo, desoferta todas possibilidades usando o limite dos segundos, minutos, da contagem regressiva&#8230; \u00a0Como crer em um tempo que se oferece livre, quase inconsequente, mas que insiste em passar&#8230; O tempo, que o tempo todo fingiu-se meu&#8230; Esse tempo que tic tac esvai, sem deixar quase vulto, exceto aqueles que s\u00e3o esfor\u00e7os de mem\u00f3ria&#8230; Minha? De quem mesmo? Esse tempo pregui\u00e7oso, que n\u00e3o faz for\u00e7a pra nada&#8230; tic-tac-tic-tac&#8230;<\/p>\n<p>Eu jamais poderia creditar-lhe verdades quando ousava sussurrar, quase que por acaso, cruel, que meu tempo nos campos girass\u00f3is teria um fim&#8230;<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, jamais poderia t\u00ea-lo desacreditado. Esse tempo que oferece \u00e0 m\u00e3o armada, de m\u00e3o beijada, a &#8220;eternidade enquanto dure &#8220;&#8230; Esse tempo duro de t\u00e3o vol\u00e1til, que me invade de vislumbres de caminhos e, ao mesmo tempo, aterroriza-me em sua veracidade de segundos, vorazes, girando s\u00f3is e luas, trazendo luz \u00e0s trevas e trevas \u00e0 luz, circulares, atravancadas em tic-tacs, tic-tacs, tic-tacs\u2026 O tempo que, sem sequer esconder, \u00e9 irremedi\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>O tempo que, mesmo no mais azul girassol dos dias, \u00e9, o tempo todo, um tirano, um algoz. Crueldade inimagin\u00e1vel: declaradamente infinito, o passar do tempo dura para sempre.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algo sobre o tempo que eu jamais descobriria, n\u00e3o fossem suas atrocidades de passar e ir embora, n\u00e3o fossem seus extremos de maldade, extirpando-me peda\u00e7os quase sem dor, s\u00f3 cicatriz. Algo sobre o tempo que me fez, apesar de meus peda\u00e7os de carne j\u00e1 mortos, s\u00f3 acesos de mem\u00f3ria, \u00a0admir\u00e1-lo: o tempo passa para que fiquemos&#8230;<\/p>\n<p>Descobri, num de repente, quando os girass\u00f3is escureceram. E o dia, que me roubava todos os olhares, dire\u00e7\u00f5es e divers\u00e3o de possibilidades imagin\u00e1rias, trouxe apenas uma \u00fanica treva: uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o na estrada, que eu j\u00e1 sabia, era reta e n\u00e3o permitiria outra possibilidade.<\/p>\n<p>Entendi que vivia meu tempo, que nem era meu, \u00e0s metades, dividido entre possibilidades vislumbradas e desejos do que talvez seria&#8230; Vivia meio tempo aqui, e um outro l\u00e1 horizonte que nem podia enxergar&#8230; E nem pude, porque as trevas foram mais \u00e1geis que os girass\u00f3is e fizeram-lhes c\u00famplices enquanto apenas parte de um fim que seria largado em um canto de mem\u00f3ria. Um fim que nem teve come\u00e7o porque eu, mesmo estando nos campos girass\u00f3is, jamais olhei-os presentes, jamais reparei sua plena e irrepar\u00e1vel beleza.<\/p>\n<p>Era sempre, l\u00e1 no horizonte que me apontava. No horizonte que nem via, e talvez nem houvesse, apostava meus segundos&#8230;. que nem eram meus, eram do tempo&#8230; tic-tac tic-tac tic-tac\u2026 O tempo todo.<\/p>\n<p>O tempo tinha raz\u00e3o: a estrada teve um fim.<\/p>\n<p>Acho que o tempo tentou, o tempo todo, alertar-me&#8230; Talvez o Sol de azul profundo fosse um sinal alerta, um mal estar aos olhos cegos para que se fizessem mais presentes, mais plantados nos campos girass\u00f3is&#8230; que giram e giram e giram&#8230; tic-tac tic-tac tic-tac\u2026<\/p>\n<p>E talvez eu tamb\u00e9m n\u00e3o tenha culpa de tentar desacreditar dos avisos do tempo; afinal como conviver com a beleza do campo girassol sabendo que a estrada escureceria?<\/p>\n<p>O tempo, o tempo todo, mostrando-me o caminho dado de presente, mas finito. O tempo e seu alerta que soava zombaria&#8230; O tempo trapaceiro, anunciando finitudes e gabando-se eterno&#8230;<\/p>\n<p>Nem tive como t\u00ea-lo em raivas, porque s\u00f3 descobrindo que segundos n\u00e3o voltam atr\u00e1s, que s\u00e3o sempre os primeiros, somos capazes de um olhar a dentro, uma vista ao que jamais muda. Que tantos quantos forem os s\u00f3is, clareiem-escure\u00e7am, tantas forem as trevas&#8230; o tempo passa tic tac, para que nos tornemos alma&#8230; E retornemos&#8230;<\/p>\n<p>Colhi, no escuro, sob os dons do tempo e apesar dele, um \u00faltimo girassol que nem mais era um girassol, porque j\u00e1 n\u00e3o podia v\u00ea-lo&#8230;. Colhi, escolhendo matar o resto de m\u00e1goa que guardara, tanto tempo, contra o tempo.<\/p>\n<p>Contra-tempo, entendi que o tempo passava e sempre passaria para que almas girassem os s\u00f3is de seu destino, e retornassem, circulares, a descoberta solit\u00e1ria de si mesmas. Para que sementes se tornassem girass\u00f3is, e esses, amarelo cor, que se fariam mem\u00f3rias Van Gogh, e museus ou canetas definhadas em gavetas, ou sonhos em letras de fins sem come\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>O tempo sempre passaria imortalizando o que \u00e9 passageiro.<\/p>\n<p>E eu, um passageiro do tempo, enxerguei o prop\u00f3sito da \u00a0estrada, que tinha o fim de ser-me, semeando-me, eternamente imagem e cor, a estrada sem fim. Um atalho que me desvendava alma, mesmo escurecendo-me os olhos. Cego e l\u00facido, num escuro iluminado de cedo-tarde, azul e amarelo, no canto mais Sol que me guardava\u2026 rendido \u00a0e exausto, perdoei, a tempo, o tempo.<\/p>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width: 1167px;\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"1167px\">\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre os girass\u00f3is e o tempo\u2026 Giram S\u00f3is, s\u00f3 solit\u00e1rios, giram em vertigem, Tal a Terra Tal em Guerra Tal em fuga ou fogo\u2026 Girass\u00f3is queimam como o tempo Com o tempo&#8230; Sobre os girass\u00f3is, pairava o tempo&#8230; De um azul instinto, t\u00e3o sonho quanto horizontes e preces ao destino. 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