{"id":1548,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/o-besouro-e-o-beija-flor\/"},"modified":"2022-04-18T13:38:09","modified_gmt":"2022-04-18T16:38:09","slug":"o-besouro-e-o-beija-flor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/o-besouro-e-o-beija-flor\/","title":{"rendered":"O besouro e o beija-flor"},"content":{"rendered":"<h4>Encontrou-me em casa, num dia de descanso. Improv\u00e1veis: tanto o local, quanto o descanso. N\u00e3o se encontra mais ningu\u00e9m em sua pr\u00f3pria casa nesses dias de lugares virtuais. Mais f\u00e1cil uma mensagem, um <em>hello <\/em>numa dessas redes sociopatas. Mas encontrou-me\u2026 Tinha que acontecer\u2026 <\/h4>\n<h4>Encontrou-me ali, sem qualquer preparo, de mim mesma, nenhuma base ou batom, quase nenhuma m\u00e1scara. S\u00f3 o r\u00edmeis dos restos de um ontem que o cansa\u00e7o, comum aqueles que quase n\u00e3o residem de si, impediu-me de tirar. Ou talvez n\u00e3o demaquilar o r\u00edmel caro tenha servido a outros prop\u00f3sitos remanescentes: resistir como se olhos outros, nunca dormentes, sempre prontos, acesos, mesmo que mortos.<\/h4>\n<h4>E encontrou-me assim, em horas de almo\u00e7o. Dessas refei\u00e7\u00f5es que j\u00e1 nem existem mais. Quem almo\u00e7a em sua pr\u00f3pria casa?\u2026 Quem tem casa que possa chamar sua? Quase nem mais corpo pr\u00f3prio\u2026<\/h4>\n<h4>Nem se aconselha comentar com algu\u00e9m que um dia ou outro se almo\u00e7a na pr\u00f3pria casa. N\u00e3o \u00e9 da moda, nem glamouroso. Solit\u00e1rio e barato demais. Coisa de gente que n\u00e3o trabalha ou n\u00e3o tem amigos. <\/h4>\n<h4>Sim\u2026 Talvez n\u00e3o tenha amigos. Talvez n\u00e3o tenhamos\u2026 Mas quem os tem? <\/h4>\n<h4>Mesmo assim ousou encontrar-me ali, de repente, desprevenida, e na minha pr\u00f3pria suposta casa. Que ningu\u00e9m nos visse\u2026 <\/h4>\n<h4>Nem os mais \u00edntimos visitam, nem os pais! Pais e filhos, a essa altura, j\u00e1 n\u00e3o devem ver-se mais. Nas redes virtuais narc\u00edsicas, v\u00e1 l\u00e1\u2026 Afinal, at\u00e9 amigos fantasmas s\u00e3o bem-vindos em uma e outra lembran\u00e7a, desde que sauda\u00e7\u00e3o. Saudade \u00e9 lugar comum sem selo, s\u00f3 palavra. Pais e filhos n\u00e3o existem mais, s\u00e3o, no m\u00e1ximo, amigos, sem se-lo, sem marca, sem sobrenome. <\/h4>\n<h4>Mas o tal sujeito, invadiu-me, familiar, em o espa\u00e7o-tempo real, qual fosse um convidado. Inconveniente, como todo convidado passou a ser. Talvez pior do que incomodar-me o almo\u00e7o (o que mesmo se comia?) tirou-me aten\u00e7\u00e3o da tela-celular, a cela, embaralhando a leitura dos coment\u00e1rios da \u00faltima festa do fulano, que era o nome da moda de alguma esta\u00e7\u00e3o. Ou da esta\u00e7\u00e3o da moda que era do mesmo sobrenome do fulano?\u2026 Qual o perfil? Quantas curtidas? Que fulano? Dif\u00edcil dizer porque amanha ja seria outro e no ontem, talvez o sobrenome tenha sido diverso mas a festa era sempre a mesma. <\/h4>\n<h4>E mesmo assim, o Fulano-Sicrano era pauta e interessava mais que o almo\u00e7o domingo, a pr\u00f3pria casa, o sobrenome dos pais, o garfo, a faca, a carne, mais que a morte. <\/h4>\n<h4>E o inoportuno convidado interrompendo, assim, meu almo\u00e7o em casa que nem lembro se era casa de meu endere\u00e7o ou se confundia com o endere\u00e7o da noticia do fulano da moda, e se era minha a carne ou tinha sido comprada de algum endere\u00e7o virtual que podia ser na esquina de casa ou inscrito www de pagina qualquer. Onde mesmo eu morava? &nbsp;www? Quem mesmo era?<\/h4>\n<h4>E que tipo antiquado aquele! Invadindo-me a porra do endere\u00e7o desconhecido na hora de almo\u00e7o, no meio do prato; ousando mastigar-me a solid\u00e3o acomodada. Carne, peixe, frango? N\u00e3o, n\u00e3o, `aquela altura do domingo j\u00e1 devia ter convertido ao veganismo ou outra religi\u00e3o, assim como o fulano da moda de sobrenome www da noticia da festa do que eu acompanhava atentamente durante o almo\u00e7o quando o convidado inoportuno decidiu interromper. <\/h4>\n<h4>Que sujeito impertinente aquele! N\u00e3o, n\u00e3o o fulano vegano! Esse era\u2026 Fr\u00e1gil? Jovem? Estranho? Charmoso? Incr\u00edvel? Estupido? E tantos outros adjetivos sinalizados abaixo da postagem de sua festa noticiosa que, depois percebi, nem era assinado por veiculo id\u00f4neo, era de um www suspeito. Mas existe veiculo id\u00f4neo? Na verdade achei o sujeito fulano da festa da not\u00edcia do domingo que podia ser dia qualquer que todos eram <em>\u201cI don\u2019t like Mondays\u201d<\/em>, um tanto\u2026 Sup\u00e9rfluo<\/h4>\n<h4>S-U-P-E-R-F-L-U-O<\/h4>\n<h4>Digitei logo abaixo da noticia, sentindo-me, talvez, satisfeita. Mais do que com o suposto almo\u00e7o domingo. O que mesmo eu comia: a carne do sujeito vegano ou a minha? <\/h4>\n<h4>Juro! N\u00e3o teria nem sequer percebido o gosto daquelas pensamentos se o desconhecido n\u00e3o tivesse invadido-me o prato de vida rasa. Sup\u00e9rfluo. <\/h4>\n<h4>No meio de um domingo, um dia que n\u00e3o valia nada, um dia de descanso, de descaso, de sentir-se mal porque <em>\u201cI don\u2019t like mondays\u201d<\/em> ainda era uma das m\u00fasicas preferidas mas eu &nbsp;nem quase sabia entende-la porque tentava enterra-la nos dias inertes, alternados entre excessos de trabalho e consumo de informa\u00e7\u00f5es. Recessos de vida. <em>I don\u2019t like Mondays <\/em>e <em>any other day<\/em>. And <em>any other day<\/em> o desconhecido me aparece, bug, invadindo o www, a rede, o prato, a porra de um est\u00f4mago que eu nem sabia mais se tinha. Quis vomitar www o fulano sup\u00e9rfluo, a fabula vegana, a alma celada, sem se-la, quase mesmo um rob\u00f4. <\/h4>\n<h4>I don\u2019t like Mondays<\/h4>\n<h4>But I like, like, like, dislike, dislike, like, dislike, like, dislike, like, love, link, link, luck, link, lick, link, like, link, link, link, link! <\/h4>\n<h4>Lick, lick, lick, lick!!<\/h4>\n<h4>O filho da puta atravessou-me o prato, lambendo os restos da minha carne fatiada, cutucando a vida pouca, a vontade escondida de morte, a ideia de falta de sorte alimentada a vicissitudes em rede que sufocavam um sussurro long\u00ednquo de um peito que n\u00e3o se quer s\u00f3, mas n\u00e3o se pode outro em um mundo de sujeitos sujeitos. A tudo. www. aprisionados\u2026 <\/h4>\n<h4>Que diabos de visita era aquela, um bug no meu sistema sem r\u00edmel, sem salto, de assalto, no meio do meu prato do meio dia que nem era um prato, talvez s\u00f3 um peda\u00e7o de p\u00e3o inventado integral, da porra dos apelas veganos, amontoado com qualquer carne que &nbsp;n\u00e3o de outro animal que n\u00e3o eu. A minha carne mastigada, tentando quase ser humano , em seu papel engordurado de vidas e vidas que n\u00e3o havia vivido, nem vencido, nem sentido o tempo passar\u2026<\/h4>\n<h4>E o cara bem ali\u2026 Bug: batendo-me as asas que nunca tive, na cara, na carne, no papel engordurado, sup\u00e9rfluo, que n\u00e3o me servia mais. <\/h4>\n<h4>Se disser que assustei, minto. No fundo, sorri. Sorri vendo-o t\u00e3o pr\u00f3ximo, na frente da minha tela-cela, dentro do meu prato em asas, nem vegano, neol\u00edtico ou antropof\u00e1gico, invadindo-me o almo\u00e7o de uma ousadia que j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Desinteressado de seu pr\u00f3prio destino: poderia abocanha-lo, destrui-lo, estaquia-lo, mastiga-lo como comumente fazia com os fulanos e suas festas sup\u00e9rfluas nas redes virtuais. Mas ele s\u00f3 queria estar ali no meio do prato, no almo\u00e7o que n\u00e3o existia mais, na carne cutucada, comigo, invadindo-me: Bug. Batendo asas na carne e lambendo-me as feridas solit\u00e1rias: n\u00e3o vou , n\u00e3o vou embora nunca mais. <br \/><\/h4>\n<h4>Sorri. Sim, sorri. O sujeito, t\u00e3o pequeno, intrometido e determinado a estar onde talvez devesse estar: comigo num domingo de<em> \u201cI don\u2019t like monda<\/em>\u201d, num dia chuvoso e solit\u00e1rio, em que todas as vontades decantam e se esparramam nas expectativas de semanas e semanas que sempre as mesmas, sem fim ou come\u00e7o, sem espa\u00e7o, como nas redes virtuais. www e nada. Uma semana que n\u00e3o era semana, de um dia que n\u00e3o era dia, nem noite, ele que nem era ele, era eu com suas asas.<\/h4>\n<h4>O bicho, um bug, ficou ali, sobre a carne, no meio dia do prato, no meio peito que eu tinha, porque a outra metade, ele havia sequestrado. E s\u00f3 a traria de volta se me libertasse, das redes e celas das segundas e terceiras e quartas tentativas de entender <em>\u201cI don\u2019t like mondays<\/em>\u201d. Eu deveria pousar usando-lhe as asas e entende-las, todas, &nbsp;segundas e ter\u00e7as e quartas como a primeira e \u00fanica oportunidade de voar.<\/h4>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-center\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"center\">\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e14f28983a6f28e640c70a2_beijaflor1.jpg\"><\/div>\n<\/figure>\n<p>Est\u00e1vamos vivos, da mesma especie de vida que redes n\u00e3o podem aprisionar. <\/p>\n<p>E ri de mim mesma por ter, um momento, tentado faze-lo entender que \u00e9ramos diversos. Ri de minha estupidez sup\u00e9rflua, <em>like-deslike,<\/em> um deslize. O besouro tinha raz\u00e3o: sent\u00edamos, sim, a mesma carne. <\/p>\n<p>Por sorte, quando tentei empurra-lo sutilmente com uma ponta de caneta, dessas que quase nem se usa mais, ele n\u00e3o se foi. Ficou bem ali, no meio do prato, dividindo-me o peito e as paix\u00f5es. Eu, um algu\u00e9m em restos de r\u00edmel, e mascaras, entre amar e odiar segundas-feiras. <em>Like-dislike<\/em>. Um domingo de \u201cI dont like mondays\u201d sem nenhuma melodia, embalando-me, talvez, na mais sublime experiencia que um homem e um besouro podem compartilhar: a carne. <\/p>\n<p>Demorei a entender, mas ele sabia, do momento em que bateu asas em minha carne, que n\u00e3o havia outro lugar para se estar, exceto nas horas e horas a observar-me. Um amigo, um irm\u00e3o. <\/p>\n<p>Tentar afasta-lo com a ponta da caneta era previs\u00edvel demais &#8211; tinha que escreve-lo, s\u00f3 assim ele voaria. E iria em paz, livre por ter-me libertado a carne, ao menos aquele dia. Minha can\u00e7\u00e3o preferida n\u00e3o seria mais I don\u2019t like Mondays nos domingos de like-dislike\u2026 Talvez Beatles\u2026 E quem sabe, em uma outra visita, num outro almo\u00e7o de domingo, o besouro me ensinasse a cantar <em>Help!<\/em>. <\/p>\n<p>Voar? Acho que estava come\u00e7ando a aprender\u2026 <\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width:1101px\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"1101px\">\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e14d52b232f157b860e6cfa_beijaflor1.png\"><\/div><figcaption>Ilustra\u00e7\u00f5es: Maria Lucia Nardy<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encontrou-me em casa, num dia de descanso. Improv\u00e1veis: tanto o local, quanto o descanso. N\u00e3o se encontra mais ningu\u00e9m em sua pr\u00f3pria casa nesses dias de lugares virtuais. Mais f\u00e1cil uma mensagem, um hello numa dessas redes sociopatas. 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