{"id":1576,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/bate-e-estaca\/"},"modified":"2022-08-27T17:52:30","modified_gmt":"2022-08-27T20:52:30","slug":"bate-e-estaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/bate-e-estaca\/","title":{"rendered":"Bate e estaca"},"content":{"rendered":"<p>Sujeito reto, sem jeito. Torto no caminhar. Passos largos. Pressa. O que mesmo? Ah, sim! O trabalho&#8230; Passos mais curtos. Desacelerou.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Jo\u00e3o Ningu\u00e9m. Ningu\u00e9m de sobrenome. Pouco culto. Nem bonito, menos ainda original. Sorte nunca ter notado. Nem poderia. Cada minuto seu, um centavo. Para quem vive de trocados, meia hora \u00e9 fortuna.<\/p>\n<p>O caf\u00e9: seu luxo. Esse seu centavo era bem saboreado. Tempo para sentar, uma espregui\u00e7ada, um cigarro, uma d\u00favida&#8230; Anda logo Jo\u00e3o, que o trem vem passando! O ultimo gole sempre afobado. Bituca no ch\u00e3o do bar. Corre, Jo\u00e3o Pedreiro! Eita!<\/p>\n<p>Trem das cinco, trem das seis, trem das sete. Chegou um pouco atrasado. N\u00e3o ganhou bom dia. Bom dia, ali, s\u00f3 at\u00e9 seis e quarenta. Passou disso, s\u00f3 um aceno e olhe l\u00e1; que atraso rendia vinte minutos de trabalho a mais aos companheiros. No m\u00ednimo\u2026 At\u00e9 entendeu a hostilidade. Mas logo ficou pronto. P\u00e1, pedra, cal. Mistura, reboca, cutuca. Tijolo, fuligem, sujeira.<\/p>\n<p>J\u00e1 era boa tarde! Ser\u00e1 algu\u00e9m ali tinha ponteiros? Ser\u00e1 que j\u00e1 era almo\u00e7o? Ser\u00e1 que algu\u00e9m ouviu? Quase imposs\u00edvel. S\u00f3 as marteladas respondiam: Meio dia, Jo\u00e3o Marmita. Ovo, sal, couve \u00a0e feij\u00e3o? Ou era s\u00f3 mesmo arroz e bucho? Era o bucho que j\u00e1 tremia.<\/p>\n<p>E quem se importava da fome, exceto os bra\u00e7os-m\u00e1quinas? Os homens de gravata, muito bem alimentados, achavam defeito aqui, outro l\u00e1. Nem ouviam os est\u00f4magos desocupados dos m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>S\u00f3 as marteladas gritavam. As gravatas observavam. O que as gravatas estariam pensando daqueles homens nus? Ningu\u00e9ns como ele, nus de car\u00e1ter e vontades. Gravatas filhas de uma puta! O pensamento assustou Jo\u00e3o. De repente, era como se todos soubesse que imaginava coisas. Essas estranhezas de ter direitos e fomes. Pingou, gota fria. N\u00e3o sabia se fome ou nervoso. Ant\u00f4nio humano? Imposs\u00edvel! E martelava com vigor. P\u00f4de at\u00e9 sentir os bra\u00e7os formigarem, os mesmos que n\u00e3o lhe pertenciam h\u00e1 tempos.<\/p>\n<p>Mas que diabo estava acontecendo? Como se pode estar bem e, de uma hora para outra, come\u00e7ar a enxergar? Martela, martela, Ningu\u00e9m. Parecia que as gravatas sabiam. Porra de gravatas! Sufocavam. Vigiavam seus pensamentos. Bate e estaca. Olhos acusadores muito pr\u00f3ximos de Jo\u00e3o e sua \u00e1rdua tarefa, nunca assim t\u00e3o ardida de meio dia de almo\u00e7o, t\u00e3o bucho e miolos, fritos. Disfar\u00e7a Ningu\u00e9m, disfar\u00e7a. Se alguma gravata nota o bucho faminto e o miolo disparando a cabe\u00e7a\u2026 Ai se alguma gravata descobre Ningu\u00e9m\u2026<\/p>\n<p>N\u00f3 na garganta. O ronco de fome, o ronco da obra. Gigante voraz, devorador. Cimenta pedreiro; se sente, cimenta. Esconde. Mente. Enterra a gota de sangue suor solid\u00e3o. Mistura ao cimento e constr\u00f3i teu c\u00e1rcere. Gota, gota, goteira. Ant\u00f4nio encharcado de si, de Jo\u00e3o, de um sobrenome que nunca teve. Ou tinha?<\/p>\n<p>Era como se todas as d\u00favidas o encontrassem. E a merda do mundo, nunca t\u00e3o pr\u00f3ximo, cru que cheirava mal. At\u00e9 apiedou-se daqueles martelos carne-osso; apiedou-se de si. Muito mais tinto que piedade, Ningu\u00e9m era raiva. Se pudesse estripar gravatas, escarrar sobre o poder que as fazia opressoras\u2026 Gravatas sempre a olhos atentos a seus erros&#8230; Que m\u00ednimos erros cometia ele? Que culpa nascer sujo, meio bicho? Lixo. Gravatas de merda!<\/p>\n<p>Martela, martela, martela. E o prego enterrado na pr\u00f3pria cabe\u00e7a. Jo\u00e3o vertigem. Mais carca\u00e7a que bucho. E nunca tanta fome.<\/p>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-center\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"center\">\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e9e37d7bf49b4d5e8c674e0_marmita%20copia.png\" \/><\/div>\n<\/figure>\n<p>Ca\u00e7oavam dele, tinha certeza. E disso, conhecia\u2026 Tudo na sua vida eram certezas. Certeza de amanh\u00e3, e amanh\u00e3 e amanh\u00e3. Repetidamente o amanh\u00e3 sem qualquer perspectiva, cimentado, martelado ensurdecedor, com os pr\u00f3prios quase bra\u00e7os, ou o que fosse que segurasse-lhe os miolos apontados na cabe\u00e7a, prontos a disparar. Ou era o bucho com arroz?<\/p>\n<p>Martela, filho da puta! Rangiam dentes. E toda ang\u00fastia destruidora era nada, sobre o s\u00f3lido alicerce do concreto. Canta, assobia, sei l\u00e1. Martela. Martela, Jo\u00e3o filho da puta! Ouve o barulho? \u00c9 isso que te chama! Vai querer sobrenome agora? Vai querer ter tido m\u00e3e?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m parou de martelar. Sil\u00eancio constrangedor, apesar da sinfonia estridente da constru\u00e7\u00e3o. Maestro Ningu\u00e9m largou a reg\u00eancia. Enxugou atesta. Azedo, salgado. Cego, invis\u00edvel \u00e0s gravatas, levantou. Alguns passos de suspense at\u00e9 a mala encardida. Digno, um her\u00f3i. Marmita fria. Era o bucho, seus restos de entranha. Ningu\u00e9m lhe dera permiss\u00e3o. Ningu\u00e9m deu-se permiss\u00e3o. Embora n\u00e3o percebesse, olhavam para ele. Uns admirados, outros descontentes. Algu\u00e9m entendia. Havia, mesmo sem sobrenome, um Homem, por tr\u00e1s da roupa suja.<\/p>\n<p>E foi com a maior dignidade que empunhou sua arma: o garfo pontudo, afiado. Afinado, desconcertando sinfonia de martelo e carne m\u00e1quina. Estripador de gravatas. Feroz, encheu o talher com comida fria. Era o pr\u00f3prio bucho que sangrava cada humilha\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o Assassino. Saboreava sua ira, Feij\u00e3o e sobras anteriores, farinha e bucho barato com arroz. Mastigou a fome com o cal. Comeu bem ali, como se tivesse direitos, mastigando dentes e est\u00f4magos, quase alheio a autoridades e indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Concreto, matou um tanto do orgulho das gravatas. Suas veias n\u00e3o eram cimentadas, n\u00e3o. Ningu\u00e9m era gente. Tinha m\u00e3e e sobrenome. Devia ter\u2026 Naquele instante tinha: Jo\u00e3o Ningu\u00e9m Nunca. E nunca foi t\u00e3o corajoso\u2026 Mesmo Nunca tendo sido Ningu\u00e9m\u2026<\/p>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width: 1035px;\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"1035px\"><\/figure>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sujeito reto, sem jeito. Torto no caminhar. Passos largos. Pressa. O que mesmo? Ah, sim! O trabalho&#8230; Passos mais curtos. Desacelerou. Ant\u00f4nio Jo\u00e3o Ningu\u00e9m. Ningu\u00e9m de sobrenome. Pouco culto. Nem bonito, menos ainda original. Sorte nunca ter notado. Nem poderia. Cada minuto seu, um centavo. Para quem vive de trocados, meia hora \u00e9 fortuna. 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