{"id":1540,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/retratos-gli-occhi-di-lucia\/"},"modified":"2022-08-27T18:31:02","modified_gmt":"2022-08-27T21:31:02","slug":"retratos-gli-occhi-di-lucia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/retratos-gli-occhi-di-lucia\/","title":{"rendered":"Retratos: Gli occhi di Lucia"},"content":{"rendered":"<p>Olha, olha bem&#8230; V\u00ea, ao fundo, o c\u00e9u preto e branco? \u00c9 cinza&#8230;<\/p>\n<p>V\u00ea, bem ali, a nuvem? Horas mais tarde tornava chuva, de todo ver\u00e3o desmoronado. O menino correndo, \u00e0 esquerda, primo distante, apavorou-se do aguaceiro. J\u00e1 o menino direito, nem recordo; apareceu de repente, em pose oportunista.<br \/>\nNo centro, a mo\u00e7a de mai\u00f4 preto e branco, essa sou eu&#8230; A outra, segurando-me a m\u00e3o, minha irm\u00e3, vestido branco-preto. Sua outra m\u00e3o, em posse do par de sand\u00e1lias que lheera \u00fanico. Preferiu poup\u00e1-lo da areia, com medo que corresse-se no vento, fugindo seus p\u00e9s. Agarrava as sand\u00e1lias de mesma for\u00e7a que apertava-me a m\u00e3o e que Sorrento assoprava-se, revolta, em dia festivo. Ano Novo?<\/p>\n<p>V\u00ea a preocupa\u00e7\u00e3o estampada de minha irm\u00e3, arriscando a ventania no chap\u00e9u? N\u00e3o me lembro quanto tempo a cabe\u00e7a lutou, nem sei se o chap\u00e9u resistiu. Que preto e branco \u00e9 cinza.<\/p>\n<p>V\u00ea como sorrio? Cai-me bem esse corte de cabelo, acima dos ombros, crescendo-me da menina, enfeitada \u00e0 fivela. V\u00ea esse mar preto e branco? Cinza. E as mo\u00e7as coloridas de \u00e1gua salgada, minha irm\u00e3 e eu, brinc\u00e1vamos, sereias, fazendo castelos&#8230; Ainda que agarr\u00e1ssemos o tempo, m\u00e3os dadas, talvez \u00e0 intui\u00e7\u00e3o que o dizia finito. Sob um horizonte infinito que nos respirava, o mar mentia-se de azul&#8230; Sent\u00edamos, no vento&#8230;<\/p>\n<p>V\u00ea como \u00e9 imenso, o mar? E preto e branco&#8230; V\u00ea o vestido? Eu mesma costurei; que minha irm\u00e3 nunca foi dada aos pontos. Paix\u00e3o, mesmo, eram-lhe os livros bordados de poeta. Rom\u00e2ntica, sufocava-se em palavras-devaneios de destino aventurado, amores imposs\u00edveis, rancores teatrais&#8230; Sempre achei que n\u00e3o faziam bem: mais seguro alinhar-se em penteado de fivela ou costurar-se em nova saia, que n\u00e3o h\u00e1 efeito colateral em alinhave. Vez ou outra, s\u00f3 uma picada de agulha distra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse modelo que veste minha irm\u00e3? Enquanto sonhava pr\u00edncipes emprestados, costurei-o sozinha, uma dessas tardes suas, passadas \u00e0 p\u00e1gina-fantasia. De preto e branco \u00e9 cinza.<\/p>\n<p>Bonita minha irm\u00e3, n\u00e3o? O chap\u00e9u, sempre achei escandaloso mas, <em>regalo di mamma<\/em>, fazia quest\u00e3o de t\u00ea-lo grudado-pensamentos. Admirou-me que naquela tarde de mar azul, que seria cinza, ela o tivesse arriscado para poupar as sand\u00e1lias&#8230; Talvez n\u00e3o quisesse soltar-me a m\u00e3o; t\u00e3o imensos os castelos que ergu\u00edamos e, sab\u00edamos, areia e cinzas.Dessas inoc\u00eancias que se alinhavavam \u00e0 esperan\u00e7a de, novamente, a mamma. E machucavam, mais que agulha distra\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>V\u00ea esse c\u00e9u preto e branco? Bons mortos lan\u00e7am-se aos seus?<\/p>\n<p>V\u00ea esse c\u00e9u? Cinza fotogr\u00e1fico \u00e9 s\u00f3 papel? Como se pode cinza algo que, um dia, cor?V\u00ea esse meu c\u00e9u? Minha irm\u00e3, que um dia nem mais minha, mas do tempo que ousava sand\u00e1lias corredias, usava-o sobre a cabe\u00e7a, mesmo espalhafatoso, tal chap\u00e9u desengon\u00e7ado. O c\u00e9u, mamma, a irm\u00e3, costurados da mesma mem\u00f3ria que guardo, instant\u00e2nea, de um distante t\u00e3o perto, que fic\u00e7\u00e3o. Papel que mo\u00e7a de chap\u00e9u rimava em romance de poeta. E eu que s\u00f3 queria costurar, jamais imaginaria cerzindo-me em mem\u00f3rias de cinzas que remavam-me o mar azul de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00ea esse mar? Nunca quis escrev\u00ea-lo, mas \u00e9 poema. Porque triste que n\u00e3o exista. N\u00e3o resistiu: nem aos versos de minha irm\u00e3, nem aos avessos de minhas costuras. Linha, agulha, alinhave e pronto: novo vestido. Porque n\u00e3o se costura o tempo? Por que, <em>mamma<\/em>?<\/p>\n<p>V\u00ea essa composi\u00e7\u00e3o: c\u00e9u, nuvem e mar? Consigo ao menos color\u00ed-los?<\/p>\n<p>V\u00ea a mo\u00e7a de chap\u00e9u! V\u00ea, de novo! Ser\u00e1 que posso suturar-lhe as partes cinzas, saturar-lhe as sand\u00e1lias de azul Sorrento, <em>ridenti<\/em>, de mar. Aquele mar&#8230; Reviv\u00ea-la em sonhos voadores de chap\u00e9u mamma, no vestido que eu mesma fiz. Os pontos devem ser os mesmos: areia e cardeais de infinito.<\/p>\n<p>V\u00ea as m\u00e3os dadas? Devia t\u00ea-las costurado&#8230; Um ponto s\u00f3 faria efeito, um \u00fanico ponto! Eo defeito colateral do tempo finito se desfaria, cinza em \u00e1gua e areia do mar. Meu nosso mar, Sorrento&#8230;<\/p>\n<p>Mas como podem-se t\u00e3o preto e branco almas em cor?V\u00ea esse papel? \u00c9 fotogr\u00e1fico&#8230;<\/p>\n<p>O c\u00e9u n\u00e3o \u00e9 preto-branco, nem em cinzas. O mar ainda existe, em cores, em cada um daquela minha tarde costurada, ponto a ponto, na alma.<\/p>\n<p>V\u00ea esse c\u00e9u? Flash&#8230; Palpita bem aqui. V\u00ea como sorrio&#8230; E n\u00e3o \u00e0 causa do cabelo de fivela; mas por t\u00ea-los todos: o menino \u00e0 direita que corre primo distante, o outro fazendo pose, as \u00e1guas tempestades de chap\u00e9us, sol e sal&#8230; Ret\u00ea-los, todos, costurados poesia, em cor, <em>cuore<\/em>&#8230;<\/p>\n<p>E eu que jamais poeta, aprendendo a rimar o mar contra o tempo corrente&#8230;<\/p>\n<p>Minha irm\u00e3, sempre minha, vestido e chap\u00e9u, orgulharia-se. N\u00e3o \u00e9, <em>mamma<\/em>?<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olha, olha bem&#8230; V\u00ea, ao fundo, o c\u00e9u preto e branco? \u00c9 cinza&#8230; V\u00ea, bem ali, a nuvem? Horas mais tarde tornava chuva, de todo ver\u00e3o desmoronado. O menino correndo, \u00e0 esquerda, primo distante, apavorou-se do aguaceiro. J\u00e1 o menino direito, nem recordo; apareceu de repente, em pose oportunista. 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