{"id":1554,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/a-estrada\/"},"modified":"2022-08-27T18:00:18","modified_gmt":"2022-08-27T21:00:18","slug":"a-estrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/a-estrada\/","title":{"rendered":"A estrada"},"content":{"rendered":"<p>Estrada, quase passando do meio-dia. De uma metade que j\u00e1 n\u00e3o mais me pertencia. O que fizera das metades e dos meios? O que, exatamente?<\/p>\n<p>Carro abafado, de vidros fechados, protegendo passageiros de respingos garoa. Pouco menos de meio-dia, um percurso de quil\u00f4metros, seguidos e a seguir, \u00a0e interroga\u00e7\u00f5es, sem destino. Era s\u00f3 isso que me restava. Metades, ter\u00e7os ou quartos.<\/p>\n<p>N\u00e3o era a \u00fanica passageira; tamb\u00e9m n\u00e3o guiava. De fato, nenhum dos quatro percebia que \u00e9ramos conduzidos, sutilmente; nem pelo carro, mas pela estrada.<\/p>\n<p>Ficou-me triste esse pensamento, como se fizesse-se indiferente a alma conduzida a rodas. Como se fiz\u00e9ssemos presen\u00e7a apenas para cumprir com o destino da estrada. Ficou-me triste entender dessa forma, bem ali, no meio do percurso. Mas ser\u00e1 que esse era o meio?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, de repente, a chuva n\u00e3o servia mais a aliviar atmosferas, mas a certificar-me da calma perdida. Muito menos de meio-dia me restava, muito menos de meia-vida sob os quil\u00f4metros decrescentes .<\/p>\n<p>Procurei, mas n\u00e3o havia \u00e2ngulo que me fizesse enxergar de outro modo, na perspectiva abaulada de vidro dianteiro. N\u00e3o havia perspectiva que suportasse os \u00e2ngulos previs\u00edveis dos autom\u00f3veis de fazer estrada. Nenhum, em absoluto. Ficamos todos presos, em movimento de rodas, sob a atmosfera quadripl\u00e9gica das janelas.<\/p>\n<p>Quil\u00f4metros a menos, amenos, na vis\u00e3o desistente de gotas em vidro. \u00a0Vidro em gotas dilaceravam-me, em sil\u00eancio. E as l\u00e1grimas eram imperme\u00e1veis, que n\u00e3o desmanchavam, n\u00e3o dilu\u00edam a m\u00e1goa causada de janela impenetr\u00e1vel, de janela que se move o mundo sem mover. Vidro de guardar gente triste. As l\u00e1grimas escorrem e n\u00e3o escoam, encharcam a estrada do tempo decrescente, dos quil\u00f4metros aparentemente amenos.<\/p>\n<p>Acho que todos os quatros, aos quartos, aos ter\u00e7os e \u00e0s metades, sent\u00edamos assim.<\/p>\n<p>L\u00e1grimas de chuva pontilham-se na carca\u00e7a de autom\u00f3vel. Impressionistas, impressionantes; deixando rastros de um tanto vingan\u00e7a: emba\u00e7ando olhos de passageiros contidos. Em vidro, in vitro, quase artificiais e comuns em destino, por mais incomuns, por mais cada um. Id\u00eanticos em destino de estrada. Meio dia que se foi\u2026 Meio dia: que ser\u00e1?<\/p>\n<p>O pensamento \u00e0s metades, fragmentando-se l\u00e1grimas de vidro, fez-me mais sens\u00edvel a sons, que fez-me querer cegar, faz-me querer ler o mundo a suores e sabores. S\u00f3 o cheiro de chuva, nem mais a vis\u00e3o da tempestade. Fez-faz querer ver sem existir protegido e morto pelos vidros abaulados. Fez-me querer ver sem resistir, sem a luta do luto pelo meio-dia j\u00e1 n\u00e3o mais era. Que era para l\u00e1 de meio-dia, e eu s\u00f3 conseguia enxergar o que n\u00e3o mais se podia enxergar: um talvez passado. O passado que n\u00e3o mais era mas que tomava-me o meio dia de agora, que j\u00e1 passava de meio dia e atravessa-me a meia vida a vorazes quil\u00f4metros por hora. Decrescentes.<\/p>\n<p>Talvez instinto\u2026 um resto, da pouca iniciativa que me restava como passageiro\u2026 Talvez extinto, olhei para tr\u00e1s. Tentando desesperadamente uma vis\u00e3o do passado que me emba\u00e7ava as lentes janelas com os percursos programados de estrada. Ser\u00e1 que a meia vida seria s\u00f3 aquilo? Resgatar o meio-dia de ontem, perdendo, quil\u00f4metro a quil\u00f4metro, o resto meio-dia em futuros? Era esse o presente? Ou era essa a morte que compartilh\u00e1vamos, em sil\u00eancio permanente, passageiros, sobre rodas. Ou talvez atropelados, mortos, sob rodas do mesmo autom\u00f3vel, mesmo meio-dia\u2026<\/p>\n<p>Mas assaltou-me um \u00e2ngulo novo, de vidro traseiro: l\u00edmpido, desembara\u00e7ado, sem nenhuma l\u00e1grimas. N\u00e3o chovia na parte de tr\u00e1s do autom\u00f3vel. Ofereceu-se uma outra perspectiva. A cidade clareou-se: havia outros, m\u00f3veis, a seguirem-nos as rodas; em um c\u00e9u quase festivo, pincelado, impressionista, impressionante. Mais que a chuva, mais que l\u00e1grima. Ent\u00e3o, era aquilo, olhar para tr\u00e1s? Era s\u00f3 olhar para tr\u00e1s, que se desvendava, assim, o que tinha sido o meio-dia? E nem era chuva, nem era tempestade\u2026<\/p>\n<p>Nem desejei cegueira, nem mais entendi condu\u00e7\u00e3o como pris\u00e3o. Era como se voltassem-me pernas, coluna e uma juventude a qualquer meio-dia. Era como se voltasse-me, a n\u00f3s, a vida; aos quatro, como fossemos um \u00fanico passageiro-autom\u00f3vel, sem medo de apenas\u2026 passar.<\/p>\n<p>Era como se n\u00e3o fosse, a estrada, cen\u00e1rio vitrine de vidro engarrafado e automatizado, que me fazia triste e infuturo.<\/p>\n<p>Condensou-se o tempo. Meio-dia que se fora, meio-dia que viria, o meio do dia em que existia. Exist\u00edamos. E o meio dia que nunca existira: a estrada era de sempre passar, agora.<\/p>\n<p>Quis saltar, r\u00e9cem-adquirido, das cronologias il\u00f3gicas, de contra um mais um ou dois. \u00c9ramos quatro um, assaltados pelo meu olhar do vidro espont\u00e2neo, desvelando aquilo que nos escondia em minhas lutas escorridas, em l\u00e1grimas de chuva, t\u00e3o fr\u00e1geis, que cristal. Lutas minhas que o vidro de tr\u00e1s revelou serem nossas: os quatro passageiros de ser um. Ali, vivos e mortos, porque expostos ao meio-dia que n\u00e3o existia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o resistiu-me presente, ger\u00fandio, passado: s\u00f3 o verbo indicativo de ser. Surgiu-me, rel\u00e2mpago, a vis\u00e3o de um passado-presente de rodas compartilhadas: \u00e9ramos quatro, cada qual de seus muitos, ao meio-dia, e suas experi\u00eancias capazes de fazer zerar os quil\u00f4metros, os ponteiros, as dire\u00e7\u00f5es. \u00c9ramos roda e combust\u00edvel. N\u00e3o era o autom\u00f3vel, mas a estrada que nos unia. Mas por quanto tempo? Senti um aperto, uma saudade p\u00f3stuma de um algo que vir\u00e1\u2026<\/p>\n<p>A chuva que existia e n\u00e3o existia, o vidro traseiro, as janelas emba\u00e7adas, o Sol, as l\u00e1grimas e a fragilidade dos cristais tinham um palpite: n\u00e3o existe tempo. Certas coisas, simplesmente resistem.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estrada, quase passando do meio-dia. De uma metade que j\u00e1 n\u00e3o mais me pertencia. O que fizera das metades e dos meios? O que, exatamente? Carro abafado, de vidros fechados, protegendo passageiros de respingos garoa. Pouco menos de meio-dia, um percurso de quil\u00f4metros, seguidos e a seguir, \u00a0e interroga\u00e7\u00f5es, sem destino. 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