{"id":1541,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/fuga-e-cativeiro\/"},"modified":"2022-08-27T18:17:09","modified_gmt":"2022-08-27T21:17:09","slug":"fuga-e-cativeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/fuga-e-cativeiro\/","title":{"rendered":"Fuga e cativeiro"},"content":{"rendered":"<p>Noite de lua; a mais brilhante do ano, segundo p\u00e1gina de jornal. Dif\u00edcil reparar lua entre luzes-cidades infestando o c\u00e9u. Mas, se deu no jornal, deve ter sido. No caminho para casa, ainda tentei, atrapalhada de universo circunscrito de autom\u00f3vel, localizar o sat\u00e9lite. N\u00e3o me lembro do brilho incomum. A lua era vulgar em meio \u00e0s luzes de artif\u00edcio. \u00a0Temperatura agrad\u00e1vel, quase maio, em pleno fevereiro de ver\u00e3o. Passava das nove e meia, um tempo para descanso, x\u00edcara de leite, conversas trocadas em fim de dia. Coisas do comum.<\/p>\n<p>Estacionamos o carro; a fam\u00edlia sa\u00edra para um passeio e, como de costumeiro, voltava aos seus deveres de lar. Dormentes sob o mesmo teto, levando o tempo para dar voltas de autom\u00f3vel, gastando-o a tanque cheio, desentendidos da escassez. Dormiam sob o mesmo teto de afli\u00e7\u00f5es e tolas verdades, de perdas de algo e faltas de sorte. Insones, sob o mesmo teto. \u00c0s vezes causa tristeza a falta de vida. Falta cometida por aqueles que a possuem e a levam passear de rodas, paral\u00edtica, desgastada .<\/p>\n<p>Fim de noite sob a mesma lua brilhante dos jornais. A mesma lua dos dias passados e vindouros. Ser\u00e1 que apenas eu a confundia com luzes de postes el\u00e9tricos e sinalizadores? Ser\u00e1 que a confundia com pensamentos? Lua confusa, talvez amenos brilhante, em anos.<\/p>\n<p>Estacionamos o carro. A m\u00e3e desceu para abrir o port\u00e3o \u00a0Fez cara interrogativa ao notar o cadeado aberto, preso \u00e0 corrente. Tinha certeza de t\u00ea-lo trancado. Certeza absoluta. Creio que todos a desacreditaram, em seu signo ascendente dispersivo g\u00eameos aerius. Fingiu-se tanto de espanto; um ou dois segundos exclamativos; mas o cansa\u00e7o e a frustra\u00e7\u00e3o reinantes de fim de dia eram tamanhos, que o cadeado tornou-se mero detalhe. O que antes serviria de motivo a grandes discuss\u00f5es familiares sobre a desaten\u00e7\u00e3o da mulher, passou despercebido.<\/p>\n<p>Entramos todos, rapidamente, cada qual a seus passos e vontades, maiores ou menores, deporta adentro. Dispostas bolsas, sacolas e pastas sobre o sof\u00e1 de gente indisposta, contradit\u00f3ria. Pessoas que buscam felicidades e coisas a lembrar, gastando tempo em voltas paral\u00edticas e desperdi\u00e7ando m\u00fatuas companhias. Pessoas n\u00f3s, de insatisfa\u00e7\u00e3o, \u00e0s voltas com dores de fabrica\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e feridas de Prometeu.<\/p>\n<p>Promessas que se desejam, a pedidos clamorosos, sejam cumpridas. Resta-nos o c\u00e9u, distante; um para\u00edso perdido, m\u00edtico e contraproducente, onde somos personagens ou lendas, mentira ou fantasia. Onde estamos, al\u00e9m de sob o mesmo teto? Onde nos fala harmonia e cumplicidade? Aonde escondemos os sonhos de compaix\u00e3o e cores fraternas? A lua observava, menos brilhante \u00a0confusa de tantas indaga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Lua enxergava atrav\u00e9s do teto. Decidi um copo de leite, mais que uma x\u00edcara para diluir gostos de nada. Via l\u00e1ctea e Lua, para adornar exist\u00eancias engasgadas. A cozinha ainda desarrumada, restos do almo\u00e7o mal digerido. Engasgues pelos cantos e um cheiro de fritura reprimida; afinal, sa\u00edramos ap\u00f3s almo\u00e7o, trancafiando portas e janelas, peixes empanados e sais oleosos. Talvez o cheiro associativo, ou mesmo distra\u00e7\u00e3o desinteressante, fez-me buscar o bicho de estima\u00e7\u00e3o (n\u00e3o muita) ,em seu aqu\u00e1rio improvisado. Pirex de cozinha de uns trinta cm di\u00e2metros e algumas pedras comemorativas em tons azuis. Algo que lhe propusesse uma identidade aqu\u00e1tica, que n\u00e3o o classificasse adorno de cozinha bagun\u00e7ada. O suposto viveiro fora colocado sobre o freezer desativado, elementos de desordem: o congelador-prateleira e o aqu\u00e1rio solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ali do alto , uns dois metros do ch\u00e3o, o bichinho espionava nossas cabe\u00e7as; ora imerso na \u00e1gua de torneira, distorcido de vis\u00f5es; ora erguendo-se em busca de cabe\u00e7as menos densas. Nossos pensamentos deviam parecer assustadores vistos l\u00edmpidos de \u00e1gua. Pobre lagosta.<\/p>\n<p>Talvez o cheiro associativo de fritura de pescado, ou mesmo distra\u00e7\u00e3o, fizera-me buscar olhos sobre o freezer desativado, a lagosta de estima\u00e7\u00e3o. L&#8217;augusto, seu nome, dado de improviso, tal fora sua recep\u00e7\u00e3o. Lagosta: presente inesperado de excentricidades de amigo em processo psiqui\u00e1trico.<\/p>\n<p>Olhos sobre o freezer desativado e aqu\u00e1rio vazio. Apenas pedras azuis adornando o recipiente solit\u00e1rio: a lagosta desaparecera. Vest\u00edgio algum, exceto um pouco de sua comida boiando, esquecida na \u00e1gua cloro-encanada . Complicou-me os pensamentos aquela aus\u00eancia. Onde diabos se metera o bicho? Como teria pulado de quase dois metros de freezer? Algum animal intruso a teria devorado? Ningu\u00e9m soube responder .<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5da1fc8369e3ed81ca716449_IMG_1609.png\" \/><\/div>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-center\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"center\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Maria L\u00facia Nardy Bellicieri<\/p>\n<p>Estarrecidos, iniciamos a busca pelo fugitivo: mesas, cadeiras, sof\u00e1s, televisores, geladeira. Sala e cozinha revirados. Nenhum sinal do crust\u00e1ceo misterioso. At\u00e9 o \u00e2nimo reaparecera; o objetivo comum e a procura faziam-nos c\u00famplices a mais, time a mais, algo de fam\u00edlia, de uni\u00e3o. Mas n\u00e3o houve resultado constatado. Sentiamo-nos perdedores; no entanto, compensados com alivio de sermos viventes do mesmo teto; comparsas. A falta da lagosta quase n\u00e3o fazia diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Di\u00e1logo reestabelecido ap\u00f3s dia de quietudes e discuss\u00f5es mentais, iniciaram-se conjecturas sobre o desaparecimento vermelho. Extremamente estranho o acontecido. Detetives, tent\u00e1vamos explica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e cientificas, hip\u00f3teses , e at\u00e9 teletransporte. Nada que nos satisfizesse a curiosidade de n\u00e3o se poder saber ao certo. Desistimos.<\/p>\n<p>\u00c0 tona, ent\u00e3o, em \u00e1gua de cativeiro de lagosta, surgiram sentimentos escusos em rela\u00e7\u00e3o ao bicho. A primeira a se manifestar foi a av\u00f3. Sentira-se estranha desde a conviv\u00eancia comum com o lagostim. Algo de pernicioso&#8230; Confessou que tinha vontades de despej\u00e1-lo descarga abaixo, que duvidava das inten\u00e7\u00f5es gentis do doador de lagosta. Onde j\u00e1 se viu, presente desses? Coisa m\u00f3rbida, coisa esquisita, parecia escorpi\u00e3o. Pedira a Nossa Senhora que, se houvesse energias negativas no lagostim, algo aconteceria. Muita coincid\u00eancia, o sumi\u00e7o inexplic\u00e1vel. Foram os santos e magia a darem cabo do bichano, na certa .<\/p>\n<p>Logo, cada um contribuiu, \u00e0 sua maneira, para a mistifica\u00e7\u00e3o multi-patas. Sobrenatural aquele dia inconsciente, submerso em \u00e1guas de lagosta. Restabelecera-se di\u00e1logo faltoso entre n\u00f3s, viventes de mesmo teto. Interrogativos de causa comum. A m\u00e3e achou rela\u00e7\u00e3o entre o cadeado escancarado e a fuga. Quem sabe, n\u00e3o tinha sido o bicho a retirar-se elegante, pela porta da frente? Duvidoso, mas poss\u00edvel, pass\u00edvel de suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Magia negra, Lua e lagosta. Seria algum feiti\u00e7o? Estilo lobisomem ou desse outros seres de dupla personalidade; como os sobreviventes de mesmo teto, observadores de mesma lua. Duais e conviventes. Quem sabe n\u00e3o tenha sido o bicho a retirar-se, monstruoso, pela porta da frente?<\/p>\n<p>Desistimos de supor e de tentar encontr\u00e1-lo. Na verdade, n\u00e3o quer\u00edamos; exceto o pai, que se afei\u00e7oara do pequeno, at\u00e9 lhe dava batatas e outros petiscos. Trocava-lhe sujeiras e \u00e1guas paradas. O pai ficou cabisbaixo. Dona da lagosta, confesso que pendi mais \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o com o seu desaparecimento; afinal, se houvesse campos energ\u00e9ticos duvidosos, estariam direcionados a mim. Av\u00f3 dava gra\u00e7as aos c\u00e9us; fora sua f\u00e9 a desmaterializar o mal curtido em \u00e1gua de torneira. Ao lixo com as pedras azuis!<\/p>\n<p>Prontos a nos recolhermos, tal faziam lobisomens, lagostas human\u00f3ides e seres de dupla personalidade; pusemos fim \u00e0 busca. Passamos, cada qual, a suas rotineiras tarefas fim de noite. Dirigi-me \u00e0 cozinha para, ent\u00e3o, voltar \u00e0 vontade de copo de leite.<\/p>\n<p>Distra\u00edda em pensamentos e vistas de carpete de sala, presenciei o inesperado. Indo, quase ao meu alcance, de passadelas apressadas, a tal lagosta desaparecida. L&#8217;augusto voltava a habitar-nos. Quase um desespero doentio em sua agilidade de pin\u00e7as e patas. Bicho fora d&#8217;\u00e1gua. Ser\u00e1 que presenciara a conversa e voltava por vingan\u00e7a? Ou apenas agarrava-se \u00e0 ultima chance de volver ao seu aqu\u00e1rio de cobertura de freezer? Quais seriam as inten\u00e7\u00f5es ?<\/p>\n<p>N\u00e3o tive tempo de conter o espanto e, de certa forma, a paradoxal alegria em ver ressuscitar uma vida que at\u00e9 segundos atr\u00e1s pareceu-me esva\u00edda. Gritei: &#8221; Olha a lagosta ! &#8220;. Todos, cada qual a seu veloc\u00edmetro, largaram afazeres e vieram certificar-se. Impressionante! \u00a0O pai apressou-se para socorr\u00ea-la; providenciou novo pirex, mesmo sem pedras, e despejou-a com \u00e1gua corrente. A av\u00f3 empalideceu a olhos vistos. Que diabos o bicho tentava? A m\u00e3e, apesar de t\u00ea-lo de m\u00e1s significa\u00e7\u00f5es, riu-se da situa\u00e7\u00e3o e patas de poeira do animal. Compartilh\u00e1vamos o mesmo teto.<\/p>\n<p>Voltou ao cativeiro e, de certa forma, o fizemos, encontrando nossa normalidade programada. Voltamos, todos, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de compartilhar sil\u00eancios sob forma de dor. Sil\u00eancios, tais esses, de animal calado, talvez n\u00e3o guardem significado triste, apenas o tra\u00e7o conformado da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>E era esse nosso \u00f3dio da lagosta: seu reflexo calado, em espa\u00e7o circunscrito, espelhando-nos os semblantes emudecidos. Era esse nosso medo de lagosta: a tal da identifica\u00e7\u00e3o. Era essa nossa vida de lagosta : fuga e cativeiro .<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Noite de lua; a mais brilhante do ano, segundo p\u00e1gina de jornal. Dif\u00edcil reparar lua entre luzes-cidades infestando o c\u00e9u. Mas, se deu no jornal, deve ter sido. No caminho para casa, ainda tentei, atrapalhada de universo circunscrito de autom\u00f3vel, localizar o sat\u00e9lite. N\u00e3o me lembro do brilho incomum. A lua era vulgar em meio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2149,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1541","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-anima_in_cronica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1541","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1541"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1541\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2149"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1541"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1541"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1541"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}