{"id":1563,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/homens-de-bens\/"},"modified":"2022-08-27T17:54:23","modified_gmt":"2022-08-27T20:54:23","slug":"homens-de-bens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/homens-de-bens\/","title":{"rendered":"Homens de bens"},"content":{"rendered":"<p>Bateram \u00e0 porta. Pouco mais de tr\u00eas da tarde. Hor\u00e1rio impr\u00f3prio para atender. N\u00e3o se atende \u00e0s tr\u00eas da tarde no mundo contempor\u00e2neo; n\u00e3o em sua pr\u00f3pria casa. N\u00e3o se est\u00e1 jamais desocupado \u00e0s tr\u00eas. N\u00e3o se est\u00e1, jamais, desocupado\u2026<\/p>\n<p>Estranhamente, por algum motivo, a campainha inesperada acertara-me o n\u00famero, naquele dia. Tive que atend\u00ea-la, por conta de car\u00e1ter, peso na consci\u00eancia ou simples educa\u00e7\u00e3o. Tive que verificar, pela fresta da janela, quem seria a perturbar-me \u00e0s tr\u00eas da tarde.<\/p>\n<p>Um tanto receoso, espionei. O cuidado para n\u00e3o fazer-me vis\u00edvel a quem quer que fosse. A esperan\u00e7a de que o intruso tomasse rumo de volta e desistisse da campainha. Olhei-o por alguns segundos, sem que me percebesse. Quase meio minuto, e nenhum sinal de prov\u00e1vel desist\u00eancia. Rendi-me \u00e0 paci\u00eancia do homem e abri a porta da sala. Dirigi-me ao port\u00e3o.<\/p>\n<p>Parei a uma dist\u00e2ncia de, mais ou menos, um metro, do inoportuno. Pareceu-me inofensivo: mais de meia idade, de altura pouca, rosto vincado, tipo popular. Segurava uma bicicleta; via-se, bem velha. Tinha as roupas sujas e barba por fazer. Tipo popular. Duvido tenha reparado-me a cal\u00e7a cara, paga \u00e0 presta\u00e7\u00e3o; nem t\u00e3o pouco o bom gosto das cores combinadas. Duvido tenha reparado-me algo, nem mesmo a m\u00e1 vontade. Ao menos fez-me sentir n\u00e3o t\u00e3o culpado pelas roupas e pela atitude neo-burguesa, sempre pronta ao distante. Sorriu prontid\u00e3o, trazendo \u00e0 boca, dentes de falhas e faltas :<\/p>\n<p>&#8211; Boa tarde , mo\u00e7o. Desculpe o inc\u00f4modo. Sou amolador de faca. Ser\u00e1 que o senhor n\u00e3o tem nada a\u00ed pra amolar?<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e558dabddc6ce6e6f178fe9_co%CC%81pia%20de%20prisao5.png\" \/><\/div>\n<p>O homem segurava a bicicleta, tal bicho de estima\u00e7\u00e3o. Mais que isso: tal \u00fanica estima. O olhar era vago, apesar de sorrir a vincos laterais. Quis saber porqu\u00ea sorria, mas n\u00e3o mencionei palavra, e me fiz curioso daquela boca t\u00e3o pobre, que pareceu sincera. Com certeza amolava facas; mas o sincero de que falo \u00e9 o sorriso, que n\u00e3o pareceu, em momento algum, publicit\u00e1rio. O homem n\u00e3o tinha nada de auto-promotor. Amolava e s\u00f3; era esse seu servi\u00e7o, talvez sua vida. Havia amolado-me as tr\u00eas da tarde at\u00edpica e eu sequer precisei dar-lhe nada em troca. Ser amolado nesses dias de tr\u00eas da tarde em que se est\u00e1 sempre ocupado, talvez seja presente\u2026<\/p>\n<p>Devo ter ficado um tanto constrangido com o pedido amolador; estarrecido\u2026 Deve ter sido o contraste do sorriso desdentado com a minha camisa, impass\u00edvel, de grife. Quis saber por que sorria\u2026 Que motivo amolador! Que motivo, amolador? Tentava imaginar. Devo admitir que admirei-me da peculiaridade da figura. Quase m\u00edtica, quase Barnab\u00e9; o t\u00edpico miser\u00e1vel que se l\u00ea em contos de papel; o t\u00edpico que se compra em contos de r\u00e9is. Pena eu n\u00e3o ter facas a amolar\u2026<\/p>\n<p>Tive receio de negar-lhe moeda; ou talvez vergonha, cab\u00edvel a homens de posi\u00e7\u00e3o, posi\u00e7\u00e3o qualquer que seja. Estima-se, nesses dias de tr\u00eas da tarde, vestir-se de posi\u00e7\u00e3o: o superior homem bom. Trabalho, divirto, crist\u00e3o, casado, filhos, moral, volunt\u00e1rio. Papel assumido de homem de bem e bens.<\/p>\n<p>Quis vender ao homem amolador minha publicidade desgastada: saquei, n\u00e3o faca; mas tr\u00eas ou quatro moedas gordas, que deveriam valer eternas amola\u00e7\u00f5es. Dirigi-me a ele e, quando bem pr\u00f3ximo, estendi-lhe a m\u00e3o rica, retribuindo-lhe o sorriso que me parecera sincero. Talvez o meu n\u00e3o fosse t\u00e3o digno assim: um sorriso subornando o amolador para que ele levasse consigo minhas virtudes de homem bom, superior, \u00e0s tr\u00eas da tarde sempre ocupadas. Quem sabe ele n\u00e3o contasse a hist\u00f3ria das moedas ofertadas \u00e0 mulher, filhos e netos? Ou comprasse-lhes caixa de bombom &#8230; Pagasse d\u00edvida de bar &#8230;<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e558d17fad94e7eb533feb3_moedas%20-%20co%CC%81pia.png\" \/><\/div>\n<p>O homem olhou-me sem mais as rugas risonhas, de um estranhamento inesperado. Interrogativo, mirou as moedas :<\/p>\n<p>&#8211; E as faca? Tem tudo isso de faca pra amolar? E as faca? Num amolo moeda, n\u00e3o, mo\u00e7o. Se num tem faca, desculpe incomod\u00e1.<\/p>\n<p>Montou na bicicleta e seguiu caminho, deixando-me a m\u00e3o estendida, a mesma que me vendia como homem bom. Sumiu, tal apari\u00e7\u00e3o, levando a honra das moedas e deixando amola\u00e7\u00f5es. Devo ter parecido pat\u00e9tico, de sorriso amarelo e roupas combinando. Tom pastel. O pobre diabo pisara-me a humanidade; e com raz\u00e3o. Quem era eu afinal para desmerecer-lhe o trabalho e os pneus gastos da \u00a0bicicleta? Rasgou-me e enraiveci, cuspido em minha cristandade indulgente. Invejei-lhe integridade e postura, mesmo sem os dentes. Dignidade \u00e0 vista clara, ainda que enferrujada de selim e suja de cal\u00e7as definhadas. Dignidade rara: aquelas minhas moedas n\u00e3o valiam nada.<\/p>\n<p>Se ao menos eu pudesse amolar facas&#8230;<\/p>\n<p>Talvez, mais uns minutos \u00e0s tr\u00eas da tarde e o tivesse matado, tamanha a crueldade de sua negativa. Negara-me a superioridade auto-adquirida. Autoimune, eu era o homem de trocados gratuitos\u2026 Eu sim, o homem de l\u00e2minas, auto-cortante, pontas e espinhos.<\/p>\n<p>Menti: tinha facas aos montes, nem aquelas moedas dariam conta. Facas e cortes, guardados, at\u00e9 de mim mesmo. Bastou o amolador para que as lembrasse pontiagudas e gritantes. Havia me esquecido o quanto era h\u00e1bil em ferir; o qu\u00e3o d\u00e9bil como homem de bem. Ferira o amolador de facas, o homem que carregava armas sem inten\u00e7\u00e3o. Eu, o homem bom das moedas cortantes.<\/p>\n<p>Olhei o bolso: estava completamente esfaqueado. Jamais percebera o quanto letais podiam ser as moedas. O homem que afiava facas dos outros desafiara-me com seu despretensioso sorriso de bicicleta; afinando-me, sutil, ao final das contas, bem e bens, minutos e tr\u00eas de tantas tardes, valores e moedas. Tive que engoli-las, uma a uma, rasgando garganta\u2026 Afiou-me de gra\u00e7a, \u00a0a dor de uma ira sorridente, que, talvez um dia, rodas e rodas de bicicleta mais tarde, para al\u00e9m das tr\u00eas das tardes, fosse curativa. Por enquanto, ainda era uma amola\u00e7\u00e3o: talvez homens de bens n\u00e3o fossem, tanto assim, homens de bem.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e55a8963900dd1be2c92280_facas.png\" \/><\/div>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width: 800px;\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"800px\">","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bateram \u00e0 porta. Pouco mais de tr\u00eas da tarde. Hor\u00e1rio impr\u00f3prio para atender. N\u00e3o se atende \u00e0s tr\u00eas da tarde no mundo contempor\u00e2neo; n\u00e3o em sua pr\u00f3pria casa. N\u00e3o se est\u00e1 jamais desocupado \u00e0s tr\u00eas. N\u00e3o se est\u00e1, jamais, desocupado\u2026 Estranhamente, por algum motivo, a campainha inesperada acertara-me o n\u00famero, naquele dia. 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