{"id":1550,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/feijao-com-arroz\/"},"modified":"2022-04-18T13:38:10","modified_gmt":"2022-04-18T16:38:10","slug":"feijao-com-arroz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/feijao-com-arroz\/","title":{"rendered":"Feij\u00e3o com arroz"},"content":{"rendered":"<h4>&#8221; Um , dois , feij\u00e3o com arroz . Tr\u00eas , quatro , feij\u00e3o no prato . Cinco , seis &#8230; Um dois , feij\u00e3o com arroz . Como era mesmo o cinco , seis da m\u00fasica de brincar ? Cinco , seis o qu\u00ea ? &#8221; <\/h4>\n<h4>Can\u00e7\u00e3o de atormentar e causar ins\u00f4nia . Virava de um lado para outro , irrequieto, na cama dura de estrado . Colch\u00e3o de ripas ; e os malditos n\u00fameros com feij\u00e3o , atazanando-lhe a cabe\u00e7a , j\u00e1 n\u00e3o bastassem os trinta graus do quarto .\t<\/h4>\n<h4>Tr\u00eas dezenas de temperatura e , no m\u00ednimo , cem pessoas . Diabos como ele, mal feitos , mal acabados . Cem internos , sob pena qualquer . Nem mais lembrava qual era a sua , das tantas infra\u00e7\u00f5es cometidas . At\u00e9 que era bom ter teto para se cobrir ; sa\u00eda quando queria , voltava se desse vontade . Se arrumasse casa , nem que fosse barraco , s\u00f3 assim n\u00e3o retornaria . Ou se pegassem sua papelada e descobrissem que em breve n\u00e3o seria mais considerado de menor . A\u00ed ia ser fogo ; tinha uns dois meses pra se arranjar , sen\u00e3o , rua . E na rua \u00e9 bem f\u00e1cil pegar cana dura ; perigando n\u00e3o sair nunca mais . Tinha colega seu que morreu no primeiro m\u00eas de cela . Tro\u00e7o que metia medo esse assunto de cadeia &#8230;<\/h4>\n<h4>Feij\u00e3o com arroz ; e a fome de matar . Foi o maldito prato do vigia , que vira pela manh\u00e3 ; farto e fumegante , com peda\u00e7o de carne gorda debru\u00e7ado em gr\u00e3os ; ainda todo de farinha pelos cantos . Que imagem desgra\u00e7ada ! Isso sim \u00e9 que era crime , n\u00e3o a sua falta de est\u00f4mago , ladra de carni\u00e7a . Feij\u00e3o no prato ; e nada fazia-o apagar o quadro da mem\u00f3ria . Tripas e ripas , doloridas \u00e0s faltas de almo\u00e7o e pouco colch\u00e3o .\t<\/h4>\n<h4>Todos j\u00e1 dormiam ; algumas camas vazias . Moleques arriscando uma noite longe ; era dif\u00edcil mesmo algu\u00e9m da guarita notar . <\/h4>\n<h4>&#8221; Sempre tem um esquema montado pra quem puder querer . S\u00f3 prometer um cachimbo ou coisa e tal pro pol\u00edcia , que ele d\u00e1 corda , at\u00e9 onde n\u00e3o puder ser enforcado com ela . Sabem mais de bandidagem que a molecada . Aqui se aprende bem sobreviv\u00eancia &#8230; Feij\u00e3o , feij\u00e3o &#8230; &#8221; <\/h4>\n<h4>Talvez pudesse tentar a guarita dos fundos . Muitas vezes havia fornecido para o tal Jos\u00e9 ; sabia que aquele n\u00e3o negava fumo ; e o menino s\u00f3 tratava com o que havia de melhor . Se conseguisse fugir pelos fundos , iria direto pro Anhangaba\u00fa , uns poucos quil\u00f4metros dali . Arrumaria refei\u00e7\u00e3o , mesmo fora do prato , mesmo sem toucinho , qualquer resto pra enganar as tripas . Depois que arranjasse o fumo , voltaria \u00e0s ripas . N\u00e3o mais que tr\u00eas horas de viagem . O prato de comida do vigia n\u00e3o o deixava em paz ; mancomunado com os n\u00fameros insol\u00faveis de feij\u00e3o e arroz . \t<\/h4>\n<h4>&#8221; Cinco , seis , cinco , seis e que se dane . Volto de est\u00f4mago , nem se for pra mastigar lixo ! &#8220;<\/h4>\n<h4>Saiu cuidadoso, cautela para n\u00e3o acordar os outros internos . Poderiam chantagear , querer saber aonde ia , bisbilhotar seu prato de feij\u00e3o . Desceu a escadaria escura . Fazia-se vista grossa na casa de meninos . Na guarita dos fundos , Z\u00e9 do Cachimbo : a cara gorda de displicente bigode , uniforme amassado e olhos de m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es . Abriu a portinhola de seu cub\u00edculo vigilante e quis saber onde ia o negrinho .<\/h4>\n<h4>Negrinho . Quem o visse jamais estipularia-lhe a idade de dezessete . Mirrado , quase osso , pouco mais de um metro e meio ; sem cabelo , deixando exposta cicatriz de faca na nuca . B\u00ean\u00e7\u00e3o de pai . Edson , o nome do moleque . Disse que ia atr\u00e1s de pedra e podia dividir . N\u00e3o mencionou a fome , o toucinho e a ins\u00f4nia das ripas ; capaz que o homem n\u00e3o o deixasse sair . Z\u00e9 do Cachimbo entusiasmou ; afinal , sabia que Ed conseguia o que havia de melhor . <\/h4>\n<h4>&#8221; Filho da puta de negrinho ! Deixa estar que um dia ainda descubro quem fornece e da\u00ed , acaba a mamata . N\u00e3o sai daqui nem arrega\u00e7ado &#8230; &#8221; . <\/h4>\n<h4>Abriu a porta da guarita , destapou o buraco do ch\u00e3o , empurrou o moleque pra baixo .<\/h4>\n<h4>&#8221; Desce n\u00eago , vai pro inferno e volta colorido &#8220;. <\/h4>\n<h4>O buraco cavado na guarita era passagem para o bueiro da rua ; os meninos saiam a umas quatro quadras dali , perto do viaduto . A \u00fanica condi\u00e7\u00e3o era voltar antes de amanhecer ; caso contrario , levava co\u00e7a . Ed mesmo j\u00e1 experimentara duas , de cicatriz e meses de trabalho for\u00e7ado . Aprendera as regras da casa e h\u00e1 muito as respeitava .<\/h4>\n<h4>Quase uma da madrugada ; tr\u00eas horas para a trajet\u00f3ria , de est\u00f4mago \u00e0s pedras . Vale do Anhangaba\u00fa , onde tudo valia , dos corpos dispostos aos lixos de gente ; dos restos de corpos e lixos impostos . O moleque colhendo pedras no vale , floresta concreta . Chapeuzinho vermelho , saci-perer\u00ea.<\/h4>\n<h4>Edson entrou no primeiro beco \u00e0 esquerda da rua do pr\u00e9dio mais alto . Um , com luz piscando letras . S\u00f3 conhecia a de seu nome ; o pr\u00e9dio de letra Edson . Dirigiu-se \u00e0 pequena porta de madeira podre , com uma caveira estampada em vermelho . Tr\u00eas batidas r\u00e1pidas . Feij\u00e3o com arroz . <\/h4>\n<h4>&#8221; Abre logo , Carca\u00e7a , que ainda quero ench\u00ea a barriga &#8221; . <\/h4>\n<h4>Engra\u00e7ado que , durante o percurso , esquecera-se um tanto das gorduras perfumadas . De fato , se rolasse mais duas ou tr\u00eas vezes nas ripas doloridas, esqueceria-se do prato . Mas o moleque gostava das beiradas , gostava de quereres e satisfa\u00e7\u00f5es. Sentia saudades de sua letra-nome no topo do pr\u00e9dio mais alto ; fingia at\u00e9 que era casa . Fingia que era rico , propriet\u00e1rio . O pr\u00e9dio mais alto do inferno .<\/h4>\n<h4>Tr\u00eas batidas , mais fren\u00e9ticas . <\/h4>\n<h4>&#8221; Porra , Carca\u00e7a ; abre essa merda . Tem pol\u00edcia na minha cola , se n\u00e3o leva a pedra logo , tomo na cabe\u00e7a &#8221; . <\/h4>\n<h4>Nada de resposta . Carca\u00e7a era amigo de tempos , passaram juntos por v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es , umas tr\u00eas . Uma das surras de Ed foi por acobertar a fuga do amigo . Ainda livrou-o de vingan\u00e7a , cortando a garganta de Pomba , um outro traficante de pedra . Carca\u00e7a irm\u00e3o grato ; sempre que Ed precisava de ajuda , sabia a quem recorrer . Vez ou outra , paravam pra sonhar com outras vers\u00f5es de suas hist\u00f3rias . Quem seriam , longe do inferno ; a quem pertenceriam . Talvez uma fam\u00edlia e um cachorro . Carca\u00e7a queria um filho . <\/h4>\n<h4>&#8221; Ed , vou bota teu nome no moleque, hein ? Tu vai ser tio brode . Tio do Edinho &#8221; . <\/h4>\n<h4>O negrinho ria-se da imagem hipot\u00e9tica de carregar filho do amigo no colo . No fundo , n\u00e3o acreditava em planos futuros ; n\u00e3o havia como . O futuro contado a gr\u00e3os crus de arroz e feij\u00e3o . Sonhos de fuma\u00e7a e cachimbo . \t&#8221; Abre , porra , Carca\u00e7a . Preciso de duas pedra e s\u00f3 . Tu sabe que tenho os trocado . Mano , abre a\u00ed . <\/h4>\n<h4>&#8221; A luz acesa , escapando \u00e0s frestas de porta carcomida ; iluminando beco escuro . Barulho de televis\u00e3o a esmo . Vozes , n\u00e3o se sabia da tela , ou vitais. Ed come\u00e7ava a desconfiar dos pr\u00f3prios ouvidos . Quem sabe o entorpecimento de toucinho e farinha . Maldito prato esfomiado ! Discuss\u00e3o . &#8221; Carca\u00e7a , \u00e9 tu ? &#8221; . \t<\/h4>\n<h4>Estranho , o amigo morava sozinho ; um cub\u00edculo ; s\u00f3 espa\u00e7o de televis\u00e3o roubada mesmo . S\u00f3 uma tela pra fazer seu mundo menos apertado . <\/h4>\n<h4>&#8221; Carca\u00e7a , mano , responde ! &#8221; . <\/h4>\n<h4>Ed chutou a porta apodrecida . O amigo Carca\u00e7a no ch\u00e3o , espremido : uma bala no peito . Dois estranhos , de costas para a porta , revezando-se em opini\u00f5es quanto ao que fazer com as pedras de cachimbo . <\/h4>\n<h4>&#8221; Carca\u00e7a , Carca\u00e7a !!? &#8221; <\/h4>\n<h4>Ed ajoelhou-se ante o buraco de bala , tentando ressuscitar esperan\u00e7as . Seu desespero durou pouco ; interrompeu-o, l\u00e2mina afiada de faca de um dos homens assassinos . Est\u00f4mago . Um , dois , feij\u00e3o com arroz . Um , dois , fugiram \u00e0s marcas de sangue, deixando carca\u00e7a e carca\u00e7a ; amigos , tios e esperan\u00e7as , sonhos de pr\u00e9dio mais alto e E de Edson . <\/h4>\n<h4>O negrinho , mesmo \u00e0s dores e tripas , tentou alguns passos . Queria vingar Carca\u00e7a . Vingar carca\u00e7as , a sua e a do amigo . Correu o pouco suficiente para alcan\u00e7ar novamente a tampa do bueiro escancarada , como ela a havia deixado . Ningu\u00e9m em redor . De fracas respira\u00e7\u00f5es e \u00falceras esfaqueadas, atirou-se no buraco . Uma ultima vista do pr\u00e9dio de letras Edson . <\/h4>\n<h4>&#8221; Cinco , sei , chegou a vez . Sete , oito , o que vem depois ? &#8221; . <\/h4>\n<h4>Enterrou-se a bueiro e buraco de bala em peito irm\u00e3o . Cerim\u00f4nia ali mesmo , no inferno do Anhangaba\u00fa , \u00e0s pedras e concretos , aos corpos e carca\u00e7as . Ed entre seus dois mundos , bloqueando passagem entre o inferno e o inferno .<\/h4>\n<h4>Quase seis , sete , oito . Z\u00e9 do Cachimbo cansara de esperar . <\/h4>\n<h4>&#8221; O nego &nbsp;vai aprende li\u00e7\u00e3o , ah se vai &#8230; Tampo aqui essa passagem da guarita e ele n\u00e3o volta . Da\u00ed sim vai saber o que \u00e9 uma co\u00e7a . Ainda endosso que o moleque vende pedra pros interno . Vai sangra que \u00e9 pra n\u00e3o esquece Z\u00e9 do Cachimbo &#8220;.<\/h4>\n<h4>Quase seis da manh\u00e3 , sete ou oito . Mutir\u00e3o de limpeza no Vale do Anhangaba\u00fa . Logo mais , discurso do prefeito . Algu\u00e9m fecha a tampa do bueiro para a montagem do palanque . Bueiro-t\u00famulo . A &nbsp;Edson sem sobrenome ; que descanse em paz&#8230;<\/h4>\n<p>\u200d<\/p>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width:800px\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"800px\">\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e35db987c2199dbb7fd4678_FEIJA%CC%83O_ARROZ_1.png\"><\/div><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o: Maria L\u00facia Nardy <\/figcaption><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8221; Um , dois , feij\u00e3o com arroz . Tr\u00eas , quatro , feij\u00e3o no prato . Cinco , seis &#8230; Um dois , feij\u00e3o com arroz . 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