{"id":1536,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/o-marca-passo-e-os-sapatos\/"},"modified":"2022-05-23T06:54:53","modified_gmt":"2022-05-23T09:54:53","slug":"o-marca-passo-e-os-sapatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/o-marca-passo-e-os-sapatos\/","title":{"rendered":"O marca-passo e os sapatos"},"content":{"rendered":"<p>O homem andava denso, p\u00e9s sem descanso, tensos, muito mais couro que o sapatoapertado.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o: o sapato era confort\u00e1vel, tinha que ser!<\/p>\n<p>Tinha sido caro demais: caso de pol\u00edcia!<\/p>\n<p>Onde j\u00e1 se vira couro custar como a vida da vaca?<\/p>\n<p>Pois custava, e muito mais!<\/p>\n<p>Os p\u00e9s incomodavam&#8230;<\/p>\n<p>O que havia de errado com os sapatos?<\/p>\n<p>Talvez fosse o concreto, pisoteado tantos passos passageiros, que o marca-passo da sola cansava, ofegava em acordes rangidos, ru\u00eddos de cimento-quente-pedra. Sole cimento, sola e sapato: ro\u00eddos.<\/p>\n<p>E o barulho marca-passo indicando a sola cansada, casada quase cola com o emaranhado de outras tantas solas, s\u00f3s, perdidas de multid\u00e3o.<\/p>\n<p>E o barulho marca-passo indicando a sola cansada, casada quase cola com o emaranhado de outras tantas solas, s\u00f3s, perdidas de multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o solado tinha sido caro! Como n\u00e3o funcionava?!<\/p>\n<p>Nem tinha vindo de terras da China! Ou tinha? Ocidente? Oriente?<\/p>\n<p>Ah, essas regras desnorteadas do capital da m\u00e3o-de-obra barata, sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a, que vendiam a pre\u00e7o de sola, os p\u00e9s, que, \u00e0s solas-soldados, pereciam: ossos e carne viva. \u00c0s custas de um couro que nem devia ser couro, mas pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>Um couro avesso ao apre\u00e7o pela pr\u00f3pria carne.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 novidade que pl\u00e1stico dura mais que p\u00e9s&#8230;<\/p>\n<p>Ah, precisava lembrar de onde tinham vindo os sapatos, afinal, pagara caro!<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, tinha que fazer justi\u00e7a ao couro da pobre vaca.<\/p>\n<p>E o p\u00e9 mancando quente, redimindo-se pelas patas da vaca (ou carneiro, bode, ovelha), na sola desconfort\u00e1vel do sapato&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o lembrou-se de onde tinham vindo os sapatos: It\u00e1lia&#8230;<\/p>\n<p>Ou Fran\u00e7a&#8230; ou Portugal&#8230;?<\/p>\n<p>Como assim, n\u00e3o lembrava dos pr\u00f3prios passos?!<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria sola daqueles sapatos marcava passos de um solo que nem mais sabia se concreto&#8230;<\/p>\n<p>Um solo que nem mais sabia se visitado, de fato, a pr\u00f3prios p\u00e9s ou s\u00f3 importado, consumido assim, como sapatos.<\/p>\n<p>It\u00e1lia,Fran\u00e7a ou Portugal!?? N\u00e3o lembrava&#8230;<\/p>\n<p>Qu\u00e3o distante estava de si, afinal?<\/p>\n<p>Apressa, dolorida em saber a origem da sola do sapato, chegava a apertar o peito marca-passo. Um n\u00f3 que ia ao teto da cabe\u00e7a e fazia morada bem ali, nos p\u00e9s transeuntes cansados&#8230;<\/p>\n<p>Seriam de pl\u00e1stico?<\/p>\n<p>Aquilo s\u00f3 podia ser efeito colateral da sola!<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o pudesse ficar exposta ao Sol. Se fosse mesmo couro, n\u00e3o podia! N\u00e3o ao Sol daquele dia: intenso&#8230;<\/p>\n<p>Ou a sola estava estragada ou contaminada pela l\u00f3gica do Sol de um meio dia que queimava como dia inteiro&#8230;<\/p>\n<p>Como pode, meio dia um dia inteiro?<\/p>\n<p>Quanto lhe custava o tempo marca-passo?<\/p>\n<p>S\u00f3 podia ser o efeito colateral da sola da China que se fantasiava de It\u00e1lia-Fran\u00e7a-Portugal, como se fossem do mesmo Sol. S\u00f3 podia! Nunca o marca-passo dos p\u00e9s reclamara o peito de pl\u00e1stico!<\/p>\n<p>Meio dia podia custar um quarto ou um dia inteiro, uma vida, a vida da vaca ou a vida de pl\u00e1stico, que o homem jamais daria conta, estava acostumado.<\/p>\n<p>S\u00f3 podia ser a droga da sola do sapato!<\/p>\n<p>Marca-passo&#8230;<\/p>\n<p>E em meio \u00e0 balb\u00fardia do peito e das pessoas passageiras, cada qual de seu marca-passo e pl\u00e1sticos apertados, os p\u00e9s, quase que em descaso \u00e0 tamanha confus\u00e3o do homem, suspiraram desistentes, e estancaram quando, uns passos pra l\u00e1 do meio dia, avistaram a escadaria dos 20 e tantos degraus&#8230;<\/p>\n<p>Os 20 e tantos degraus que o homem subia e descia, todo meio dia inteiro, de mais de 30 graus, de um sempre t\u00e3o mec\u00e2nico que j\u00e1 era nunca.<\/p>\n<p>Dessa vez os p\u00e9s recusaram-se a al\u00e7ar sequer um degrau.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que todas as outras solas, na valsa dos milhares, que se atropelavam na escadaria do meio dia que contava dia inteiro eram assim como a sua?? Rebeldes?<\/p>\n<p>Mais vinte degraus, meio dia, quarenta graus e sessenta segundos e o marca-passo pararia de respirar&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pela primeira vez naquele meio dia de todo dia e dia inteiro, o homem olhou para baixo.<\/p>\n<p>Bem ali, em frente \u00e0 escada&#8230; E fez-se uma via: \u00a0 para al\u00e9m do couro, pl\u00e1stico e sola, o homem viu que tinha p\u00e9s, n\u00e3o sapatos.<\/p>\n<p>Viu os p\u00e9s, apesar dos sapatos. Ao pesar dos sapatos.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5d7542b855ea0e6cb9ca7678_marcapasso.png\" \/><\/div>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width: 800px;\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"800px\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Maria L\u00facia Nardy Bellicieri<\/p>\n<p>Percebeu que o marca-passo batia o peito dos p\u00e9s, n\u00e3o a sola importada, que ficou, de repente, desimportante, impotente, impertinente.<\/p>\n<p>A sola era s\u00f3 reflexo dos p\u00e9s apertados no peito, que se queriam livres: nem patas, nem couro, nem pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o homem que ousou olhar para baixo, aos p\u00e9s da escadaria de 20 e tantos degraus, naquele meio dia de concreto e pl\u00e1stico, degrad\u00e1veis&#8230; o homem tirou os sapatos de couro nobre, que j\u00e1 n\u00e3o valiam os pr\u00f3prios calos, calando assim a multid\u00e3o dos outros tantos sapatos passageiros.<\/p>\n<p>O homem tirou os sapatos, ali, no meio do mundo do meio dia.<\/p>\n<p>Um homem descal\u00e7o, ao p\u00e9 da escada, a mil p\u00e9s do ch\u00e3o; nunca t\u00e3o alto, nunca t\u00e3o salto, nunca t\u00e3o&#8230; Si<\/p>\n<p>Dizem que foram os p\u00e9s a al\u00e7arem o homem dali adiantes.<\/p>\n<p>De antes? Nem a sola , nem o sapato&#8230;<\/p>\n<p>Dizem que foram os p\u00e9s, mas devem ter sido asas&#8230; Porque nunca o homem voou t\u00e3o alto&#8230;<\/p>\n<p>E nunca se soube, se a tal da sola do sapato tinha sido China, \u00cdndia, It\u00e1lia, Brasil, ouPortugal&#8230; \u00a0Porque a hist\u00f3ria nunca fora sobre solas, p\u00e9s ou sapatos.<\/p>\n<p>Pena que tantos outros, no sobe-desce marca-passo da escada de 20 e tantos degraus, sob s\u00f3is e meios-dias, ainda n\u00e3o soubessem: sobre a sola do sapato, bem ali, no solo de concreto, todos, cada qual, escondiam p\u00e9s, e asas&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 podem ter sido as asas&#8230; E, um dia, todos saberiam&#8230;<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5d7541c42810d532c2fed7ee_marcapasso%20-%20co%CC%81pia.png\" \/><\/div>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-center\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"center\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Maria L\u00facia Nardy Bellicieri<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O homem andava denso, p\u00e9s sem descanso, tensos, muito mais couro que o sapatoapertado. 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