{"id":1574,"date":"2022-04-18T13:38:11","date_gmt":"2022-04-18T16:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/adeus\/"},"modified":"2022-08-27T17:49:56","modified_gmt":"2022-08-27T20:49:56","slug":"adeus","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/adeus\/","title":{"rendered":"Adeus"},"content":{"rendered":"<p>Seria f\u00e1cil despedir em manh\u00e3 de Sol, muito f\u00e1cil. Arrumaria malas, que s\u00e3o duas, s\u00e3o poucas; usam pouco teus espa\u00e7os: travaria fechos, recolheria a foto do porta-retrato, mais minha que tua, que voc\u00ea nem sorri imagem. Abriria a porta e n\u00e3o jogaria de volta a c\u00f3pia da chave, como diz a m\u00fasica do motivo de pensar em retornos. Largaria a porta escancarada, deixando livre teus futuros, tua cama de apartamento a qualquer outra pessoa. Seria f\u00e1cil; deixaria elevador e hall de entrada do antigo pr\u00e9dio de anos e anos, com o rastro de n\u00e3o mais voltar.<\/p>\n<p>Sairia livre, ao Sol; que o dia j\u00e1 me pouparia alegrias: colorido o suficiente, n\u00e3o me obrigaria a sorrir felicidades que n\u00e3o sentia. Em dia de sol, eu n\u00e3o precisaria fingir; j\u00e1 haveria \u00e2nimos suficientes pintados azul c\u00e9u.<\/p>\n<p>Mas hoje, justo hoje, amanheceu tempestade. Justo o dia em que te deixaria s\u00f3; a porta do teu mundo escancarada para quem quisesse fazer morada. Injusto hoje, que tomara decis\u00e3o e n\u00e3o voltaria atr\u00e1s\u2026 N\u00e3o como temia o m\u00fasico compositor da c\u00f3pia da chave. E juro, n\u00e3o voltaria atr\u00e1s, n\u00e3o fosse a maldita tempestade\u2026 O dia, insatisfeito, cobraria-me, em contraste \u00e0 \u00e1gua entristecida, uma alegria que n\u00e3o poderia retribuir. O dia amanhecido adoecido cobraria-me sorrisos.<\/p>\n<p>E n\u00e3o haveria como obedecer. Sorrir molhado sob chuva tempestade seria assinar a dor que sentiria de te deixar assim: a cama vazia e a porta aberta. Sorrir molhado seria chorar os dias juntos, carregando a mala, encharcada, pesando toneladas de passado e indefini\u00e7\u00f5es futuras. Sorrir na chuva seria mentir a alma. E mentir, nunca soube.<\/p>\n<p>E sou sincera quando digo que seria f\u00e1cil despedir em dia Sol. Seria f\u00e1cil, mas n\u00e3o \u00e9; e penso se, em algum momento, ser\u00e1\u2026 \u00a0Se algum dia Sol ainda se far\u00e1. Que ainda falta um tanto para viver Sol. Que hoje o dia \u00e9 s\u00f3; t\u00e3o s\u00f3 que me sobram liberdades.<\/p>\n<p>Nem sei mais vo\u00e1-las\u2026 Me sombram liberdades, mesmo \u00e0s faltas do teu Sol. Liberdades em dia de chuva assombram. Que me falta teu sorriso compassivo, tua m\u00e3o pr\u00f3xima. Teu Sol j\u00e1 \u00e9 distante, tanto, que n\u00e3o te sinto\u2026 Tanto, que jamais amanhecer\u00e1 novamente. Tanto, que sempre ser\u00e1 tempestade.<\/p>\n<p>E assim, sair de malas e liberdade sem volta, deixando a porta escancarada em dia de chuva, n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>Seria f\u00e1cil despedir em manh\u00e3 de Sol\u2026 Mas \u00e9 culpa tua que eu n\u00e3o v\u00e1 embora. A culpa tua por amarrar-me em liberdade que n\u00e3o voa, obrigada, que n\u00e3o quero. Obrigada, mas n\u00e3o quero ser livre. A culpa tua: fazer-me ficar e querer-me distante.<\/p>\n<p>\u00c9 que busco entender em que estrada do percurso tomamos, por caminho, diferentes sinais. Rebusco ao entender essa tua busca solit\u00e1ria que te faz quase dois: o homem que conhe\u00e7o, e o homem outro, estrangeiro, que te queres tornar. Busco encaixar um m\u00ednimo em teus novos planos, esses que n\u00e3o falam minha l\u00edngua e me assinalam porta aberta. Ne verdade, nem precisaria chave ou c\u00f3pia: tua porta j\u00e1 se fez escancarada h\u00e1 tempos, pedindo-me a passagem. Passagem tua, a teu novo mundo em que n\u00e3o caibo. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o caibo nessa mala, nessa alma, nessa lama. A porta escancarada\u2026<\/p>\n<p>Seria f\u00e1cil adeus em manh\u00e3 de Sol se, pelo menos, iluminasses o apartamento com um dos teus sorrisos, nem que fosse o \u00faltimo, nem que fosse porta-retrato. Nem que fosse de recorda\u00e7\u00e3o para caber na mala em que n\u00e3o caibo. Para que eu levasse, \u00e0s toneladas, o peso da liberdade que te faz feliz. Ainda que insustent\u00e1vel. Ainda que cantasse, em sil\u00eancio, a m\u00fasica sem volta .<\/p>\n<p>Seria f\u00e1cil, se houvesse um \u00fanico teu sorriso, livrar-te a porta, a cama e os bra\u00e7os. Seria f\u00e1cil, se soubesse que n\u00e3o te restaria m\u00e1goa, exceto a que eu levaria como bagagem por um bom tempo. Um mau tempo, qualquer fosse a meteorologia. Seria f\u00e1cil ir embora , em Sol ou dia de chuva, se teu sorriso me dissesse adeus e n\u00e3o calasse fim um, assim, sem explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seria f\u00e1cil despedir em manh\u00e3 de Sol, muito f\u00e1cil. Arrumaria malas, que s\u00e3o duas, s\u00e3o poucas; usam pouco teus espa\u00e7os: travaria fechos, recolheria a foto do porta-retrato, mais minha que tua, que voc\u00ea nem sorri imagem. 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