{"id":1552,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/o-passaro-e-as-asas-do-menino\/"},"modified":"2022-08-27T17:59:13","modified_gmt":"2022-08-27T20:59:13","slug":"o-passaro-e-as-asas-do-menino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/o-passaro-e-as-asas-do-menino\/","title":{"rendered":"O p\u00e1ssaro e as asas do menino"},"content":{"rendered":"<p>O menino \u00e0 janela encantou-se do p\u00e1ssaro de asas.<\/p>\n<p>N\u00e3o que outros n\u00e3o as tivessem, mas aquele havia sido o \u00fanico a oferecer-lhe a liberdade, distante, t\u00e3o pr\u00f3xima, sentada \u00e0 janela.<\/p>\n<p>O menino encantou-se da cor castanha que, ao Sol, quase dourada, compunha, em pinceladas de penas, o cen\u00e1rio de fundo-c\u00e9u azul-horizonte. O mesmo azul dos olhos do menino. E o c\u00e9u e os olhos do menino pareceram, ao p\u00e1ssaro, de igual intensidade: infinitos, irm\u00e3os.<\/p>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-center\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"center\" data-rt-max-width=\"\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e35ddddb393e21df3f78dcf_MENINO.png\" \/><\/figure>\n<p>O p\u00e1ssaro que voava frente \u00e0 janela desenhava-se enorme e, ao mesmo tempo, t\u00e3o leve, quase inconsciente de seu dom voador. Na verdade, voar n\u00e3o era dom de p\u00e1ssaro, apesar de parecer, aos olhos dos que ficam \u00e0 janela&#8230; Voar n\u00e3o \u00e9 dom. E capaz o menino nem desconfiasse, mas voar poderia ser pris\u00e3o, ao p\u00e1ssaro das penas ensolaradas. Que a liberdade pode ser uma farsa, assim como talvez o seja, a reclus\u00e3o. O menino mesmo, poderia voar dali, da janela; saltar sem asas. Talvez com o salto, criasse as pr\u00f3prias; ou talvez o p\u00e1ssaro o resgatasse da queda&#8230; N\u00e3o, havia regras para voar e nem garantia de qualquer seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Por que n\u00e3o salta, menino? Saltar \u00e9 quase o mesmo que voar!&#8221;<\/p>\n<p>\u2026 ?<\/p>\n<p>&#8220;V\u00ea? Voar n\u00e3o \u00e9 dom; assim como sentar-se de janela n\u00e3o \u00e9 pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Voar seria escolha, de queda ou fuga, ao menino e ao p\u00e1ssaro. Do azul de mesma intensidade: irm\u00e3os.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e35dd9e02446a69953504eb_PASSARO_JANELA.png\" \/><\/div>\n<p>E algo sempre se perde, com o v\u00f4o ou a fuga; e se perde tamb\u00e9m na janela. O menino seria um covarde, voando ou n\u00e3o, porque j\u00e1 havia acostumado-se \u00e0 janela. Queria voar e n\u00e3o podia; mas podia e, no fundo, n\u00e3o queria, porque sabia que voar n\u00e3o era seu dom. E n\u00e3o sabia que nem era um dom ao p\u00e1ssaro, mas imposi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o apaixonara-se pelas asas do p\u00e1ssaro, ansiando que fossem suas. Mas talvez ele menino tamb\u00e9m cansasse de voar um dia, e as asas que desejara tanto, tornariam-se um fardo, de penas, de escolhas feridas. Talvez as asas transformassem-se em janela. \u00a0E seguiria sempre, um menino azul, de vontades de c\u00e9u ou olhos vivos de janela, sempre insatisfeito.<\/p>\n<p>Insatisfeito como o p\u00e1ssaro indeciso que, voando ou n\u00e3o, em sua \u00e2nsia fixa pelos olhos sentados de janela do menino, queria creditar-lhes um azul mais belo do que o que pincelava o c\u00e9u de trajetos de todo dia, j\u00e1 quase sem cor. O p\u00e1ssaro insatisfeito de seu azul infinito, desdenhado-se das pr\u00f3prias asas, s\u00f3 queria sentar-se \u00e0 janela que o menino contava como azar. Asar: do verbo de ter asas, que n\u00e3o existe. Menino n\u00e3o voa, nem p\u00e1ssaro senta-se \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o p\u00e1ssaro, acostumado a c\u00e9us e azuis, em asas ensolaradas, quis pousar, descansar nos olhos c\u00e9us do pequeno observador. Um instante de cada qual querer ser o outro, como quem compartilha um segredo indiz\u00edvel porque em misto de um desd\u00e9m de si e um remorso instant\u00e2neo por renunciar ao que, talvez, fosse sim dom e que pensava, nunca poderia ter sido escolha: bater asas.<\/p>\n<p>E no instante em que enxergou-se no azul menino, quase espelho, e se sentiu guardado de um modo especial, n\u00e3o entendeu porque despertara o menino.<\/p>\n<p>Por que o h\u00e1bito p\u00e1ssaro, de asas rotineiras, e at\u00e9 cansadas, havia encantado a aten\u00e7\u00e3o triste de um algu\u00e9m que podia ver o mundo todo, \u00e0quela altura de janela, e sem cansar-se, sem ter que bater incessantes asas? O p\u00e1ssaro at\u00e9 tentou envaidecer-se da aten\u00e7\u00e3o do menino, mas n\u00e3o p\u00f4de: sabia que voar n\u00e3o era dom&#8230; Ou seria? De qualquer forma, n\u00e3o tinha sido escolha sua, ent\u00e3o, por que assum\u00ed-las t\u00e3o importantes? Asar , do verbo que n\u00e3o existe\u2026<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro conhecia muitos outros como ele, at\u00e9 mais belos, maiores, mais leves, mais orgulhosos por possu\u00edrem asas. O p\u00e1ssaro at\u00e9 tentou envaidecer-se, e crer que o menino apaixonara-se por suas raras asas, mas n\u00e3o p\u00f4de, n\u00e3o era justo. Era apenas mais um p\u00e1ssaro como todos os outros, med\u00edocres em sua necessidade de bater asas. \u00a0E ainda que outros p\u00e1ssaros em sua situa\u00e7\u00e3o envaidecessem-se, ele n\u00e3o podia: sabia que ter asas n\u00e3o era dom. \u00a0Azar, seu verbo de voar n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro que o menino at\u00e9 invejou quis, por um momento, estar sentado \u00e0 janela, em solidariedade aos olhos azuis de c\u00e9u de menino, que o fitavam t\u00e3o tristes, t\u00e3o sem asas. Quis explicar-lhe que aquilo era s\u00f3 imposi\u00e7\u00e3o, que era triste tamb\u00e9m ser obrigado a bater asas. Queria convencer a crian\u00e7a de que a liberdade era uma farsa.<\/p>\n<p>Mas o p\u00e1ssaro, ap\u00f3s o instante de desdenhar o c\u00e9u de h\u00e1bito, n\u00e3o quis pousar&#8230; N\u00e3o, obrigado; n\u00e3o p\u00f4de&#8230; Por mais solid\u00e1rio de asas, e mais solit\u00e1rios, o menino e o p\u00e1ssaro, por mais lisonjeira a aten\u00e7\u00e3o despertada, o p\u00e1ssaro n\u00e3o quis ficar \u00e0 janela. N\u00e3o podia fazer companhia \u00e0 tristeza do menino, porque entendeu que voar em sua pr\u00f3pria solid\u00e3o, era-lhe vital.<br \/>\nEnt\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o, a liberdade foi escolha. E talvez, a imposi\u00e7\u00e3o tenha se transformado em dom. E quem sabe o p\u00e1ssaro, l\u00e1 na frente, quando o menino j\u00e1 fosse um homem e o apontasse aos filhos e netos; l\u00e1 na frente, o p\u00e1ssaro orgulharia-se das asas e pousaria, envaidecido, na mesma janela para trocar confid\u00eancias de liberdade com o menino-homem.<\/p>\n<p>Voar foi uma escolha\u2026<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro poderia ter pousado e sido capturado. Ou ainda, cedo-tarde, um outro p\u00e1ssaro aparecesse \u00e0 janela e encantasse o menino, que j\u00e1 teria esquecido das asas douradas e nem mais lhes quisesse a desgastada companhia. O menino esqueceria tamb\u00e9m das pr\u00f3prias asas de escolha e, n\u00e3o por vontade, mas pena das penas douradas de p\u00e1ssaro, j\u00e1 cansadas, ficaria ali, \u00e0 janela, desejando a liberdade de outros p\u00e1ssaros, livres, como um dia o p\u00e1ssaro de asas ao sol fora.<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro de asas ao Sol prenderia-se ao azul dos olhos meninos crendo-lhe maiores que o c\u00e9u, e n\u00e3o mais voaria, sentaria \u00e0 janela e a liberdade de n\u00e3o bater asas o transformaria no p\u00e1ssaro cansado que desaprendera de voar. E o menino estaria aprisionado a sua fr\u00e1gil companhia, n\u00e3o mais o reconhecendo de mesma beleza, e talvez, nem conseguisse libertar-se do p\u00e1ssaro. Sim, porque nem o menino sabia o que faria com aquelas asas&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o p\u00e1ssaro das asas ao Sol, teve medo de saltar, e resolveu voar. E a liberdade foi uma escolha solit\u00e1ria, apesar da solid\u00e1ria vontade de entender a tristeza aprisionada nos olhos do menino sem asas. Que ainda n\u00e3o sabia, mas podia tamb\u00e9m voar a seu modo. E as asas que nem eram um dom, foram&#8230; e foram um meio do p\u00e1ssaro saber que escolhia seu caminho.<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro castanho voou longe, e foi ficando pequeno, pequeno\u2026 Sumiu no cen\u00e1rio em um c\u00e9u azul distante da janela do menino que n\u00e3o tinha asas, mas que talvez um dia ganhasse a liberdade.<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro, apesar das asas fardas, e sua cren\u00e7a na falta de dom, conquistava a liberdade escolhendo o que sempre fora regra: voar. E sabia, olhando o azul c\u00e9u de infinito nos olhos do menino, que a crian\u00e7a tamb\u00e9m tinha asas. P\u00e1ssaro e menino, apesar de c\u00e9us e terras, seriam sempre de mesma esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro voltaria, orgulho de si e do menino que, at\u00e9 l\u00e1, j\u00e1 teria aprendido a voar, que \u00e9 mais que dom: \u00a0\u00e9 a escolha reiterada por aqueles que tem asas.<\/p>\n<p>V\u00ea, olhos ou c\u00e9us: voar \u00e9 mais que simplesmente ter asas\u2026<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O menino \u00e0 janela encantou-se do p\u00e1ssaro de asas. N\u00e3o que outros n\u00e3o as tivessem, mas aquele havia sido o \u00fanico a oferecer-lhe a liberdade, distante, t\u00e3o pr\u00f3xima, sentada \u00e0 janela. O menino encantou-se da cor castanha que, ao Sol, quase dourada, compunha, em pinceladas de penas, o cen\u00e1rio de fundo-c\u00e9u azul-horizonte. 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