{"id":1569,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/as-vesperas-do-fim-do-mundo\/"},"modified":"2022-08-27T17:46:30","modified_gmt":"2022-08-27T20:46:30","slug":"as-vesperas-do-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/as-vesperas-do-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"\u00c0s v\u00e9speras do fim do mundo"},"content":{"rendered":"<p>Tinha-me como companhia\u2026 Num dia comum, desse meio de semana, desses dias que se quer evitar viver. Sim, j\u00e1 quis evitar viver. Quem n\u00e3o?\u2026 Quem n\u00e3o desistiu-se a alma, num dia desses, de uma quarta, ter\u00e7a, sexta, mil\u00e9sima volta de ponteiro e solid\u00e3o compartilhados. Quem n\u00e3o?<\/p>\n<p>Foi dif\u00edcil admitir, a mim mesma, uma positivista inata, dessas que nasce aos trancos e barrancos de frase feita e filosofia inerte, de papel. Que papel essa tal filosofia ao fim do mundo? Custou\u2026 Custou-me a l\u00e1grima mais do\u00edda que foi, aos poucos, rasgando-me a carne-sorriso, falsa, vendida, vencida, sempre compartilhada. Custou uma l\u00e1grima \u00e1cida, corrosiva, que embrulhou-me o est\u00f4mago do diagn\u00f3stico mais seco e brutal que j\u00e1 havia merecido, num dia desses em que quis evitar viver: o fim do mundo e eu, enfim, estava em paz.<\/p>\n<p>A cicatriz da l\u00e1grima corrosiva era testemunha: o fim do mundo e, eu, enfim, no mundo, um eu, enfim\u2026<\/p>\n<p>E a cada passo na rua deserta, um e outro corro\u00eddos como eu, talvez estupefatos em mesma constata\u00e7\u00e3o, mas usando m\u00e1scaras.<\/p>\n<p>E todos usamos\u2026 todos sempre usamos m\u00e1scaras. Dessa vez\u2026 S\u00f3 dessa vez, n\u00e3o quis; talvez por ser o fim do mundo\u2026<\/p>\n<p>E resolvi andar a alma nos olhos, encarar aquele dia que poderia ser um dia desses em que quis evitar de viver, mas n\u00e3o \u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o era: era um dia morto nunca t\u00e3o vivo. Nunca t\u00e3o ch\u00e3o e afirmativo da solid\u00e3o que sempre trouxera ao peito.<\/p>\n<p>Era o meu fim do mundo, aquele que tinha estado sempre presente, concretizado no sil\u00eancio das cal\u00e7adas vazias, esgueirando-se em um e outro que, talvez como eu, tentava desvencilhar-se, em uma \u00faltima chance, \u00a0das m\u00e1scaras.<\/p>\n<p>Um ou outro que, talvez como eu, \u00a0n\u00e3o tinha coragem de olhar nos olhos. N\u00e3o nos meus\u2026 Ou seriam os meus olhos descobrindo-se de alma, que j\u00e1 n\u00e3o enxergavam mais nada ou outro, apenas os lugares, os mesmos, que percorrera anos e anos, agora, apesar de mortos, nunca t\u00e3o vivos\u2026 Talvez fosse minha alma, envergonhada mas redescoberta, que n\u00e3o quisesse olhar os olhos outros, e descobri-los vazios. Talvez nesse meu dia de fim do mundo, esse fosse meu voto: compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>E havia p\u00e1ssaros, p\u00e1ssaros que nunca ouvia, que se travestiam de buzinas e asfalto arrastado, nesses dias de evitar a vida. Avilt\u00e1-la\u2026 N\u00e3o eram avi\u00f5es: p\u00e1ssaros ressuscitados, que nem mais voavam, enterrados no concreto dos corredores vazios da cidade suja. Eram os p\u00e1ssaros ou a aus\u00eancia das \u00a0multid\u00f5es que eu ouvia? Era o que eu n\u00e3o via, ou era o peito enterrado de asfalto, vivo, sufocado? Ou eram os olhos que fugiam das outras almas que se queriam livres mas que sem m\u00e1scaras j\u00e1 n\u00e3o podiam mais respirar?<\/p>\n<p>Ouvi um peito e um suspiro. Era o fim do mundo e eu nunca existira t\u00e3o franca por admitir-me t\u00e3o fraca recontando, a cada passo, os dias de evitar a vida. Correndo o tempo que , de repente parou, para livrar-me deles.<\/p>\n<p>E a vida que tinha a vida toda pra acontecer e era, aos poucos, apagada no olhar m\u00edope e emba\u00e7ado daquela gente que usava m\u00e1scaras. A vida, pronta pra existir sorrindo, rasgando cada l\u00e1grima os sorriso de vender almas de lama.<\/p>\n<p>E eu s\u00f3 enxergava isso, agora, enquanto me despedia do passado andando passos largos n\u00e3o se sabia onde, em dire\u00e7\u00e3o ao fim do mundo? Descompasso\u2026<\/p>\n<p>Ah, eu nunca havia sentido o cheiro das aus\u00eancias. Era doce, eram tantas, eram tolas, todas, que n\u00e3o podiam mais compensar o tempo perdido, n\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras de, enfim, o mundo. Ou seria o fim? Ou era esse meu come\u00e7o?<\/p>\n<p>Despedi-me de mim, dos olhos turvos, que assentiram sem qualquer d\u00f3 a l\u00e1grima \u00e1cida rasgar-me o riso prospectivo, sempre prospectivo. E eram os p\u00e1ssaros e uma m\u00fasica: era <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VOgFZfRVaww\">Imagine<\/a> ou Imagini, era ingl\u00eas ou italiano? Ou o canto dos p\u00e1ssaros \u00e9 que era universal?<\/p>\n<p>Por que s\u00f3 agora eu ouvia? Por que, s\u00f3 agora, a via? Por que s\u00f3 agora o caminho de concreto era nada mais que ilus\u00e3o e o v\u00f4o do est\u00f4mago n\u00e3o podia mais disfar\u00e7ar a alma p\u00e1lida, perdida? Por que s\u00f3 agora eu era carne e osso? \u00c0s v\u00e9speras do fim do mundo? Ou as v\u00e9speras do, &#8220;enfim, o mundo\u201d?<\/p>\n<p>Era Imagine <em>\u201cliving life and peace\u201d<\/em>\u2026 Era Lennon, era<em> &#8220;una canzone che se ne v\u00e0\u201d\u2026<\/em> Eram Beatles e Zucchero e uma playlist de algu\u00e9m que eu quase nem conhecia: eu. Que eu quase nem existia, at\u00e9 que um dia\u2026 \u00e0s v\u00e9speras do fim do mundo\u2026 Enfim, o mundo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/youtu.be\/XVxIL0nn7Vc\"><em>\u201cUna luce fa luce laggi\u00f9, vedi?&#8221;<\/em><\/a><\/p>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width: 800px;\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"800px\">","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha-me como companhia\u2026 Num dia comum, desse meio de semana, desses dias que se quer evitar viver. Sim, j\u00e1 quis evitar viver. 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