{"id":1537,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/o-giz-e-a-maca\/"},"modified":"2022-05-23T06:55:31","modified_gmt":"2022-05-23T09:55:31","slug":"o-giz-e-a-maca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/o-giz-e-a-maca\/","title":{"rendered":"O giz e a ma\u00e7\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>O menino levantou a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Dali, daquele bem canto, bem quieto, intimidado. Mas levantou a m\u00e3o&#8230; Pequena, ainda incerta de que devesse erguer-se em meio a tantas outras. M\u00e3o de s\u00f3 confiar em m\u00e3o de m\u00e3e.\u00a0M\u00e3o de menino, menino de m\u00e3e, de casa, de sempre protegido, em receio de dar-se a m\u00e3os outras.<\/p>\n<p>Mas que ousadia, menino, levantar a m\u00e3o!!<\/p>\n<p>Mas levantou, no meio dos olhos at\u00f4nitos de outros meninos, intimidados como ele, meio bichos, \u00a0estranhos uns aos outros, conhecendo-se aos\u00a0poucos, olhando-se, desinteressando-se, espelhando-se.<\/p>\n<p>O menino levantou a m\u00e3o e, aos poucos, enquanto esperava que a aten\u00e7\u00e3o da sala, que lhe era o mundo, voltasse-se a ele, ergueu\u00a0tamb\u00e9m\u00a0os olhos, num tom desafio, \u00a0 assumindo-se em sua d\u00favida, perante os outros e a si\u00a0mesmo; decidindo-se mais que um menino: o menino que erguera a m\u00e3o.<\/p>\n<p>O professor, arrumado em\u00a0seus\u00a0\u00f3culos\u00a0desalinhados, quase\u00a0sempre\u00a0protegido por\u00a0capas duras e p\u00e1ginas de autoridade, nem percebeu a\u00a0d\u00favida\u00a0do menino. Continuou a escrever sua matem\u00e1tica confusa e estranha \u00e0 maioria dos pequenos, que se entretinham mais do palet\u00f3 sujo de giz do professor do que dos resultados e aritm\u00e9ticas. E o menino permaneceu com a m\u00e3o levantada que, aos poucos, foi cansando, \u00e0 mesma intensidade do ritmo\u00a0dos c\u00e1lculos fren\u00e9ticos do professor, cada vez mais absorto em suas hip\u00f3teses, confirmadas ou n\u00e3o. Conformado, com\u00a0seu p\u00f3\u00a0de giz que\u00a0emba\u00e7ava\u00a0os \u00f3culos e o fazia uma figura distante, que via o mundo sob lentes chuviscadas, que desistia de enxergar os meninos, suas m\u00e3os, suas d\u00favidas,\u00a0voca\u00e7\u00f5es, seus caminhos de giz&#8230;<\/p>\n<p>O professor detinha-se\u00a0em seus\u00a0c\u00e1lculos,\u00a0especialmente aquele\u00a0um que\u00a0n\u00e3o dava certo, n\u00e3o dava conta, n\u00e3o tinha raz\u00e3o. Apagava e rabiscava, e voltava e tentava um n\u00famero a mais e\u00a0outros\u00a0a menos, enquanto as crian\u00e7as achavam gra\u00e7a de seu palet\u00f3 cada vez mais branco, mais giz, mais pintado das\u00a0d\u00favidas\u00a0do professor que n\u00e3o\u00a0se\u00a0acertava\u00a0em contas.<\/p>\n<p>E o menino ali, com a\u00a0d\u00favida\u00a0que n\u00e3o\u00a0dava\u00a0mais \u00a0conta de sua toda curiosidade, a\u00a0m\u00e3o\u00a0pesando, o bra\u00e7o cansado de esperar&#8230;<\/p>\n<p>Mas algo ali nos olhos que se alinhavam a horizontes, sustentava a m\u00e3o mais que a\u00a0d\u00favida, sustentava a escolha \u00a0de tentar uma resposta.\u00a0Tinha uma\u00a0d\u00edvida\u00a0consigo, com os meninos iguais que ainda lhe eram estranhos e se sentavam como ele, bem daquele canto, daquele fundo, daquela sala de lousa, c\u00e1lculos e\u00a0p\u00f3\u00a0de giz.\u00a0Da sala que dali a algum tempo seria\u00a0apagada, tal a conta estranha que o professor usava na lousa, insistentemente, tentando\u00a0talvez\u00a0resolver-se a si mesmo, suas\u00a0d\u00favidas de capa dura.\u00a0Ser\u00e1 que o professor tinha uma\u00a0d\u00edvida? Ser\u00e1 que devia a si mesmo a liberdade da d\u00favida? Tal aquela do menino que se\u00a0\u00a0cansava, mas se sustinha na esperan\u00e7a de uma resposta e na ousadia de erguer-se daquele canto.\u00a0Ser\u00e1\u00a0que o professor tinha sido menino?<\/p>\n<div data-w-id=\"1cb96512-30ab-3fa1-f349-10d54fd62665\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5d75471e84331e3a49423507_4%20-%20OGIZEAMAC%CC%A7A%CC%83%20-%20co%CC%81pia.png\" data-w-id=\"1cb96512-30ab-3fa1-f349-10d54fd62666\" \/><\/div>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Maria L\u00facia Nardy Bellicieri- Professor?<\/p>\n<p>A\u00a0m\u00e3o\u00a0do menino quem falou, cansada de esperar que o homem s\u00e9rio\u00a0desse-lhe\u00a0contada coragem.<\/p>\n<p>&#8211; Professor?<\/p>\n<p>Mas o homem de giz estava\u00a0t\u00e3o\u00a0absorto\u00a0em sua\u00a0conta que n\u00e3o fechava e em sua d\u00edvida que n\u00e3o lhe cumpria liberdades,\u00a0que a voz menina parecia um sussurro, grunhido de giz comportado na lousa.<\/p>\n<p>&#8211; Professor?<\/p>\n<p>Dessa vez a voz misturou-se a um risco estridente de giz, que ecoou sala toda, arranhando a paci\u00eancia do professor e seu embate contra a conta que n\u00e3o se resolvia.<\/p>\n<p>Dessa vez o professor ouviu. Virou at\u00f4nito, como\u00a0procurasse o n\u00famero que lhe faltava ao resultado irresoluto ou \u00e0 causa de sua conta em falta.\u00a0Os olhos pintados de p\u00f3 de giz, o palet\u00f3 nevado, as m\u00e3os sujas, os olhos quase tristes, desistentes. Os alunos sentados, uns que seriam dele, outros que\u00a0desacreditavam da ousadia da voz do menino, outros\u00a0ainda\u00a0assustados\u00a0com o grito estridente do giz mal educado na lousa.<\/p>\n<p>&#8211; Professor? Posso escrever na lousa?<\/p>\n<p>Mas que ideia era aquela? Como o professor de capa dura e seus n\u00fameros ocupados \u00a0cederiam espa\u00e7o a uma letra de menino?<\/p>\n<p>O professor n\u00e3o chegou a responder. Talvez tenha sido a ousadia do menino atravessando sua pouca inventividade e seus anos at\u00f4nitos atr\u00e1s dos \u00f3culos de giz&#8230;<\/p>\n<p>O professor simplesmente sentou-se, desacreditado de sua pouca autoridade, afinal o menino desafiara-lhe a import\u00e2ncia dos n\u00fameros. Sentou-se enquanto o menino dos olhos erguidos empunhou um peda\u00e7o de giz j\u00e1 gasto pelas contas do professor e come\u00e7ou a\u00a0mover-se em tra\u00e7os na\u00a0lousa\u00a0s\u00e9ria, assistida por\u00a0c\u00e1lculos\u00a0e probabilidades. O menino e uma calma\u00a0de quem\u00a0entendia\u00a0o\u00a0mundo a apenas um d\u00edgito.\u00a0Vestiu-se\u00a0linhas, retas e curvas, somas e multiplica\u00e7\u00f5es e, de repente, na lousa, na frente de toda a classe, havia um\u00a0outro professor.Um desenho meio caricato, meio uma leitura despreparada, mas sincera, do homem sentado em seu p\u00f3 de giz.<\/p>\n<p>O menino de sua voca\u00e7\u00e3o ainda escondida, desenhara o professor:os\u00a0\u00f3culos borrados de giz e\u00a0um sorriso enorme. Daqueles que os c\u00e1lculos solit\u00e1rios n\u00e3o suportariam.<\/p>\n<p>&#8211; Professor, hoje \u00e9 seu dia! Esqueceu?\u00a0Isso \u00e9\u00a0pra voc\u00ea!<\/p>\n<div data-w-id=\"0e1d70cc-f0b4-5b34-fee6-845c993b9e78\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5d7547547603174f080bf849_3%20-%20OGIZEAMAC%CC%A7A%CC%83%20-%20co%CC%81pia.png\" data-w-id=\"0e1d70cc-f0b4-5b34-fee6-845c993b9e79\" \/><\/div>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Maria L\u00facia Nardy BellicieriE sacou uma ma\u00e7\u00e3 clich\u00ea do bolso, todo orgulhoso. Uma ma\u00e7\u00e3\u00a0que tinha sido comprada pela m\u00e3e a pedido\u00a0dele,\u00a0lavada e lustrada, com toda gratid\u00e3o,\u00a0a mesma em que tinha \u00a0pelo pai e pela m\u00e3e. Uma gratid\u00e3o de giz que talvez um dia se apagasse, mas que, a qualquer momento, bastariam o giz e a ma\u00e7\u00e3, se faria facilmente rememorada.<\/p>\n<p>O professor n\u00e3o\u00a0conseguiu \u00a0responder, nem mais levantar-se.\u00a0Agarrou-se \u00e0 ma\u00e7\u00e3 como quem acerta a conta mais dif\u00edcil do mundo. E\u00a0olhou dali, daquele\u00a0seu\u00a0canto\u00a0bem\u00a0canto, de sua mesa organizada,\u00a0aquela\u00a0vers\u00e3o de si, feliz, vestindo \u00f3culos e sorriso, na lousa.<\/p>\n<p>O professor\u00a0n\u00e3o conseguiu responder; \u00a0foram os \u00f3culos, borrando as lentes pontilhadas de giz, que correram uma l\u00e1grima resoluta de gratid\u00e3o, sem d\u00edgito; uma l\u00e1grima de lavar-lhe a voca\u00e7\u00e3o \u00a0de p\u00f3 e capadura&#8230; Uma l\u00e1grima\u00a0pela ma\u00e7\u00e3 que nem era mais ma\u00e7\u00e3, era a figura de giz risonha a sorrir-lhe.<\/p>\n<p>O professor se deu conta: um dia o menino tamb\u00e9m conheceria a sua voca\u00e7\u00e3o; e ele, o homem de giz, era parte desse resultado.<\/p>\n<p>*texto apresentado na abertura da Semana de Prepara\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da Universidade Presbiteriana Mackenzie<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<div data-w-id=\"1be3538b-4e8d-80aa-feb9-4e6702c417ba\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5d7546fd84331e22b94227bd_maca%20-%20co%CC%81pia.png\" data-w-id=\"1be3538b-4e8d-80aa-feb9-4e6702c417bb\" \/><\/div>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Maria L\u00facia Nardy Bellicieri<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O menino levantou a m\u00e3o. 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