{"id":1531,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/ultraviolenta\/"},"modified":"2022-08-27T18:14:21","modified_gmt":"2022-08-27T21:14:21","slug":"ultraviolenta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/ultraviolenta\/","title":{"rendered":"Ultraviolenta"},"content":{"rendered":"<p>A cal\u00e7ada das flores. Mesma esquina enfeitada de boteco e restos de papel. Bala, guardanapos, folheto de propaganda. Buraco qualquer da cidade sujo-central, onde personagens, interpretando gente, passeavam seu cotidiano comum. Uma voltinha de coleira. Col\u00e9rica, mas totalmente resguardada, amainada em goles de caf\u00e9 ou cacha\u00e7a. O tal do botequim.<\/p>\n<p>A cal\u00e7ada das flores envasadas, dispostas sobre o concreto; criadas naturais, expostas artificialmente. Cores de vida enfeitando uma cidade quase morta, torta, desoxigenada&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o ficavam particularmente belas, apenas grotescas, descontextualizadas. Descontentes; por assim dizer, desonestas. Flores n\u00e3o escolhem vida urbana. Urbanescamente mortas; qualquer colorido de placa, farol ou grafite faria suas vezes de pincelar paisagem. Urbanescamente tristes; qualquer um que as notasse n\u00e3o saberia seu valor; nem suas seivas e \u00e1guas.<\/p>\n<p>Julgariam-nas polui\u00e7\u00e3o visual; ou mesmo, pedintes, em seus pre\u00e7os expl\u00edcitos colados na parte da frente dos arranjos.<\/p>\n<p>Flores t\u00eam pre\u00e7o, pelo menos na cidade; como fabricadas, como produtos pertencentes. Mas flores compradas s\u00e3o semi-mortas. Jamais deveriam presentear com flores naturais; mau pren\u00fancio. Semi-morte&#8230;<\/p>\n<p>\u200dNaquela manh\u00e3 as flores \u00e0 venda surpreenderam; ou talvez tivesse sido id\u00e9ia da esquina, ou mesmo o bar de risos sat\u00edricos. Parada na esquina, os bra\u00e7os cruzados e olhar vigiado a \u00f3culos escuros; parada est\u00e1tica, ressoando tal a semi-morte das flores e, lado a lado com elas, uma mulher humilhada .<\/p>\n<p>N\u00e3o se notaria, em suas roupas ou postura, sinal de ultraje. Fora o olho esquerdo acobertado, inutilmente, de lente escura. O olho esquerdo, quase saltando sobre a arma\u00e7\u00e3o desconcertada; envergonhada \u00a0por n\u00e3o mais servir de disfarce. O olho esquerdo gritando dor, esbofeteado, arroxeado. Provavelmente na tentativa de trazer sempre presente a lembran\u00e7a de um toque rude. O olho esquerdo trazendo marcas que em uma semana tornariam-se apenas invis\u00edveis; e esse era o maior problema. Enquanto o olho estivesse gritando, colorido, compondo o quadro das flores; enquanto gritasse, latejante, a m\u00e1goa estaria sendo expressa.<\/p>\n<p>Uma mulher impressa a pontap\u00e9s. Mantida ali, de saltos altos, para defender uma tentativa de dignidade. Metida ali, entre flores&#8230;<\/p>\n<p>Primeiro impacto de quem a visse, seria o choque; o maldito contraste. Apesar de colorido, o olho esquerdo n\u00e3o combinava com orqu\u00eddeas e rosas, nem mesmo as margaridas. Mas ningu\u00e9m, de fato, a via; era como se estivesse semi-morta. Misturada aos arranjos artificiais de flores crescidas de terra, \u00e1gua e semente. Ningu\u00e9m de fato a notava. Talvez ela compusesse perfeitamente, envolta em rosas, de uma aura quase morta. Um olho cego-hematoma; o outro cego, \u00a0n\u00e3o de lente escura, escolha pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Por que diabos colocou-se ante natureza morta? Quis contraste ou complasc\u00eancia? Quis companhia, sentir-se em iguais? Seus iguais: os caules decepados. Mulher sem seiva, ceifada. Colhida. De fato, sentia-se mais pobre que as rosas. Ningu\u00e9m a compraria, naquela sua afli\u00e7\u00e3o esquerda de olho triste acobertado. Descoberto, e ainda assim, ignorado. Um olho s\u00f3; e outro para chorar por ela. Ningu\u00e9m a notava.<\/p>\n<p>Quem sabe, se estampasse um pre\u00e7o, bem no ventre, \u00a0bem vis\u00edvel, mais que olho&#8230; Quem sabe pagariam por ela &#8230;<\/p>\n<p>Dias se passariam; girass\u00f3is e margaridas murchariam ou seriam trocados por moedas. S\u00f3is girariam e ela manteria seus \u00f3culos escuros. Os olhos trocariam de lugar: ora o direito, ora o esquerdo, coloridos, de violentas violetas. Vasos e violetas. Hematomas.<\/p>\n<p>O bar e a esquina, cumprindo seus pap\u00e9is: balas, guardanapos, folhetos de propaganda. A hist\u00f3ria, sempre a mesma, no cruzamento de dois far\u00f3is, folhagens de asfalto e vidas entrecortadas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m daria conta dela, nem mesmo os ramos est\u00e1ticos a seu lado, quase tocando-lhe o bra\u00e7o. Ela n\u00e3o se importava com a tal proximidade, flores n\u00e3o espancam mulheres. De tal raz\u00e3o contentava-se em passar seus dias lado a lado com elas, mesmo que lhes faltasse di\u00e1logo; mesmo as p\u00e9talas n\u00e3o emitindo opini\u00e3o . Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal me quer&#8230;<\/p>\n<p>Ali: a mulher e suas flores inventadas.<\/p>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-normal\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"normal\"><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cal\u00e7ada das flores. Mesma esquina enfeitada de boteco e restos de papel. Bala, guardanapos, folheto de propaganda. Buraco qualquer da cidade sujo-central, onde personagens, interpretando gente, passeavam seu cotidiano comum. Uma voltinha de coleira. Col\u00e9rica, mas totalmente resguardada, amainada em goles de caf\u00e9 ou cacha\u00e7a. O tal do botequim. 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