{"id":1577,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/remissao-quando-a-musica-parou\/"},"modified":"2022-08-27T17:52:59","modified_gmt":"2022-08-27T20:52:59","slug":"remissao-quando-a-musica-parou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/remissao-quando-a-musica-parou\/","title":{"rendered":"Remiss\u00e3o (quando a m\u00fasica parou)"},"content":{"rendered":"<p>A m\u00fasica parou, inesperada, como todo fim. A m\u00fasica acabou. E um sil\u00eancio inexplic\u00e1vel tomou conta dos cantos de som; cada fresta assaltada pelo impacto daquele adeus. Adeus \u00e0 melodia transit\u00f3ria, de falar versos, esculpir verdades que, tantas vezes, n\u00e3o se ousa em voz pr\u00f3pria. Mas que se usam nas palavras-melodias de um outro.<\/p>\n<p>Versos de m\u00fasica esculpem as verdades de um mundo todo que teve sufocado o voraz dom de se manifestar. Versos de m\u00fasica traduzem sil\u00eancio de tantas almas: do triste, \u00e0 culpa, ao algo n\u00e3o dito.<\/p>\n<p>Versos dizem o que se tentou esconder ou se fingiu esquecer. At\u00e9 um \u00fanico algu\u00e9m, em inspira\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se decifra, capaz de escutar afli\u00e7\u00f5es dessas almas em sil\u00eancio esconderijo, passa a transcrev\u00ea-las de som e papel, melodias, solavancos de dor ou amor e um misto.<\/p>\n<p>Assim deve ter nascido a m\u00fasica que, de in\u00edcio, n\u00e3o se ouvia nem havia. A m\u00fasica surgida do sil\u00eancio das vontades resignadas, desistentes de dizer e quase ser. Nasce a m\u00fasica que agora se ouve porque houve um algu\u00e9m a arriscar descobr\u00ed-la, correndo os riscos de desvendar sil\u00eancios. Ouve esse algu\u00e9m que ouviu o espa\u00e7o vazio e passou a desenh\u00e1-lo, n\u00e3o apenas riscos, rotas de fuga.<\/p>\n<p>Porque todo sil\u00eancio guardado teve motivo: um medo emergir, de tornar. Todo sil\u00eancio grudado na garganta teve \u00edmpetos. E, por sorte, algum dia, o sil\u00eancio vira aperto de um peito compositor, de um ouvido telep\u00e1tico ca\u00e7ador de esconderijos alheios rocos, opacos, sem som a gritar ao mundo a brutalidade de esconder-se de si, em si. Brutalizados e esquecidos, aquecidos, em garganta sem prop\u00f3sito. Si, do l\u00e1 r\u00e9\u2026<\/p>\n<p>Por sorte, algum dia, os sil\u00eancios brutais viram aperto de um peito compositor aberto que n\u00e3o se pode conter. S\u00f3 se pode cantar e contar. Um peito que fala, canta, comp\u00f5e.<\/p>\n<p>E todos cada um, carregam tesouros, a\u00ed mesmo, na garganta e no peito. Hist\u00f3rias e frases e fases e ditos, malditos benditos. Prontos para se fazerem existir melodia real, que se ouve, se chora ou se ri. Express\u00e3o de direito que lavra um dever humano: gritar \u00e0 pr\u00f3pria voz. O mundo tem na gana, a garganta de existir.<\/p>\n<p>Todos carregam tesouros mas temem traz\u00ea-los \u00e0 vida. Tremem ao pensarem-se donos da pr\u00f3pria l\u00edngua, das tremas e pontos finais, dos novos per\u00edodos e recuos par\u00e1grafos. Tremem travess\u00e3o, temendo-se livres. Temem-si do l\u00e1 r\u00e9 f\u00e1\u2026<\/p>\n<p>S\u00f3 mesmo um ou outro, aqueles que sabem ler em sons e escutam o sil\u00eancio das vozes guardadas \u00e9 que det\u00eam, direito adquirido, uma esp\u00e9cie de posse emprestada das afli\u00e7\u00f5es humanas. E t\u00eam todo o direito; afinal arriscam-se, em pr\u00f3pria voz e tom, a rabiscar os outros em si. F\u00e1 L\u00e1 D\u00f3\u2026<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o a m\u00fasica parou, silenciando as tantas vozes resgatadas. A m\u00fasica em sua melodia tristeza que traduzia as dores de tantos do mundo e talvez via \u00fanica de reden\u00e7\u00e3o de tantas almas que n\u00e3o sabiam libertar-se no peito. Ou outras tantas que nem sabiam possuir um. A m\u00fasica, \u00fanica via que havia de gritar as vozes que n\u00e3o se ouvia\u2026<\/p>\n<p>A m\u00fasica parou, silenciando o mundo. E, de repente, os milh\u00f5es silenciados ouviram-se, de fato, no gritar do peito sufoco. No sil\u00eancio tiveram que defrontar-se de si e as pedras na garganta que julgavam nem estar mais l\u00e1, incomodaram como nunca, como antes de algu\u00e9m compositor \u00a0conseguir traduzir-lhe melodia, extirpando-lhes tal ferida. As pedras continuavam l\u00e1.<\/p>\n<p>E cada qual, teve que gritar, expulsando um corte roco da garganta, ainda in\u00e1bil, mas doendo de um tanto esperan\u00e7a. Nunca haviam sentido esperan\u00e7a. Nunca haviam sentido\u2026 E o peito ali, compositor, aberto, tal daqueles que tinham dom da melodia. O peito ali chorando r\u00e9cem nascido, uma dor, uma cor um si um la um ca uma do. Re mi<\/p>\n<p>A m\u00fasica parou, e pela primeira vez, cada qual descobriu a pr\u00f3pria voz. No pr\u00f3prio canto que tinha sido encolhido num canto de si qualquer. Sem d\u00f3. Re mi\u2026 S\u00e3os<\/p>\n<p>Era esse o dom dos compositores e de todos aqueles que carregavam, enfim, um peito: remiss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m\u00fasica parou, inesperada, como todo fim. A m\u00fasica acabou. E um sil\u00eancio inexplic\u00e1vel tomou conta dos cantos de som; cada fresta assaltada pelo impacto daquele adeus. Adeus \u00e0 melodia transit\u00f3ria, de falar versos, esculpir verdades que, tantas vezes, n\u00e3o se ousa em voz pr\u00f3pria. Mas que se usam nas palavras-melodias de um outro. Versos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2083,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1577","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-anima_in_cronica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1577"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1577"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1577"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}