{"id":1573,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/a-chave-da-fenda\/"},"modified":"2022-08-27T17:49:38","modified_gmt":"2022-08-27T20:49:38","slug":"a-chave-da-fenda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/a-chave-da-fenda\/","title":{"rendered":"A chave da fenda"},"content":{"rendered":"<p>Uma chave: \u00e9 o que me sustenta a m\u00e3o. Mais que dedos, ossos ou m\u00fasculo; mais que for\u00e7a motora ou impress\u00f5es digitais. Uma chave se faz todo espa\u00e7o da minha palma; toda minha inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E s\u00f3 ela pesa, central. S\u00f3 a ela se resumem os bens. Um homem cujo tesouro acumulado rendera isso: uma chave. Custou-me dinheiro, ins\u00f4nias, caridades e consci\u00eancias, dias desesperos e noites sem c\u00e9u, contemplativos. Custou-me existir sem cor, de c\u00f3r, cismado das mesmas preocupa\u00e7\u00f5es: encontrar a tal porta que iniciasse caminho. A porta que me inaugurasse passos. A porta que encaixasse na chave.<\/p>\n<p>Foi o vislumbre da porta, mentirosa, que me fez criar uma vida de busca pela chave. Uma que coubesse encaixe perfeito, e me abrisse bra\u00e7os a um novo mundo. A porta, que devo ter visto em sonho, ou contemplado, met\u00e1fora de liberdade. A porta incitou-me a procurar a chave .<\/p>\n<p>E foi preso a ela, ferramenta abre-alas, que consumiram-se os tempos: demorou at\u00e9 que pudesse desvend\u00e1-la. Pre\u00e7o alto: aquele que s\u00f3 se pode pagar com a pr\u00f3pria carne da experi\u00eancia acumulada. Pre\u00e7o amadurecido ardido, como n\u00e3o deveria ser.<\/p>\n<p>Experi\u00eancia deveria tender-se a sutilezas, inspira\u00e7\u00f5es. Achei, achava\u2026 Mas a chave\u2026 t\u00ea-la em m\u00e3os foi provar da garganta arranhada: tanto tempo para encontr\u00e1-la e s\u00f3 depois perceber que, no percurso, havia perdido a vis\u00e3o da porta. Perdera a porta, o vislumbre dos meus tais novos passos. Perdera a porta&#8230;<\/p>\n<p>De que adiantaria a chave, ent\u00e3o? Experi\u00eancia deveria-se \u00e0 descoberta inspira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a verdades, assim, t\u00e3o rasgadas que ditam atrav\u00e9s de experi\u00eancia que experi\u00eancias n\u00e3o servem a nada. Aonde, enfim, escondera-se a porta respons\u00e1vel por meus passos at\u00e9 a chave?<\/p>\n<p>De que haviam valido os tormentos do atr\u00e1s, se o instrumento abre-portas sulcando-me, tal fenda, assistia-me, agora, um tolo: um homem com uma chave na m\u00e3o, sem porta alguma a que recorrer. Uma chave que nem se importa.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia deveria ter-me elucidado antes; n\u00e3o no agora, um justo agora em que a chave, pesando toneladas, deveria encaixar-se de perfeitos, aos meus caminhos de porta-aberta.<\/p>\n<p>Mas experi\u00eancia \u00e9 assim, n\u00e3o? S\u00f3 visita ap\u00f3s longo tempo\u2026 E ainda obriga- me, abrigada de uma parte mais generosa de mim, a agradecer pelo homem c\u00f4nscio que me tornei. Ainda que desiludido: no peito uma fenda de chave.<\/p>\n<p>E muito c\u00f4nscio, embora pouco consistente, pergunto: Aonde, enfim, encaixo-me de portas? Como as abro e adentro futuros?<\/p>\n<p>Trancado a espa\u00e7o aberto, e com uma chave na m\u00e3o. Olho redor e s\u00f3 h\u00e1 luzes, quase cegam; n\u00e3o imp\u00f5em dire\u00e7\u00e3o ou d\u00e3o conta de apontar sentidos. S\u00f3 cinco? Parecem pedir mais, algo instinto. Mas instinto? Experi\u00eancia traz instinto? Ou traz-me extinto? As luzes parecem&#8230; E a toda experi\u00eancia\u2026 Essa perece que n\u00e3o sei a que equipar\u00e1-las, as luzem que me padecem.<\/p>\n<p>S\u00f3 encaixo na fechadura da porta n\u00e3o aberta que nem se importa da minha chave toneladas na m\u00e3o, cansada de futuros.<\/p>\n<p>As luzes aparecem\u2026 Liberdade? Mas e a porta aberta fechada? Essa era a liberdade! As luzes me perecem toda experi\u00eancia acumulada e surgidas assim, tal fosse-me nova palavra, novo sentido sem eixo ou dire\u00e7\u00e3o. Liberdade! Tal fosse-me a porta que nem existiu, escancarada, abra\u00e7ando-me os bra\u00e7os cansados do peso de chave que procura de caminho.<\/p>\n<p>Uma liberdade clara, que n\u00e3o falava de portas ou mecanismos especiais de descoberta. Mas existia concreta, sem que se precisasse toc\u00e1-la. Imprecisa e perfeita, sem ser cimento, osso, ferro ou arame; concreta, preenchendo-me \u00a0a fenda no peito esburacado pela chave.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o era isso descobrir o caminho? Livrar-se das chaves? Ent\u00e3o a liberdade da porta aberta n\u00e3o trancava ningu\u00e9m? N\u00e3o pedia pre\u00e7o, sacrif\u00edcio, opini\u00e3o, c\u00e1lculo e algoritmo? Era s\u00f3 isso? Desvencilhar do encaixe chave-fechadura e preencher a fenda no peito de uma luz que nem pedia passagem, apenas atravessa-me\u2026 Inesperada e inconclusiva como nunca a experi\u00eancia pode acumulada ser. Olhei para tr\u00e1s e n\u00e3o havia nada: nenhum passo dos milhares quil\u00f4metros, anos sem luz, percorridos at\u00e9 um ali. Nada\u2026 Nenhum um rascunho do caminho.<\/p>\n<p>E o bra\u00e7o cansado, um abra\u00e7o, fez-se toda for\u00e7a, atirando longe a chave da fenda de toneladas. Um bra\u00e7o a bra\u00e7o, nem ferro ou concreto, s\u00f3 al\u00edvio, al\u00e7ando aos c\u00e9us ou qual fosse a met\u00e1fora do tempo-espa\u00e7o, o homem preso \u00e0 chave. Agora voava. Que n\u00e3o havia portas: almas saltavam janelas, assaltavam qualquer concreto que as pudesse fazer os p\u00e9s no ch\u00e3o. Por isso n\u00e3o havia passos de seu caminho a um at\u00e9 ali. Nem chave ou fechadura. Desvencilhei da fenda do peito da tal chave, transformando a ilus\u00e3o das portas em passos n\u00e3o dados: \u00a0a liberdade voava e era sem dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A que servira a experi\u00eancia da chave de fenda? Talvez n\u00e3o precisasse descobrir. Os caminhos nem sempre s\u00e3o precisos assim. S\u00e3o apenas necess\u00e1rios.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma chave: \u00e9 o que me sustenta a m\u00e3o. Mais que dedos, ossos ou m\u00fasculo; mais que for\u00e7a motora ou impress\u00f5es digitais. Uma chave se faz todo espa\u00e7o da minha palma; toda minha inten\u00e7\u00e3o. E s\u00f3 ela pesa, central. S\u00f3 a ela se resumem os bens. Um homem cujo tesouro acumulado rendera isso: uma chave. 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