{"id":1549,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/nocaute\/"},"modified":"2022-04-18T13:38:10","modified_gmt":"2022-04-18T16:38:10","slug":"nocaute","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/nocaute\/","title":{"rendered":"Nocaute"},"content":{"rendered":"<h4>Um metro e pouco de menino. Muito pouco. A camiseta amarelo-canarinho das chuteiras patriotas. Os p\u00e9s descal\u00e7os, sujos, de negro e asfalto. Verde e amarelo eram as cores de um metro e pouco de gente; andando, a passos curtos desdobrados; fazendo-se muito maiores na companhia apressada de adulto. \t<\/h4>\n<h4>M\u00e3e, tia, vizinha. Pai, av\u00f4, primo; n\u00e3o fossem as saias como \u00edndice de presen\u00e7a feminina. Poderia ser qualquer um a carreg\u00e1-lo pela m\u00e3o; o importante \u00e9 o tamanho do menino. Qualquer algo que o fizesse pequeno, ainda menor, cumpriria sua fun\u00e7\u00e3o contextual. Um metro e pouco de gente, diminu\u00edda, perdida em caos de multid\u00e3o e cacos de pessoas desfeitas. O importante \u00e9 um menino menor, mais circunscrito; para quem quer que fosse observ\u00e1-lo pudesse reparar a impot\u00eancia daquela semente.\t<\/h4>\n<h4>A cidade \u00e9 bom cen\u00e1rio, de c\u00e9us arranhados, sangrando nuvens de veneno, ardendo ao Sol do meio-dia. Ferida exposta. De roncos ruidosos, motores e famintos. De ruas sem espa\u00e7o vazio e cal\u00e7adas congestionadas. <\/h4>\n<h4>Viva a S\u00e3o Paulo em \u00e9pocas de elei\u00e7\u00e3o! Viva e morta. \u00c9poca de repetir promessas de progressos estacion\u00e1rios; talvez um novo pr\u00e9dio ainda mais alto, um buraco obturado pela nova prefeitura, um novo assassinato. \t<\/h4>\n<h4>Um metro e pouco de crian\u00e7a, oscilando: ora cedo demais, ora muito madura. Quase retrato de uma inteira na\u00e7\u00e3o, verde, das desculpas de que hoje ainda n\u00e3o \u00e9 hora; amarela dos redimires de ser tarde demais. Paci\u00eancia&#8230; E o menino multiplicando-se em passos inventados, descal\u00e7o de chuteiras.<\/h4>\n<h4>N\u00e3o era uma crian\u00e7a digna de sorrisos publicit\u00e1rios; mas quem o visse, naquela camiseta surrada de sele\u00e7\u00e3o de futebol, lembraria de bola, campo e gol. N\u00e3o importava ao que fosse remetido o observador, o relevante \u00e9 o contraste. Jogador de p\u00e9s descal\u00e7os. De fato, n\u00e3o servia \u00e0s verdades publicit\u00e1rias de retratos otimistas da mis\u00e9ria, de querelas \u00e1ureas, de vender vit\u00f3rias. Gol, de quatro e cinco portas; nenhuma apontando a um futuro satisfeito .<\/h4>\n<p>\u200d<\/p>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-center\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"center\">\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e360598b393e2956f05e635_photo%202.png\"><\/div>\n<\/figure>\n<h4>O menino parecia ter sido fabricado (perd\u00e3o pelo termo autom\u00e1tico; poderia ter usado \u201cdesenhado\u201d, \u201ccolocado&#8221;, \u201cinventado\u201d, mas n\u00e3o faria diferen\u00e7a). O importante aqui, \u00e9 a subservi\u00eancia do elemento \u00e0 sua entidade criadora. Parecia provocadoramente fabricado, saltando aos olhos, de um amarelo vivo, um \u00ednfimo de bandeira nacional tr\u00eamula, no concreto cinza de S\u00e3o Paulo. <\/h4>\n<h4>Quem pudesse v\u00ea-lo, ganharia uma partida. O menino existia para ser vencido, decifrado. O menino existia para chutar faces verde-amarelas de otimismo. Partidas, as m\u00e1scaras de falso contentamento. <\/h4>\n<h4>Gol !!!! Marcam pontos os que enxergam, apesar de doloridos, a cara no ch\u00e3o. Perde sempre, o menino, em seu chute certeiro, devoto. Perde por existir, significativo e de uma realidade, que mesmo percebida, imut\u00e1vel. A mis\u00e9ria do verde desesperan\u00e7a. Os est\u00fapidos observadores continuam torcendo pela crian\u00e7a de chuteiras, descal\u00e7a. Insistindo para que ela cres\u00e7a aos chutes. Pontap\u00e9s. N\u00e3o percebem que a cada gol marcado, voto anulado, carro vendido, ou carro roubado (o importante aqui \u00e9 a generaliza\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias desvinculadas); n\u00e3o percebem que perdem todos: verdes, amarelos, brancos, negros, mulatos. De certo, n\u00e3o entendem a &nbsp;piada de sorriso publicit\u00e1rio. Um metro e meio de menino, que fossem dois; meninos ou metros (vale aqui \u00e9 que n\u00fameros, muitos ou poucos, indiv\u00edduos ou milhares, s\u00e3o zero, aliados \u00e0 ignor\u00e2ncia). <\/h4>\n<h4>Um menino verde-amarelo, descal\u00e7o, vendendo ou chuteiras ou pontap\u00e9s a quem o observasse. Vendendo, n\u00e3o, distribuindo pontap\u00e9s. <\/h4>\n<h4>Quem o visse adorno, at\u00e9 seria remetido \u00e0 imagem da tal Copa do Mundo, a uma assinatura famosa, a uma marca esportiva. Bom deixar claro que a crian\u00e7a n\u00e3o era digna de outdoor; nem de brincadeira. <\/h4>\n<h4>Quem o visse contraponto, esse sim, enxergaria al\u00e9m; e o menino estaria cumprindo sua fun\u00e7\u00e3o: marcaria um gol. Talvez em outra hist\u00f3ria, virasse ladr\u00e3o de carro, sem prefer\u00eancia por marca. Um menino verde-amarelo, em tempo desregulado, nem pronto, nem em constru\u00e7\u00e3o. Dizem por a\u00ed, em desenvolvimento&#8230; A passos apressados, multiplicando-se, para apenas continuar circunscrito.\t<\/h4>\n<h4>E a um metro e pouco do menino, ir\u00f4nica, uma piada publicit\u00e1ria: outdoor bem montado sendo retirado pela lei prefeitura, que se diz primar pelo bem estar social; outdoor desses , que levam trabalho, dinheiro, bra\u00e7os e bolsos verde-amarelos, trazendo gigantesco, quase sobrenatural, um logotipo estrangeiro familiar, de cicatriz indel\u00e9vel: uma marca de vender futebol. Deve valer mais que o menino&#8230; <\/h4>\n<h4>O importante aqui, \u00e9 o chute no est\u00f4mago.<\/h4>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-center\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"center\">\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e360542f7fdfc7dc741ff69_co%CC%81pia%20de%20photo%201.png\"><\/div><figcaption>Ilustra\u00e7\u00f5es: Maria L\u00facia Nardy <\/figcaption><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um metro e pouco de menino. Muito pouco. A camiseta amarelo-canarinho das chuteiras patriotas. Os p\u00e9s descal\u00e7os, sujos, de negro e asfalto. Verde e amarelo eram as cores de um metro e pouco de gente; andando, a passos curtos desdobrados; fazendo-se muito maiores na companhia apressada de adulto. M\u00e3e, tia, vizinha. 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