{"id":1539,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/sobre-quando-enterraram-a-menina\/"},"modified":"2022-05-23T06:57:49","modified_gmt":"2022-05-23T09:57:49","slug":"sobre-quando-enterraram-a-menina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/sobre-quando-enterraram-a-menina\/","title":{"rendered":"Sobre quando enterraram a menina"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o naquela tarde&#8230; N\u00e3o aquela que se fingia de sol e se fugia t\u00e3o sombria, virando rosto a qualquer sorriso. N\u00e3o aquela&#8230;<\/p>\n<p>Como tudo podia ser p\u00e1lido cinza e se fundir, fingindo, em colorido? Cinza n\u00e3o \u00e9 a mistura de todas as cores. Cinza \u00e9 a desist\u00eancia de todas.<\/p>\n<p>Como um c\u00e9u podia ser assim, triste e azul, vivo?<\/p>\n<p>Talvez tudo que seja vivo seja tamb\u00e9m triste&#8230; Ou talvez fosse s\u00f3 mais um pensamento de quem se deleita de Dostoi\u00e9vski, como se jogo de ideias e palavras, independendo do desalento que implicassem (cinza morte ou cinza cor), fosse divertido tal pique-esconde de crian\u00e7a.Pique-esconde que j\u00e1 nem existe mais&#8230;<\/p>\n<p>O que \u00e9 mesmo pique-esconde? Era.<\/p>\n<p>E tudo o que \u00e9 vivo \u00e9 triste, assim com o tudo o que era vivo era triste, porque, assim como tudo o que era ou \u00e9 vivo, sabe-se de um fim, mesmo que ainda n\u00e3o se saiba.<\/p>\n<p>E tudo que era vivo, um dia, poderia saber de fins, mas n\u00e3o naquele dia, n\u00e3o naquela tarde, n\u00e3o daquele tom.<\/p>\n<p>A menina havia lhe sorrido instantes antes, e sumido: pique-esconde.<\/p>\n<p>Devia saber que havia algo errado comas pessoas que sorriem daquele largo. N\u00e3o podem existir no cinza. S\u00f3 ela podia, n\u00e3o a menina&#8230; A menina sorria. Ela n\u00e3o, ela sempre p\u00f4de viver no cinza que parecia azul, que parece sol, que perece, que perece&#8230; Nem parece que perece&#8230;<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse t\u00e3o atenta, n\u00e3o teria nem notado que parecer e perecer s\u00e3o quase a mesma palavra. Se n\u00e3o fosse t\u00e3o atenta, e n\u00e3o brincasse tanto de Dostoi\u00e9vski, nem teria notado que a menina sorria de um jeito que n\u00e3o poderia sobreviver. Seu instinto de cor era muito mais retinto que o cinza da vida dos que vivem sem nem saber que vivem, sem nem sofrer que morrem.<\/p>\n<p>A menina n\u00e3o poderia ser&#8230; N\u00e3o daquele dia, n\u00e3o daquele sol que fingia que sorria, que fugia e esquivava.O sol que era s\u00f3 um jogo de palavras: era s\u00f3, s\u00f3&#8230;<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5da20012f4a9e73598549a64_Image-1%20(3).jpg\" \/><\/div>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-center\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"center\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Maria L\u00facia Nardy Bellicieri<\/p>\n<p>E o sorriso da menina, de t\u00e3o largo, deu vontade de chorar. Deu vontade de ser gente de novo, de ser vivo, mas do tipo que se sabe vivo e se sabe tamb\u00e9m morto, do tipo que n\u00e3o pode viver sol porque \u00e9 s\u00f3 de suas convic\u00e7\u00f5es, do tipo que joga pique-esconde com Dostoi\u00e9vski e acha tudo muita gra\u00e7a.<\/p>\n<p>O sorriso da menina chorou o mundo porque pareceu t\u00e3o fr\u00e1gil e intoc\u00e1vel, como s\u00f3 o que belo demais pode ser: incans\u00e1vel. Pareceu duraria para sempre, mesmo quando morto, mesmo se nunca vivo ou visto. O sorriso da menina era muito mais luz do que o sol que ela conhecia.<\/p>\n<p>E nesse momento soube, quando os olhos da menina sorriram radiantes, nesse momento teve a certeza dos vivos que s\u00e3o mortos: a menina deixaria de existir.<\/p>\n<p>E foi em menos de um segundo, antes mesmo que o Sol se sentisse incomodado dos olhos vivos da menina; foi menos um segundo&#8230; E toda vida que j\u00e1 se sabia morte, todo triste de que j\u00e1 recobria a sorte que n\u00e3o passa de acaso&#8230; Um segundo e toda a vida, ocaso: um de um segundo, e a menina se foi, anoitecendo, deixando o rastro de um sorriso como nunca se vira, como nunca se permitia em uma tarde cinza que se fingia colorida.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que sorriso desistiu? Era mesmo um sorriso ou s\u00f3 resistia retrato, vertigem de um tempo?<\/p>\n<p>E porque insistia em n\u00e3o mais deixar-lhe a mem\u00f3ria? Dela que n\u00e3o era e nunca seria a menina; dela que cria e n\u00e3o cria mais na vida; dela que n\u00e3o era mais capaz de criar nada, cega sob o jugo de um sorriso que n\u00e3o mais existia, e talvez nunca tivesse existido.<\/p>\n<p>N\u00e3o, ela jamais seria capaz de ter imaginado nada assim t\u00e3o luz. N\u00e3o ela, acostumada ao sol que fingia que sorria; n\u00e3o ela, que jamais havia notado a menina.<\/p>\n<p>H\u00e1 quanto? H\u00e1 quanto tempo ela devia estar ali, tentando e tentando que lhe enxergassem o sorriso? Por que justamente quando havia entendido que o resto do cen\u00e1rio era apenas simulacro e vaidade; porque justo quando havia de deixar-se deixar de ser do cinza que finge mistura de todas as cores? Por que justamente quando a menina lhe sorria o sol que nunca existiu e nem existiria&#8230; Por que justamente quando deram-se olhou nos olhos, ela desapareceu?<\/p>\n<p>Por que quando olhou-se nos olhos, menina, desapareceu?<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5d6ae40e22e17580fc161e77_giz1mar1.png\" \/><\/div>\n<p>N\u00e3o podia ser de prop\u00f3sito: a menina jamais seria c\u00famplice da mentira dos quadros de viver morrendo. A menina era muita luz para que se deixasse envolver pelo descolorir. A menina n\u00e3o a enganaria.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o, por que t\u00e3o cedo? E por que t\u00e3o tarde para deixar-se apagar da mem\u00f3ria?<\/p>\n<p>Ela jamais conseguiria esquecer o sorriso; contrastava-lhe rasgando um seu peito meio ferido, meio cansado devida e morte, meio tempo, meio mudo; refletia um seu mundo de fragilidades e n\u00e3o, como s\u00f3 o que \u00e9 belo pode ser. Uma fragilidade carne, est\u00fapida, breve, mas cortante, visceral, porque viva e porque morta.<\/p>\n<p>Fragilidades existem a todas as naturezas, como aos s\u00f3is que s\u00e3o desatentos a seu brilho, como aos brilhos que se fazem s\u00f3is, como aos s\u00f3s que se fazem trilho, como aos trilhos que constru\u00edmos s\u00f3s&#8230; Como tudo que \u00e9 e j\u00e1 n\u00e3o mais: um segundo e ocaso&#8230; O caso do perene ocaso da humanidade, do incessante amanhecer para anoitecer, e para amanhecer e para anoitecer, e sol e cinza e sol e cinza e sol e cinza. Vida e morte.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o mesmo fr\u00e1gil, o sorriso era para sempre! Por isso n\u00e3o poderia esquec\u00ea-lo, por isso \u00a0n\u00e3o podia ser humano, n\u00e3o podia ser dela, n\u00e3o podia ser ela a menina dos olhos no espelho.<\/p>\n<p>Por isso ela-menina teve que partir, para ficar para sempre, presente, nos instantes em que o ocaso desistisse de insistir, e ela pudesse amanhecer do sol-sorriso, mesmo que logo fosse descoberta e recoberta novamente de cinza, como pique-esconde fosse jogo de palavras Dostoi\u00e9vski, como poesia fosse amarelinha e bolha de sab\u00e3o, que nem mas existiam, talvez nunca o tivessem, ou talvez resistissem para sempre&#8230; Como tudo que \u00e9 vivo \u00e9 morto, como tudo que \u00e9 morto sempre se far\u00e1 vivo.<\/p>\n<p>A menina teve que partir, prantos e sorrisos, s\u00f3is e ocasos, para que nunca mais partisse&#8230;<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o naquela tarde&#8230; N\u00e3o aquela que se fingia de sol e se fugia t\u00e3o sombria, virando rosto a qualquer sorriso. N\u00e3o aquela&#8230; Como tudo podia ser p\u00e1lido cinza e se fundir, fingindo, em colorido? Cinza n\u00e3o \u00e9 a mistura de todas as cores. Cinza \u00e9 a desist\u00eancia de todas. Como um c\u00e9u podia ser assim, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2183,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1539","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-anima_in_cronica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1539","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1539"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1539\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2183"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1539"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1539"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1539"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}