{"id":1580,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/big-bang-bang\/"},"modified":"2022-05-23T06:17:24","modified_gmt":"2022-05-23T09:17:24","slug":"big-bang-bang","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/big-bang-bang\/","title":{"rendered":"Big Bang Bang"},"content":{"rendered":"<p>O menino, pequeno, indefeso, ing\u00eanuo e de uma inabilidade que insinuava trag\u00e9dia, fosse tombo ou dedo queimado\u2026 Dessas trag\u00e9dias pequenas, de pequenos, de pouco dano e s\u00f3 susto. A esse menino, sereno e curioso, foi dada, de presente, de gra\u00e7a\u2026 Desses gr\u00e1tis que a inf\u00e2ncia n\u00e3o entende, desses dados que s\u00e3o tomados; nem acusam gratid\u00e3o e nem recusam\u2026 A esse menino, de joelhos-p\u00e9s, de caminhar quatro patas ainda, foi entregue uma arma.<\/p>\n<p>Uma dessas, de a\u00e7o, ouro, n\u00edquel, bala e ferida, tiro e morte. Moeda e corte. Sorte. Roleta russa e ind\u00fastria b\u00e9lica americana. Ou seria chinesa? Uma dessas armas de calibre: 38 40? Ou seria de 45, de uma dessas guerras? Mas 45 j\u00e1 era do mesmo material que 2020, ou 1109 ou G de 5, 4, 3, 2, 1: um novo m\u00edssil ou bomba at\u00f4mica. Um homem na Lua em eclipse, enquanto homens (?) em eclipse na rua. Tudo da mesma bala, de sil\u00edcio a carbono. Tudo da mesma tabela peri\u00f3dica. V\u00ea? A hist\u00f3ria sempre a mesma\u2026 Carbono e diamantes, couro e sil\u00edcio, carne e p\u00f3lvora.<\/p>\n<p>A arma foi dada presente ao menino. In\u00e1bil ainda em polegar opositor, mas de impress\u00e3o digital. Ser\u00e1? Ser\u00e1: o menino j\u00e1 assinava, mesmo sem nome, nem sabendo desenhar letra, uma casa, pai ou m\u00e3e\u2026 O menino, lobo, bobo, instinto, n\u00e3o sabia desenhar, mas assinava em digital. O menino, que nem tinha nome de batismo: nascido gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea: Big Bang. Bang Bang. A arma na m\u00e3o de um menino sem letra, mas que, um dia, assim se esperava, saberia atirar. Roleta russa ou Disnel\u00e2ndia, desses jogos de letras e outras l\u00e2minas\u2026 Sorte ou morte. O menino saberia brincar de gente grande. Soldado soldado: a\u00e7o e carbono. Assim se esperava\u2026 O menino seria soldado um grande homem\u2026<\/p>\n<p>E a arma foi entregue assim, aos cuidados de m\u00e3os meninas, t\u00e3o pequenas e in\u00e1beis\u2026 A pela ainda fina, at\u00e9 do\u00eda carregando-se de a\u00e7o, ferro e p\u00f3lvora. As m\u00e3os que nem conseguiam sustentar a arma ainda\u2026 Mas que orgulho daquele menino que, aos poucos, na curiosidade gelada de tudo o que \u00e9 novo, usava as m\u00e3ozinhas para tatear a nova forma da velha forma de mudar o mundo. O menino, tateando a guerra, descobria o seu: mundo, mudo. Ser\u00e1 que um dia a bala faria barulho?<\/p>\n<p>O menino chacoalhou a arma, tal fosse brinquedo de banda, de palha\u00e7o, de aprender a ouvir o mundo surdo. N\u00e3o se fez, nem fez barulho, a arma de presente. Ent\u00e3o, de um modo como s\u00f3 aqueles que engatinham sem ainda entender as regras de correr mi\u00fado, o menino tentou de novo, com for\u00e7a e mais for\u00e7a\u2026 Mais! Mais for\u00e7a, menino! Mas era pequeno demais e suas m\u00e3os, as m\u00e3os de pele rasa j\u00e1 quase rasgavam, doloridas. Ainda que ansiosas, de uma excita\u00e7\u00e3o que s\u00f3 conhecera quando do primeiro choro, quando deixou a barriga de uma m\u00e3e, mesmo sendo gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. Big bang\u2026 Bang Bang<\/p>\n<p>Mas nada\u2026 Nada do chocalho chacoalhar.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5ea8d1bbe653a02087eadf24_BIGBANGBANG%20copia%202.png\" \/><\/div>\n<p>E menino foi, \u00e0s voltas com um polegar opositor que nem mais fazia diferen\u00e7a, s\u00f3 se fazia digital\u2026 E as vontades de atirar, que nem eram atirar, afinal, o menino n\u00e3o sabia a que serviria aquela arma de presente. A quem servia?<\/p>\n<p>E o menino foi, tentando aqui e acol\u00e1, a chacoalhar, nin\u00e1-la, lan\u00e7\u00e1-la ao alto para tentar acertar as estrelas (isso s\u00f3 quando teve mais bra\u00e7os); at\u00e9 alimentou-a, de sua bala preferida morango artificial, cano abaixo da guela da arma de estima\u00e7\u00e3o. Tentou gr\u00e3os de feij\u00e3o que podiam brotar\u2026 Mas por que n\u00e3o brotavam se eram ferro e carbono, de mesma tabela peri\u00f3dica? Por que a droga da arma n\u00e3o brotava??<\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o cantando ou brotando, a arma era tudo que o soldava aquele primeiro dia, de inf\u00e2ncia, de receber do pai m\u00e3e ou algum outro, quase a vida, um presente, de gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. Uma arma que n\u00e3o era nem de brinquedo, de brinquedo, de ninar, ou sonhar, bem ali, embaixo dos travesseiros que passavam seus dias de adulto.<\/p>\n<p>E foi a vontade de carregar a arma, mesmo sem saber a que servia ou a quem; a vontade de t\u00ea-la por direto, tal o sobrenome pai ou m\u00e3e que nem sabia se se escrevia, que o fez, pouco a pouco, passo a passo, deixar os joelhos do ch\u00e3o e aprender a, homem, p\u00e9s soldados, caminhar. Foi o peso, do chumbo, do n\u00edquel, do carbono, do sil\u00edcio da tabela peri\u00f3dica, no sil\u00eancio do tempo que se contava em moedas, que fez do menino um homem, soldado, r\u00edgido. Um homem com uma arma. Fez a arma, do menino, um homem. Ou do homem, um menino? Big Bang Bang\u2026<\/p>\n<p>Foi a vontade de carregar a arma, de mesma vontade de saber\u2026 atirar? Talvez, ainda n\u00e3o soubesse que vontade era aquela que tateava a alma na palma da m\u00e3o\u2026 Atirar? O mesmo grito de nascer gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, de um ventre qualquer, o mesmo grito estava escondido em algum lugar da arma de n\u00e3o brinquedo, armada da verdade, que letal, at\u00e9 se fingia pl\u00e1stico, mas era chumbo. Era a carne que queimava, de anos e anos da m\u00e3o pela fina, na palma. Napalm.<\/p>\n<p>O homem chacoalhava chacoalhava mas o grito n\u00e3o saia, nem tocava melodia alguma. Que barulho faria aquela arma? E o menino cresceu assim\u2026 Foi brotando os feij\u00f5es plantados no cano, no peito do homem crescido, de mesma tabela peri\u00f3dica\u2026 Foi lancetando uma vontade de atirar-se, ao mundo, chumbo-ferro, junto ao grito proj\u00e9til que tentava reencontrar, na cronologia peri\u00f3dica que o criara gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. Uma bala ou um homem? Big big bang bang bang\u2026<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5ea8d1e1fa29772742e7866c_BIGBANGBANG%20copia.png\" \/><\/div>\n<p>E de tanto am\u00e1-la , tanto s\u00ea-la, a arma, tantos anos, o homem querendo ouvi-la e surdo o mundo, o homem enraiveceu-se; como se faz com o que se ama e n\u00e3o se pode ter. Porque a arma lhe era e n\u00e3o, a arma que lhe fora sempre \u00e0 m\u00e3o, a pr\u00f3pria m\u00e3o, n\u00e3o chacoalhava, n\u00e3o contava hist\u00f3rias (talvez as escrevesse\u2026 mundanamente).<\/p>\n<p>O homem havia lhe dado a vida, n\u00e3o a troco de morte: vida a troco de vida. Que d\u00f3i mais porque poupa da vida a vida que podia ter sido\u2026 D\u00f3i mais, porque vida e vida s\u00e3o da mesma tabela peri\u00f3dica; e ele, soldado \u00e0 arma escolhera chumbo chumbo, escolhera acolh\u00ea-la, a arma, tomando-lhe a alma. De uma letra acaso, ocaso, sorte corte morte porte. Na palma, Napalm\u2026<\/p>\n<p>Ele, soldado, havia dado-lhe a vida, lado a lado, cada calo da m\u00e3o, chumbo-p\u00f3lvora, chumbo-p\u00f3lvora. E a arma\u2026 A arma n\u00e3o dizia palavra ao homem que havia sido enganado pelo menino. Sim, porque o menino, bobo, cria que um dia a arma falaria, retribuindo-lhe a espera t\u00e3o presa ao peito, de reencontrar o grito m\u00e3e na garganta sem ventre. Mas a arma estava muda e n\u00e3o era em gratid\u00e3o ao menino ou ao homem. A arma, assim como o menino, quando a recebera presente, num dia desses da tabela peri\u00f3dica, m\u00e3os in\u00e1beis, indefeso, ing\u00eanuo e de uma inabilidade que insinuava trag\u00e9dia, a arma, \u00e0 mesma medida da ingenuidade lobobobo do menino, a arma n\u00e3o era grata. Tinha sido s\u00f3 gratuita. Corte ou sorte ou morte ou\u2026 A mesma tabela peri\u00f3dica. Bang Boing Bang. a arma n\u00e3o pedira nada em troca. Talvez s\u00f3 a alma, lobobobo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o homem, sem nem mais querer entend\u00ea-la, dessas coisas que se faz com aquilo que se ama e se desisti de ter. O homem, vingando o menino das m\u00e3os calejadas de ferro e p\u00f3lvora, atirou. Puxou gatilho, como nunca havia feito, em dire\u00e7\u00e3o ao mundo mudo. O homem que havia aprendido a usar a arma, uma arma de verdade, para tantas outras coisas de mentira: trocar pneus autom\u00f3veis, parafusar quadros, guardar gr\u00e3os de feijao. O homem jamais suspeitara que bastaria puxar o gatilho-arma para nascer alma de novo. Bang Bang, Big Bang\u2026<\/p>\n<p>E do tiro, que foi ouvido quil\u00f4metros mares de dist\u00e2ncia, do tiro-grito, sa\u00edram letras. Mais letras\u2026 que falavam l\u00ednguas que o homem n\u00e3o conhecia mas que, talvez, o menino que ninava armas soubesse, j\u00e1, de cor. Talvez o menino, em sua ingenuidade lobobobo, soubesse, salteado, pipocando balas, que atirando aos c\u00e9us suas letras, um dia, estaria a salvo. S\u00e3o, salvo calos, calados tanto tempo, napalm, nas palmas das m\u00e3os ainda inaptas. v\u00ea? \u00c9 tudo da mesma tabela peri\u00f3dica\u2026 E, mesmo assim, Big n\u00e3o \u00e9 Bang.<\/p>\n<p>O homem matou o mundo, bang bang big bang, com suas letras e a arma, que ele lobobobo, tentava chocalho. Uma arma que n\u00e3o brincava, nem falava, mas que aguardava, soldada aos trocadilhos de acaso ocaso, uma alma. O homem gritou o tiro que o menino, sabia, brincando ferro, a\u00e7o e p\u00f3lvora, de mesma tabela peri\u00f3dica e sem qualquer cronologia. Ent\u00e3o o homem soube, big bang, bang bang, que o menino, um dia, aprenderia a atirar palavras. Porque assim, Big Bang Bang Bang, assim estava escrito\u2026<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5ea8d1e23219b6054c42c7b0_BIGBANGBANG.png\" \/><\/div>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width: 800px;\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"800px\">Ilustra\u00e7\u00f5es: Maria Lucia Nardy<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O menino, pequeno, indefeso, ing\u00eanuo e de uma inabilidade que insinuava trag\u00e9dia, fosse tombo ou dedo queimado\u2026 Dessas trag\u00e9dias pequenas, de pequenos, de pouco dano e s\u00f3 susto. 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