{"id":1575,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/mangas-bufantes\/"},"modified":"2022-08-27T17:50:12","modified_gmt":"2022-08-27T20:50:12","slug":"mangas-bufantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/mangas-bufantes\/","title":{"rendered":"Mangas bufantes"},"content":{"rendered":"<p>Acordou precisando de rem\u00e9dios. Precisamente duas e quarenta madrugada. Duas ou quarenta madrugadas, indiferentes; que a dor era a mesma. Pregos na cabe\u00e7a, mais de dois ponto quatro; dez pregos inteiros em cada lado do c\u00e9rebro. Um dolorido de miolos que fazia frente a todos e qualquer sono; resistia at\u00e9 mesmo a pesadelo. Duas e quarenta, sem nem necessitar despertador. A cabe\u00e7a doentia j\u00e1 havia sido despertada.<\/p>\n<p>Revirou-se lado e outro no colch\u00e3o vazio. Dois travesseiros por companhia, amassados tal papel anteontem, em mal estar amarfanhado, tenso e alvo; branco algod\u00e3o. Precisava rem\u00e9dios; precisamente em horas madrugadas que, de duas e quarenta em diante, ainda existiria um dia todo. E era quase arrancar a cabe\u00e7a, aquele atordoamento comprimido. Uma, duas c\u00e1psulas e se sentiria melhor\u2026<\/p>\n<p>Alcan\u00e7ou a gaveta do criado mudo. Remexeu de m\u00e3o certeira badulaques e encontrou o vidro salva\u00e7\u00e3o. Duas, tr\u00eas e quatro c\u00e1psulas fariam mais efeito. Engoliu-as a seco, sem sentir arder a garganta, que a cabe\u00e7a tomava toda aten\u00e7\u00e3o. E tensa, o pesco\u00e7o ainda emoldurado a nervos restritivos, remexeu-se inquieta, p\u00e9s e pernas aflitos, sob o branco algod\u00e3o. Sobre o branco algod\u00e3o? Uma leve lembran\u00e7a\u2026<br \/>\nDuas e quarenta e cinco; e t\u00e3o escuro que o algod\u00e3o perdia qualidades de aconchego. Nem fazia diferen\u00e7a negro ou roxo, lil\u00e1s ou vermelho; n\u00e3o se enxergavam cores no quarto de dormir.<\/p>\n<p>Duas e quarenta e tantos: s\u00f3 o sil\u00eancio do vidro de c\u00e1psulas batendo-lhe contra a cabe\u00e7a, adormecendo-lhe um olho apenas, esperando paciente at\u00e9 que a mulher n\u00e3o lhe oferecesse mais resist\u00eancia. Paci\u00eancia: o vidro comprimido nem esperaria tanto.<\/p>\n<p>E a cabe\u00e7a da mulher de colch\u00e3o vazio e dois travesseiros reverberava solid\u00e3o de dor s\u00f3lida, palp\u00e1vel. Colocou a m\u00e3o na nuca, massageando feridas intoc\u00e1veis; quase fendas, quase flores ou bot\u00f5es. A impress\u00e3o de que poderia despir-se, desabotoar-se da cabe\u00e7a. E se pudesse seria como nascer campos em cores, mesmo ante a escurid\u00e3o cega do quarto vazio. E se pudesse? Viveria nova, noiva, flores. Mas a cama estava vazia e assim continuaria.<\/p>\n<p>Amarrou-se a um travesseiro o um dos dois que lhe restavam, das duas e quarenta e tantas madrugadas. E quantas mais lhe restariam aos bot\u00f5es na cabe\u00e7a? Quantas mais rosas perdidas e rodas de vestido branco lhe girariam vertigem e madrugadas-ins\u00f4nias? Quantos buqu\u00eas atiraria, inventados, de costas ao destino? Quantas v\u00edtimas de si mesma teria de fazer-se at\u00e9 livrar-se dos bot\u00f5es na cabe\u00e7a, da grinalda t\u00e3o branca e escura quanto o len\u00e7ol algod\u00e3o?<\/p>\n<p>Todas, tolas, tonteadas. Noites terminais. Que logo o vidro rem\u00e9dio teria de novo que ser acordado de seu sono leve, fajuto, j\u00e1 esperando fraquezas da noiva esquecida noiva. Que sua dor de branco-sujo seria permanente: noiva esquecida noiva. Vestiria sempre o desconforto bordado, n\u00e3o importando a roupa que a estivesse usando. Que tudo a usava, de qualquer forma. Do vidro rem\u00e9dio, transparente em inten\u00e7\u00f5es, ao branco sujo do len\u00e7ol, testemunha\u2026 E bastaria o sutil perfume dos bot\u00f5es de flores esquecidos na cabe\u00e7a, para novamente, madrugada madrugada, despertar \u00e0s pressas o vidro rem\u00e9dio. As m\u00e3os de atabalhoar gavetas, urgentes, descontroladas, pintadas \u00e0 unha, arranhadas, em cor desbotada. Se pudesse desabotoar a cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Que o vestido, quase pele pr\u00f3pria, j\u00e1 a sufocava, estrangulava-lhe poros. N\u00e3o havia mais por onde suores frios ou quentes; obstru\u00edda a bot\u00f5es de flor, a mulher das noivas novidades que n\u00e3o havia. O colch\u00e3o e dois travesseiros, duas madrugadas e quarenta, e mais todas as demais. Ah, se pudesse desabotoar-se da cabe\u00e7a\u2026<\/p>\n<p>E precisamente como previsto, pontual, tornou a retorcer-se dores. Revirou len\u00e7ol encardido de escuro, alcan\u00e7ou o vidro paliativo da gaveta. Muito mais que duas e quarenta. Engoliu doses m\u00faltiplas de calma comprimida, a seco, e s\u00f3 n\u00e3o mastigou-se em vidros porque nem o maxilar movia-se, desativado pelos bot\u00f5es da cabe\u00e7a. Eram os bot\u00f5es desabrochando, aquela toda dor. Bot\u00f5es-buqu\u00eas, amadurecidos demais, fora do prazo de validade, murchos. Ela n\u00e3o suportava as noites sozinha\u2026 N\u00e3o, ali, envolvida a len\u00e7ol algod\u00e3o cheirando de vestido e renda. E rosas tantas brotando-lhe a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Como do\u00eda, crescer flores sem anestesia. Rem\u00e9dio algum funcionava. Nem duas, nem quarenta ou milhares calmarias encapsuladas trariam claridade ao quarto da madrugada. Uma quarto da madrugada e uma vida toda lan\u00e7ada buqu\u00eas de rosas pulsantes na cabe\u00e7a em bot\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o suportava luzes, nem branco, nem o len\u00e7ol algod\u00e3o. Queria poder dormir fingindo-se noiva, amarrando-se em abra\u00e7o de espuma e fronha, tal faria em bra\u00e7os maridos. Queria poder as dores de cabe\u00e7a de se curar com rem\u00e9dio aspirina. Mas a dor eram-lhe em flores, crescendo campos, nascidas murchas, a perturbarem-lhe a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Duas e quarenta, e todas: margaridas, rosas, l\u00edrios; brancas adoecendo sanidade, velando o fim sombrio do feliz que n\u00e3o houve. Nem no final,<\/p>\n<p>Contos de fada n\u00e3o lhe haviam sido fi\u00e9is em pr\u00edncipe ou carruagem. A noiva fora tra\u00edda, atra\u00edda ao leito das flores, em que agora afligia-se sozinha, de len\u00e7ol e dois travesseiros. Do\u00edam-lhe ramalhetes, da nuca ao topo da cabe\u00e7a, da nuvens de mangas bufantes e desenho de vida a dois. Duas e quarenta e s\u00f3 rabiscos do homem inventado, camuflado pelas mangas bufante do vestido branco.<\/p>\n<p>Nublaram-se as fantasias e o real chovia triste, desmentindo o sonho do vestido de len\u00e7ol que chovendo desistente, fazia nascer flores de solid\u00e3o. Pesadelos: duas, dez, quarenta, infinitas madrugadas. O sonho vestido de branco n\u00e3o passava de len\u00e7ol solteiro barato. N\u00e3o passava\u2026 Eternamente amassada, a sensa\u00e7\u00e3o de ser s\u00f3. N\u00e3o passava: nem rem\u00e9dio, nem vidro transparente. Jamais desabotoaria a cabe\u00e7a. A dor das flores era sua \u00fanica lembran\u00e7a. Desvencilhar-se da noiva seria jamais saber-se.<\/p>\n<p>E aquela noite, como todas as outras, as rosas escutaram a dor surda da noiva que nunca, da noiva que sempre\u2026<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordou precisando de rem\u00e9dios. Precisamente duas e quarenta madrugada. Duas ou quarenta madrugadas, indiferentes; que a dor era a mesma. Pregos na cabe\u00e7a, mais de dois ponto quatro; dez pregos inteiros em cada lado do c\u00e9rebro. Um dolorido de miolos que fazia frente a todos e qualquer sono; resistia at\u00e9 mesmo a pesadelo. 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