{"id":1561,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/um-par-de-botas\/"},"modified":"2022-08-27T18:03:13","modified_gmt":"2022-08-27T21:03:13","slug":"um-par-de-botas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/um-par-de-botas\/","title":{"rendered":"Um par de botas"},"content":{"rendered":"<p>Dia da faxina. A casa, quinze dias deixada ao Deus quiser, j\u00e1 n\u00e3o era melhor companhia para estados de solid\u00e3o. Tornara-se insuport\u00e1vel, tamanhas bagun\u00e7a e sujeira. A cozinha em restos do anteontem, dispensa quase vazia, panos de prato j\u00e1 servindo a rodo de enxugar ch\u00e3o. A sala intransit\u00e1vel: papel de bala e biscoito, tigela de pipoca da noite anterior, livros espalhados sobre o tapete de p\u00f3. O quarto, por sua vez, a pior parte: multid\u00e3o de pernas de cal\u00e7a e mangas de camisa, avessas, limpas ou usadas; p\u00e9s de sapato, meias e calcinhas. Uma liquida\u00e7\u00e3o! Poria a casa \u00e0 venda. Seria mais sensato do que contar com a faxina.<\/p>\n<p>Resolveu come\u00e7ar pelo mais dif\u00edcil, afinal, precisava de desafios; havia tornado-se em monotonias. Ent\u00e3o, liquidaria o quarto! Espregui\u00e7ou-se em uma \u00faltima tentativa de voltar atr\u00e1s, entregar-se ao marasmo e deixar que as roupas espalhadas caminhassem por si pr\u00f3prias. Um suspiro do tipo &#8220;anda, olha o que tem pela frente\u2026\u201d e a vontade forjada de organizar. Na verdade, vontade at\u00e9 existia; o problema eram os obst\u00e1culos: \u00a0imposs\u00edvel dar um passo sem trope\u00e7o. Mas, enfim, andara lendo sobre ordem mental, ouvindo serecotecos motivacionais\u2026 Que estava meio de ponta-cabe\u00e7a: h\u00e1 dias, talvez quase os quinze, sem vontades, sem sentido, buscando resgatar um si mesmo desistente. Quem sabe estivesse perdido entre meias, cal\u00e7as, panos de prato e romances sobre tapete? Quem sabe \u00a0a tal faxina n\u00e3o a encontrasse de volta?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7ou, inventando um \u00e2nimo que, gostaria, espont\u00e2neo. Dobrou as roupas, uma a uma, ajeitando-as no arm\u00e1rio; ou as atirando sobre uma montanha de vestes inintelig\u00edveis. Nossa! Esquecera-se do casaco caro, deitado, atirado, uma cena de assassinato, perto da porta. Recolheu-o, ainda vivo, ainda em lembran\u00e7as da noite de frio da semana passada, quando o vestira. Abriu novamente o arm\u00e1rio, para guard\u00e1-lo, e foi surpreendida por avalanche de roupas incontidas. Trabalho dobrado: teve que esvaziar gavetas e prateleiras e, sem displic\u00eancias, ajeitar cal\u00e7as, blusas e eteceteras; at\u00e9 chap\u00e9us, len\u00e7os e moda praia: tudo em seu devido lugar.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o eram as roupas, ali, a despencarem-se sobre a mulher, mas partes dela pr\u00f3pria: pernas, bra\u00e7os e todo espectro de lembran\u00e7as-ocasi\u00f5es em que tinha sido, ousada ou usada. Partes dela pr\u00f3pria, narrando trechos de sua vida, chamando-lhe aten\u00e7\u00e3o \u00e0 urg\u00eancia de uma reforma.<\/p>\n<p>Resolveu-se por escolher quais das tais partes lhe serviam, quais momentos tinham sido justos, e os que n\u00e3o serviam mais. Desvencilhou-se de tanta coisa que o arm\u00e1rio respirou aliviado, fechando portas sem estufamento; prontas para se abrirem a novas surpresas. Outros dias, outra pele, tantos outros momentos. Ensacou o que n\u00e3o lhe servia e botou porta afora.<\/p>\n<p>J\u00e1 podia ver melhor o ch\u00e3o, pisar com mais clareza, encostar os p\u00e9s, planos, cientes de uma sua assertividade em selecionar o que servia ou n\u00e3o mais. Que o ultrapassado j\u00e1 vivera ousado: tudo, de fato, um dia tinha servido, mesmo que apenas como par\u00e2metro para que se descobrisse o que definitivamente lhe ca\u00eda bem. Tudo, um dia, tinha servido, mas ela j\u00e1 estava pronta para experimentar o novo, de novo.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e5968a9cbc8c6cbb95525fe_botas.png\" \/><\/div>\n<p>Arrumou a cama; tamb\u00e9m n\u00e3o quis os mesmos len\u00e7\u00f3is. Algu\u00e9m apreciaria-lhes os tons past\u00e9is; agora seus tons deveriam ser vibrantes. E faria o mesmo \u00e0s paredes, porque adorava tintas. Ah , sim! Como se esquecera? Adorava tintas! E, por anos, em inf\u00e2ncia, pensou ser esse seu grande dom. Como pudera esquecer-se?\u2026<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e0 lista de compras: len\u00e7\u00f3is novos e cores vibrantes, em pano e parede; algumas latas de tinta, rolo e pincel. Pintaria um arco-\u00edris no novo quarto e poria, limpos, ocupando prateleiras, seus bichos infantis e sorrisos de jovem pintora.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m respirou alguns antigos perfumes esquecidos. Como traziam, n\u00e3o apenas os bons momentos, mas toda boa sensa\u00e7\u00e3o do que a fazia feliz. Os bons momentos haviam passado e, tal len\u00e7\u00f3is, n\u00e3o serviam mais; mas a ess\u00eancia do que fazia-lhe vibrar a alma, essa devia ser a mesma. Aroma inconfund\u00edvel: podiam passar anos e d\u00e9cadas e vidas e roupas, cal\u00e7as, camisas; o que fazia felicidade continuava existindo, do mesmo tamanho, vestindo o mesmo perfume.<\/p>\n<p>Sorriu, voltando ao seu lugar tesouro. Ser\u00e1 que havia se encontrado no meio da bagun\u00e7a? T\u00e3o f\u00e1cil assim? Usou-se de vassoura para levar longe poeiras e resqu\u00edcios dos desusos constatados. Ter o piso limpo e firme; nada antepondo-se entre p\u00e9s e realidade, qualquer uma que ousasse usar. Um impulso instant\u00e2neo de deitar sobre aquele ch\u00e3o, aquele concreto todo seu.<\/p>\n<p>E deitada, espionou os segredos embaixo da cama. Quase viu-se, menina, esconde-esconde divertido; quase viu-se, procurando ovos de P\u00e1scoa e presentes de Natal. Quase riu-se do medo dos fantasmas que lhe roubavam os sono.<\/p>\n<p>Dos segredos embaixo da cama, n\u00e3o sobrara nenhum: euforias e festejos, chocolates e can\u00e7\u00f5es, os perfumes. Fantasmas?<\/p>\n<p>O que fizera com os segredos embaixo da cama? Agora j\u00e1 n\u00e3o tinha medo algum de traz\u00ea-los \u00e0 tona, nem em quarto escuro. E se houvesse monstros fantasmas, diria a si mesma que eram apenas fantasia e os expulsaria, todos, tal roupa e len\u00e7\u00f3is que n\u00e3o serviam mais. Mas olhou, olhou\u2026 E n\u00e3o havia nada, bicho-pap\u00e3o ou chocolate\u2026 Nada de segredos, exceto um par de botas pretas, cano meio alto, em p\u00e9, esquecidos embaixo da cama.<\/p>\n<p>Lembrou-se de um segredo: aquele par era id\u00eantico ao modelo que usava sua primeira boneca. A boneca que cal\u00e7ara seus sonhos de ser adulta. Lembrou-se, menina, em seu desejo tolo, desses de esconder junto aos fantasmas, de ser exatamente como a boneca, em cabelos, trajes e bota preta de pelica. Seu segredo de querer ser bela, t\u00e3o ocupada e feliz quanto o corpo pl\u00e1stico que ela, menina, ensinara a caminhar. Seu segredo est\u00fapido de querer-se boneca, escondido, ali, embaixo da cama.<\/p>\n<p>Alcan\u00e7ou o par de sapatos mais que depressa, resgatando-se a tempo de respirar sonhos novamente. E riu-se, olhando para o par de botas altas, vendo-se em toda a possibilidade de ser bela e t\u00e3o feliz quanto o poss\u00edvel, quanto alcan\u00e7\u00e1vel em alturas de saltar sapatos. P\u00f4de ver-se, ela pr\u00f3pria caminhando-se boneca, n\u00e3o em pl\u00e1stico, em carne l\u00facida e alma viva. Ela boneca. Mas que fim teria levado seu brinquedo preferido? Quando, afinal, deixara-o \u00f3rf\u00e3o, \u00a0no meio caminho?<\/p>\n<p>Vestiu o par de botas, buscou o melhor vestido no arm\u00e1rio desanuviado. Nunca lhe pareceram t\u00e3o sedosos os cabelos n\u00e3o sint\u00e9ticos; os cabelos que h\u00e1 tempos n\u00e3o soltava. Quinze dias, o per\u00edodo em que a casa ficara esquecida em poeiras\u2026<\/p>\n<p>Vestiu-se de seus segredos mais \u00edntimos, nem infantis nem adultos, que a alma n\u00e3o tem idade. Vestiu-se dela, aquela boneca esquecida no caminho, um fantasma que habitava-lhe as botas. Saiu em busca de tintas e cal\u00e7adas e blusas e perfumes em suas novas cores. Saiu escrevendo o pr\u00f3prio mundo. Nem mais uma pergunta sem resposta. A boneca n\u00e3o tinha sido roubada ou jogada fora no percurso; a mo\u00e7a tinha se tornado boneca, tendo os passos guiados pelo par de sapatos mais Cinderela que jamais imaginara.<\/p>\n<p>As mesmas&#8230; exatamente as mesmas botas com que sonhara, esperando-a, ali, zelando-lhe sonhos, embaixo da cama. E pensar que, crian\u00e7a, usava ter medo dos fantasmas guardados\u2026 \u00c0s vezes eles s\u00f3 \u00a0precisam ser cal\u00e7ados&#8230; Um\u00a0belo par\u00a0de botas.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia da faxina. A casa, quinze dias deixada ao Deus quiser, j\u00e1 n\u00e3o era melhor companhia para estados de solid\u00e3o. Tornara-se insuport\u00e1vel, tamanhas bagun\u00e7a e sujeira. 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