{"id":1572,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/caca-ao-tesouro\/"},"modified":"2022-08-27T17:49:15","modified_gmt":"2022-08-27T20:49:15","slug":"caca-ao-tesouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/caca-ao-tesouro\/","title":{"rendered":"Ca\u00e7a ao tesouro"},"content":{"rendered":"<h4><strong>Revisando gavetas \u00e0 procura de moedas. Tal fosse brincadeira de crian\u00e7a: ca\u00e7a ao tesouro. Reboli\u00e7os por centavos.<\/strong><\/h4>\n<h4><strong>Das quatro gavetas da estante da sala, aquela seria a \u00faltima tentativa, e mesmo assim, o total da busca n\u00e3o ultrapassava dois e quarenta\u2026<\/strong><\/h4>\n<h4>Pre\u00e7o de que, dois e quarenta? Ma\u00e7o de cigarro? In\u00fatil a um n\u00e3o fumante\u2026 Caf\u00e9 chocolate de padaria? Mas e a gorjeta? Dois cachorros quentes ambulantes, desconfi\u00e1veis?<\/h4>\n<h4>Pre\u00e7o de nada\u2026 A conta de dois e quarenta era de somar ansiedade acumulada, transferida a fren\u00e9ticas buscas por trocados; quase esmola. N\u00e3o havia mais gra\u00e7a naquela brincadeira de ca\u00e7ar moedas.<\/h4>\n<h4>Mas nem mesmo a consci\u00eancia adulta era capaz de faz\u00ea-lo desistente. Ainda havia um algo de m\u00e1gico no barulho cintilante de bolsos afortunados. Algo para al\u00e9m de dinheiro. Talvez a brincadeira de esconder, a recompensa do encontrar\u2026<\/h4>\n<h4>Ca\u00e7ar moedas deveria ter muito mais gra\u00e7a, agora; afinal, n\u00e3o eram mais de pl\u00e1stico: tilintavam de real. Ent\u00e3o por que o jogo revestira-se de tempo \u00e0 toa, falta do que fazer, ansiedade maturada? Se o agora adulto, ainda garoto, pudesse ca\u00e7ar moedas de verdade, n\u00e3o haveria empecilho que o despistasse; seria seu brinquedo preferido.<\/h4>\n<h4>Mas adultos n\u00e3o ca\u00e7am tesouros, simplesmente acumulam moedas. Contradi\u00e7\u00f5es humanas\u2026 A maturidade \u00e9 capaz de trazer experi\u00eancia e liquidez argumentativa e, ao mesmo tempo, proporcional inabilidade para lidar com o mais simples. Por exemplo: valorar dois e quarenta de gaveta.<\/h4>\n<h4>O rapaz, que uma vez tinha sido menino, continuava em sua busca por centavos, mesmo a julgar-se um tanto infantil. No fundo, sabia que n\u00e3o o era: infantilidades presenteiam com emo\u00e7\u00e3o, divertimento. Ele se sentia, na realidade, um tolo.<\/h4>\n<h4>Trazia-as hom\u00f4nimas, tolice e inf\u00e2ncia, por puro despeito de adulto sem fantasia. Hora outra desequilibrava-se de sua sobriedade e, por instantes, em ansiedade crua e colorida, no fundo da gaveta, encontrava-se com o menino ca\u00e7a-tesouros\u2026 E a\u00ed, o pouco mais de dois e cinq\u00fcenta (j\u00e1 havia encontrado outros quinze centavos!) podia ser muito: bala e bombom, pap\u00e9is de desenho e recorte, dois cachorros quentes para dividir com companhia, uma tarde qualquer\u2026 Pre\u00e7o de pequenas coisas que lhe dariam algos inestim\u00e1veis.<\/h4>\n<h4>Sim, era quest\u00e3o de tempo e centavos: em sua busca de gaveta, cedo ou tarde, o adulto recuperaria-se menino.<\/h4>\n<h4>E vasculhava, alternando-se entre o rapaz coletor de moedas e o menino ca\u00e7a-tesouros: contas, canetas, chaveiros, folhetos fast-food. Badulaques habitantes de arm\u00e1rio e gaveta. Nenhuma droga de moeda, nem mi\u00fada, nem ousada! Nada que valesse a pena!<\/h4>\n<h4>E mesmo que o homem tentasse revestir a busca de formalidades reclamativas, o menino insistia na brincadeira. E insistiria at\u00e9 que o homem percebesse o verdadeiro valor das moedas.<\/h4>\n<h4>Canetas, contas, fast-fast, banco, chave\u2026 Chave de fenda, prego e alicate.<\/h4>\n<h4>J\u00e1 quase desistia, devolvendo seus dois e pouco \u00e0 gaveta mais pr\u00f3xima que, provavelmente, revisitaria, ainda e sempre, contaminado do menino ca\u00e7ador\u2026 Quase desistia dos valores quando, de repente, deparou-se com a m\u00e3e, mo\u00e7a: uma fotografia intrusa em seu roteiro do fundo mais fundo da gaveta de centavos.<\/h4>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width: 409px;\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"409px\">\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e9ba52c1cf653538d58c790_CAC%CC%A7A%20%20-%20co%CC%81pia.png\" \/><\/div>\n<\/figure>\n<h4>Fotografia dessas que nem existem mais. A m\u00e3e: contorno feminino acrescido de um preto e branco artista, luz, sombra e contraste. Uma mo\u00e7a que talvez jamais tivesse imaginado fazer parte, em instant\u00e2neo, da gaveta de um suposto filho ca\u00e7ador.<\/h4>\n<h4>Magnetizavam, os olhos limpos, brilhantes de vida mesmo em s\u00e9pia. Zombavam da objetiva que os flagrara e riam-se, em beleza esverdeada de preto e branco, da infantilidade do menino. Ou do homem ca\u00e7ador?<\/h4>\n<h4>Ria-se a mo\u00e7a das v\u00e3s objetividades das lentes, em sua tentativa de captur\u00e1-la de seu mundo e sufoc\u00e1-la na gaveta. Ria-se do homem afoito por moedas que, surpreso, reconhecera-a, ainda t\u00e3o mo\u00e7a, como m\u00e3e. Ria-se\u2026<\/h4>\n<h4>N\u00e3o sorriso de deboche: condescendente, de quem traz nos olhos em s\u00e9pia, a tranquilidade de saber-se ent\u00e3o mo\u00e7a, depois m\u00e3e e depois\u2026 E depois?<\/h4>\n<h4>Era a mesma: m\u00e3e, mo\u00e7a e fotografia. O rosto, os dentes e perfumes\u2026A m\u00e3e\u2026 Em preto e branco, cores e movimento, trazendo o menino ca\u00e7ador de homens e o homem ca\u00e7ador de moedas, nos bra\u00e7os.<\/h4>\n<h4>O que a m\u00e3e diria se o visse \u00e0 procura de moedas?<\/h4>\n<h4>A foto ria-se, m\u00e3e, achando gra\u00e7as do moleque adultizado, adulterado em suas motiva\u00e7\u00f5es infantis e ca\u00e7as ao tesouro. A m\u00e3e ria-se, foto, como se esperasse por ele para dar-lhe conselhos e resolver-lhe a falta de moedas.<\/h4>\n<h4>A m\u00e3e riu-se dele e, desconcertando-o, interrompeu-lhe a busca. Foi s\u00f3 ent\u00e3o que o rapaz encontrou, em mesmo tom s\u00e9pia, no fundo mais fundo da gaveta, seu tesouro.<\/h4>\n<h4>A obsess\u00e3o por moedas n\u00e3o residia motivada pela troca de valores (ma\u00e7o cigarro, caf\u00e9-chocolate, bala de goma) mas pelos valores em troca de seu tempo passado. O mesmo que decorrera desde que a foto tornara-se m\u00e3e. O tempo corridio, escorrido, que o desvendara homem feito e o desviara do caminho. Qual seria o caminho do menino ca\u00e7ador?<\/h4>\n<h4>Talvez, tal fizera ao sorriso materno, o tempo pudesse conservar-lhe os tesouros esquecidos, guardados em gavetas, validados ainda que em des\u00e1gio, tal centavos. Talvez o tempo o aguardasse, ali, na gaveta, desvelando-lhe o retrato triste da realidade de homem adulto, para traz\u00ea-lo nos bra\u00e7os da m\u00e3e em s\u00e9pia, novamente menino.<\/h4>\n<h4>Pregaram-lhe uma pe\u00e7a: a mo\u00e7a m\u00e3e, as moedas, os anos decrescidos de crescentes aus\u00eancias, refut\u00e1veis e fr\u00e1geis raz\u00f5es. Pregaram-lhe a pe\u00e7a que faltava para exclu\u00ed-lo das buscas miser\u00e1veis, para que esquecesse das migalhas e atentasse aos mais ricos cofres. Quanta riqueza de si, nos olhos maternos, no fundo gaveta, no preto e branco de seu menino colorido&#8230;<\/h4>\n<h4>Despejou os trocados de bolso na gaveta, em nada, derrotado. Despejou-os na inten\u00e7\u00e3o de tornar a procur\u00e1-los; n\u00e3o como homem de gan\u00e2ncia, ou como quem esconde o menino. Voltaria a contabiliza-los como moleque de brincar. Ca\u00e7a ao tesouro .<\/h4>\n<h4>Tomou em m\u00e3os a foto da m\u00e3e. O sorriso s\u00e9pia.<\/h4>\n<h4>N\u00e3o quis guard\u00e1-lo ali, fundo vinco de gaveta. Lembran\u00e7as escondidas enrugam. Quis retribuir: enla\u00e7ou-a em colo filho. Rec\u00e9m-nascida a esperan\u00e7a de que tempo eterniza e de que ele sempre seria, n\u00e3o o homem, mas o menino ca\u00e7ador de moedas.<\/h4>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revisando gavetas \u00e0 procura de moedas. Tal fosse brincadeira de crian\u00e7a: ca\u00e7a ao tesouro. Reboli\u00e7os por centavos. Das quatro gavetas da estante da sala, aquela seria a \u00faltima tentativa, e mesmo assim, o total da busca n\u00e3o ultrapassava dois e quarenta\u2026 Pre\u00e7o de que, dois e quarenta? Ma\u00e7o de cigarro? 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