{"id":1534,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/atropelamento-e-fuga\/"},"modified":"2022-08-27T18:15:56","modified_gmt":"2022-08-27T21:15:56","slug":"atropelamento-e-fuga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/atropelamento-e-fuga\/","title":{"rendered":"Atropelamento e fuga"},"content":{"rendered":"<p>Numa volta pra casa; desses feriados fim de f\u00f4lego. O carro carregado: roupa, gente, bugigangas e essenciais. Fam\u00edlia retornava da praia. Cansa\u00e7o conjunto e toda aquela hist\u00f3ria de que dias de descanso revigoravam. Tremenda mentira, jogada lixo, com restos de guaran\u00e1 em lata, pela janela. Dias de descanso n\u00e3o impulsionavam em nada, absolutamente. Traziam apenas a id\u00e9ia assustadora de recome\u00e7ar fun\u00e7\u00f5es de segunda-feira.<\/p>\n<p>No farol atarefado, a figura veloz de um menino vendedor de balas ou catador de moedas e outras latas; at\u00e9 de restos guaran\u00e1s. No instante de farol dos c\u00e9us envenenados de S\u00e3o Paulo, estaciona-se o menino magro, ao lado da janela motorista.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreendi, afinal, crian\u00e7as davam \u00e0s pencas, penduradas em janela. Era comum, \u00a0j\u00e1 quase est\u00e9tico. Que compunha com o caos do urbano inevit\u00e1vel. Apenas alertei, afinal, crian\u00e7as de janela, h\u00e1 tempos deixaram de ser crian\u00e7as; amadurecem de um r\u00e1pido desigual, algo em que se custa a confiar.<\/p>\n<p>Alertei, e subi uns tantos dedos o vidro el\u00e9trico. Nem tanto que me fizesse sentir culpado por um potencial mal estar de moleque; nem tantos que me denunciasse a repulsa. Bobagem: s\u00f3 minha pouca aten\u00e7\u00e3o dada \u00e0s palavras do menino j\u00e1 era explicitamente dist\u00e2ncia.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5cfe566fba6e26196dec78fc_Slide28.jpg\" \/><\/div>\n<p>\u200d<\/p>\n<p>Fingi que nem o vi; foi quando pediu-me favor:<\/p>\n<p>\u201c- Mo\u00e7o , me d\u00e1 aquilo ali ?\u201d \u2013 e apontou para o banco de tr\u00e1s. Virei-me, curioso; afinal, n\u00e3o havia moedas, arma ou nada que surtisse vontades. O que poderia ser? Talvez outra meia lata guaran\u00e1, restos de migalhas salgadas de batata? O que o menino apontava desejo?<\/p>\n<p>Virei, (n\u00e3o pelo menino, apenas curiosidade) e vi um desinteressante brinquedo de cachorro: uma bolinha mastigada valendo nem centavos. Ser\u00e1 que o moleque era cego? Querer um pl\u00e1stico gasto? Nem a cor era original&#8230; Brinquedo de bicho, que vinha impaciente da volta de praia, e curvas e altas temperaturas, e far\u00f3is&#8230; O menino queria a bola do cachorro?<\/p>\n<p>E foi impulso a resposta, reflexo, instant\u00e2nea. Piedade do animal:<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<p>\u201c- \u00c9 do cachorro ; a bola \u00e9 do cachorro\u201d . \u00a0&#8211; e s\u00f3 deu tempo de abrir farol e o carro tocar primeira marcha, levando fam\u00edlia, bola, fim de feriado e todo o peso do olhar triste daquele moleque, que fingira nem ter reparado.<\/p>\n<p>Moleque, acumulou-me toneladas \u00e0 carroceria de bagagens! N\u00e3o pude dar a bola, que custava poucos centavos; n\u00e3o pude porque era do cachorro&#8230;<\/p>\n<p>Surpreendeu-me a sinceridade ego\u00edsta. O homem de sensibilidades que importara-se do animal pela sua bola preferida, ou o homem que negava dignidades infantis a moleques que n\u00e3o pediam dinheiro, apenas alegravam-se de brinquedo?<\/p>\n<p>Surpreendeu-me o remorso quase que instant\u00e2neo que seguiu-me a negativa e a arrancada primeira marcha do carro de passeio fim-feriado. Era quase levar arrastado, o menino, preso ao p\u00e1ra-choque traseiro. Quase atropelar-lhe a inf\u00e2ncia que j\u00e1 nem existia. Atropelamento e fuga.<\/p>\n<p>N\u00e3o comentei com filhos ou esposa; cada qual absorvido em seus cansa\u00e7os e planejamentos de semana, cantando m\u00fasica de radio, divertindo-se com as inquieta\u00e7\u00f5es do cachorro dono da bola. Nem repararam o menino da janela. Tolice contar-lhes a hist\u00f3ria do brinquedo negado. Capaz nem ouvissem, aos volumes altos de som. Capaz julgassem-me est\u00fapido em minha s\u00fabita compaix\u00e3o nascida de remorso. Ou ainda, capaz julgassem-me monstro, de uma vez por todas. Como negara bola de pl\u00e1stico a um menino de rua? Ou talvez tivesse sido fantasma, um surto fim de feriado, epis\u00f3dio sem prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Atormentava! Por que n\u00e3o fora capaz de exercer compaix\u00e3o ou a tal fraternidade que se prega \u00e0 desmesura em an\u00fancio comerciante para vender, de Coca-cola a carro de fam\u00edlia?<\/p>\n<p>Mas e o cachorro, ficaria como? Sem a bola preferida? Ser\u00e1 que fraternidade entre diferentes esp\u00e9cies conta alguma coisa no quesito humanidade? Dif\u00edcil exercer virtudes quando se tem que ser seletivo. Ent\u00e3o existe o bem contextual &#8230; Deve existir. E ent\u00e3o, existe o bem?<\/p>\n<p>Surpreendeu-me a culpa repentina ap\u00f3s atropelar inf\u00e2ncias de menino-rua. Nem menino, j\u00e1 maduro, de j\u00e1 negado; desses que nascem \u00e0s pencas em janela de carro farol. Surpreendeu-me a culpa; e talvez isso seja bem, afinal resgata-me humano&#8230;<\/p>\n<p>Mas de que adianta, se a compaix\u00e3o \u00e9 p\u00f3stuma, contemplativa? De que, se n\u00e3o pude socorrer a inoc\u00eancia vencida do menino de farol? E custaria-me centavos&#8230;<\/p>\n<p>Se o cachorro pudesse interferir; na certa, teria presenteado o garoto&#8230;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa volta pra casa; desses feriados fim de f\u00f4lego. O carro carregado: roupa, gente, bugigangas e essenciais. Fam\u00edlia retornava da praia. Cansa\u00e7o conjunto e toda aquela hist\u00f3ria de que dias de descanso revigoravam. Tremenda mentira, jogada lixo, com restos de guaran\u00e1 em lata, pela janela. Dias de descanso n\u00e3o impulsionavam em nada, absolutamente. Traziam apenas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2173,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1534","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-anima_in_cronica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1534"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1534\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2173"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}