{"id":1566,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/o-tempo-testamento\/"},"modified":"2022-08-27T17:56:47","modified_gmt":"2022-08-27T20:56:47","slug":"o-tempo-testamento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/o-tempo-testamento\/","title":{"rendered":"O Tempo Testamento"},"content":{"rendered":"<p>Lembro uma inf\u00e2ncia vagarosa, em que cabem dias de brinquedos e jogos in\u00fameros. Larga, pelo amplo espa\u00e7o percorrido, onde anos contam nada, exceto hist\u00f3rias e gibis. Tudo coube nessa inf\u00e2ncia, at\u00e9 recorda\u00e7\u00f5es fantasiosas. Coube gente de lembrar, gente de esquecer, gente de continuar. Quanta coisa&#8230;<\/p>\n<p>E foi vendo, assim, esses jogos digitais de fazer guerra e as crian\u00e7as marionetes, j\u00e1 contaminadas de olhar perverso, j\u00e1 contaminada de olhar perverso, que me dei conta que n\u00e3o existo mais menina. Me dei conta de que n\u00e3o existem mais meninas; n\u00e3o como deveriam ser, tais as minhas recorda\u00e7\u00f5es de tran\u00e7a. Talvez nem eu tenha sido uma delas, de magnitude inocente e pulos de corda. Mas s\u00e3o essas que hoje prego, estranhamente\u2026 Prego em meus pain\u00e9is de contar hist\u00f3rias de mim para mim mesma.<\/p>\n<p>Talvez a inf\u00e2ncia, da minha a esta que agora observo, do ontem ao hoje, tenha ultrapassado as f\u00e1bulas farsescas e voado muito al\u00e9m, pisando c\u00e9us e infernos a n\u00fameros mancos, em desequil\u00edbrio e p\u00e9s impares: Amarelinha. Talvez a minha inf\u00e2ncia tenha sido mais ad\u00faltera do que essas perversas que hoje condeno: talvez a minha inf\u00e2ncia as tenha desenhado em percurso, nos quadrados abismos de saltar Amarelinha. Minha inf\u00e2ncia, talvez, tenha assaltado a inoc\u00eancia dessas inf\u00e2ncias de hoje, poupando-as de escolher c\u00e9us ou infernos. Trazendo-os de mesmo quadrante, homogeneizados de ch\u00e3o duro e concreto das Amarelinhas. Essas inf\u00e2ncias virtuais\u2026<\/p>\n<p>E, de repente, da menina adulterada, hoje, pela compreens\u00e3o triste de que amarelinhas s\u00e3o c\u00e9us-infernos de mesmo valor, e antes, quase livre e de poucos moldes, nasce uma adulta emoldurada \u00e0s faltas de menina. Sinto falta da menina, mesmo adulterada. Mesmo adulteradas, eu e a menina e todas as inf\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o falta-me hoje, o que um dia tentei esconder, camuflado a sobreposi\u00e7\u00f5es de cantigas. Temia, t\u00edmida, a exposi\u00e7\u00e3o das minhas caras cores essenciais, aquelas que, vez ou outra, escapavam em vestidos verde-\u00e1gua, rosas-azuis e bot\u00f5es vermelhos. Faltam-me hoje, e me calam fundo.<\/p>\n<p>No fundo, falta-me, ao corpo crescido, elos de liga\u00e7\u00e3o entre as mem\u00f3rias, os vestidos verde-\u00e1gua-rosas-azuis e as amarelinhas. Talvez seja a falta das cores\u2026<\/p>\n<p>Faltam conclus\u00f5es e, se \u00e9 delas que adv\u00e9m a tal satisfa\u00e7\u00e3o, carrego fra\u00e7\u00f5es passivas em instant\u00e2neos desolados. Isolados, lampejos de um tempo, tal saltos amarelinhas, tal desmanche de membros que, uma perna e outra, vez ou outra, acomete-me o corpo crescido.<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado, n\u00e3o sentia tal desmanche nos tempos de menina. Nem saltando amarelinha sem p\u00e9s \u00edmpares. Era um corpo s\u00f3, \u00fanico. Talvez por falta de reminisc\u00eancias de ontens; que, antes, tudo era hoje\u2026<\/p>\n<p>Recorda\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 divertir de crian\u00e7a, \u00e9 ressentir adulto; de sentir de novo, sofrer de velho, amortecido. Re-sentir, re-passar, re-pensar. Viver de r\u00e9. Todos, r\u00e9us de n\u00f3s mesmos, sob acusa\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias de um corpo s\u00f3, vazio\u2026 Corpo e s\u00f3. Que corpo \u00e9 p\u00f3.<\/p>\n<p>Mas, afinal, quem posso culpar pela solid\u00e3o, crescida assim, nos meus desenhos jogos das amarelinhas de assaltar dist\u00e2ncias? Pensava poder transgredir c\u00e9us a infernos e o vice e versa, inc\u00f3lume, pulando de tran\u00e7as, amarelinhas que pareciam t\u00e3o eternas e confi\u00e1veis. Mas que, farsescas, desfizeram-se de cor, e suas linhas n\u00e3o distinguem mais c\u00e9us e infernos, n\u00e3o indicam mais os caminhos de retorno \u00e0s inf\u00e2ncias perdidas, as minhas e daqueles que desenhei e que fazem fruto hoje, nesse jogos de existir, menos fada, em medos de mundo e c\u00e9us-infernos. \u00c9 t\u00e3o s\u00f3lida a dist\u00e2ncia\u2026 E \u00e9 r\u00e9\u2026 Todo um caminho de amarelinhas para construir uma inf\u00e2ncia que sofre, amarela e descolorida, por pular etapas e quadrantes, desavisadamente. Uma inf\u00e2ncia que n\u00e3o sabe mais saltar. Nem sonhar. Tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e3o como lembrar. Lembra? eles n\u00e3o lembrar\u00e3o mais\u2026<\/p>\n<p>Uma ou outra mem\u00f3ria n\u00e3o seria de todo mal. Mas a mente adulta prefere uniformiz\u00e1-las, colecion\u00e1-las r\u00e9s, guardadas, restauradas, repulsivas. R\u00e9s pulsantes. Lembran\u00e7as \u00edmpares, aos pares, amarelinhas, jogos de guerra e toques de recolher.<\/p>\n<p>Teriam sido ensaio \u00e0 guerra, os toques de recolher? Se soubesse, talvez n\u00e3o tivesse brincado pique-esconde; mas se n\u00e3o tivesse brincado, n\u00e3o mais os lembraria e nem teria como, hoje, culpar amarelinhas de c\u00e9u-inferno. Ser\u00e1 que as amarelinhas da inf\u00e2ncia que julgo menina, tenham mesmo desenhado os desalentos adultos e a morte das novas inf\u00e2ncias?<\/p>\n<p>Como pude ser, assim, t\u00e3o infantil e saltar c\u00e9us e infernos de mesmos n\u00fameros? Como pude inventar os jogos de guerra e os dados lan\u00e7ados? Como puder assaltar as inf\u00e2ncias de hoje se era eu a sonh\u00e1-las aos quadrantes e quadrados: 3, 2, 1? Como me faz falta, mais que inf\u00e2ncia a inoc\u00eancia\u2026<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e84649993b78ec9bc1e2390_amarelinha1%20-%20co%CC%81pia%202.png\" \/><\/div>\n<p>E, assim, encolhida nesses descontentamentos amadurecidos, acolhendo uma e outra mem\u00f3ria, saltando tempo em tempo, par e \u00edmpar, c\u00e9u e inferno, meio corpo e meio p\u00f3, observo esses farsescos contentamentos infantis. Vejo crian\u00e7as marionetes e seus jogos de fingir ser crian\u00e7a, farsa, porque j\u00e1 n\u00e3o mais divertem de amarelinha, mas aprendem cedo o n\u00famero de saltos ida-volta ao inferno e a desist\u00eancia do c\u00e9u. N\u00e3o andam mais o concreto da rua suja, mas protegem-se coloridos em algum ventre que n\u00e3o nasce de m\u00e3e.<\/p>\n<p>Qual minha raz\u00e3o de observ\u00e1-los assim, cruelmente nus em inoc\u00eancias? Teimo em concili\u00e1-los \u00e0s lembran\u00e7as infantis. Temo a eterna inconclus\u00e3o de mem\u00f3rias. O que roubei de mim mesma, afinal, que n\u00e3o me deixa escolher toler\u00e2ncia quanto ao tempo e as inf\u00e2ncias? Tempo que se preze faz-se prazo! Mem\u00f3ria assim o deveria; mas bastam as reflex\u00f5es, r\u00e9s, retroativas, para esquecer-me da validade do futuro e perder-me do que o tornar\u00e1 memor\u00e1vel, ou, ao menos toler\u00e1vel. O que o tornar\u00e1? Retornar\u00e1, o futuro, ileso ao que tentou faz\u00ea-lo esquecido?<\/p>\n<p>&#8220;Menina, o tempo volta por si s\u00f3. N\u00e3o revolta, n\u00e3o foi a inf\u00e2ncia a escrever amarelinhas, c\u00e9us ou infernos, a inf\u00e2ncia s\u00f3 os caminha\u2026 Ontem, hoje e sempre, marionete ou marionete, tran\u00e7as ou cordas, c\u00e9us e infernos\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, talvez n\u00e3o seja culpa minha, o ressuscitar das lembran\u00e7as. Talvez o nascer-morrer das inf\u00e2ncias seja curso natural, um recurso \u00e0 prostra\u00e7\u00e3o, intr\u00ednseca ao humano, de nascer de r\u00e9 como soma dos passados, de andar r\u00e9, sempre aos contras, e morrer de restos, deixando \u00a0tantas d\u00edvidas e d\u00favidas de tempos remotos e vindouros. S\u00f3 para renascer assim, novamente r\u00e9. Retroativa e retroprojetada.<\/p>\n<p>Essa a inf\u00e2ncia, e n\u00e3o pode culpar o tempo, que n\u00e3o promete nada a ningu\u00e9m e deixa clara sua falta de inten\u00e7\u00e3o em atender expectativas a conclus\u00f5es de hist\u00f3ria. O tempo s\u00f3 passa. Ponto passivo; e inexiste, exceto \u00e0s voltas de ponteiro, circulares e repetitivas. Ponteiro passivo!<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode culpar o tempo pelo que acaba ou se repete, pelo que perpetua ou n\u00e3o se recupera\u2026 N\u00e3o se pode culpar o tempo pelas mem\u00f3rias. N\u00e3o se pode ocupar o tempo de mem\u00f3rias. N\u00e3o hoje, em que as inf\u00e2ncias s\u00e3o instant\u00e2neas e o passado, instant\u00e2neos de se criar pontos infinais.<\/p>\n<p>Qual a moral da hist\u00f3ria, em contar o tempo? Qual a moral da Hist\u00f3ria, em decantar o tempo? Transformar o c\u00e9u em inferno, amarelinha em inf\u00e2ncia, inf\u00e2ncia em quadrados de \u00edmpar e desequil\u00edbrio? E porque me conto dessa inf\u00e2ncia que n\u00e3o sei ao certo, mas que me <em>sembrava<\/em> tran\u00e7as? E vejo, hoje, essa outra que deveria contar igual, mas sufoca de cordas\u2026 Assombra.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 medo da morte?<\/p>\n<p>&#8220;Acorda do sonho menina! \u00a0\u00c9 inferno: 1, 3, 5, 7, 9. Salta! &#8221;<\/p>\n<p>E por que n\u00e3o salto?<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e8465d887cb5c82c35a7188_amarelinha1%20png.png\" \/><\/div>\n<p>&#8220;Salta lembran\u00e7as e cai no futuro, olha \u00a0a inf\u00e2ncia de l\u00e1! Amarelinha!&#8221;<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o vejo? Ser\u00e1 medo da sorte?<\/p>\n<p>Sorte e morte, em letras g\u00eameas, \u00edmpares pelo desequil\u00edbrio que acalentam: irrevers\u00edveis. Inconclusivas e inexplic\u00e1veis.<\/p>\n<p>Talvez por isso construa hist\u00f3rias sobre as mem\u00f3rias e tente definir e distanciar inf\u00e2ncias, a sempre minha, ontem, e hoje, imune ao tempo que nem h\u00e1, saltando mem\u00f3rias a p\u00e9s \u00edmpares, em c\u00e9us que n\u00e3o se sabe se infernos, ou at\u00e9 quando.<\/p>\n<p>Talvez por isso, medo de sorte ou medo de morte. Um jogo-letras de fazer rir e chorar, que nunca me sei, ainda hoje, como ontem, se crian\u00e7a ou adulto, se uma misto de dois, se c\u00e9u ou inferno.<\/p>\n<p>Talvez por isso observo a inf\u00e2ncia, de perto e longe, em intermin\u00e1veis associa\u00e7\u00f5es, culpas, cantigas-desculpas e testamentos. E vejo, crian\u00e7a e n\u00e3o, saltando c\u00e9u a inferno, \u00a0esse adultos e seus jogos de guerra, seus bonecos paral\u00edticos e suas marionetes. S\u00e3o s\u00f3 crian\u00e7as, como eu, disfar\u00e7adas de corpo em p\u00f3. Desenhando, tal se fazia amarelinha, sorte e morte, lan\u00e7ando dados e jogando letras de brincar.<\/p>\n<p>S\u00e3o s\u00f3 crian\u00e7as, adulteradas como eu, que aprenderam a contar hist\u00f3rias, ouvindo hist\u00f3rias; e hoje as escrevem, de seu papel, como eu, em meu papel, por vezes indeciso, de retornar \u00e0s lembran\u00e7as que n\u00e3o dizem de tempo para reescrev\u00ea-las, exerc\u00edcio e exorcismo.<\/p>\n<p>Apenas crian\u00e7as, de seus papeis irrevers\u00edveis, r\u00e9s e testemunhas de um tempo testamento, que n\u00e3o se repete: \u00e9 sempre o mesmo.<\/p>\n<div><\/div>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro uma inf\u00e2ncia vagarosa, em que cabem dias de brinquedos e jogos in\u00fameros. Larga, pelo amplo espa\u00e7o percorrido, onde anos contam nada, exceto hist\u00f3rias e gibis. Tudo coube nessa inf\u00e2ncia, at\u00e9 recorda\u00e7\u00f5es fantasiosas. Coube gente de lembrar, gente de esquecer, gente de continuar. Quanta coisa&#8230; E foi vendo, assim, esses jogos digitais de fazer guerra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2125,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"<h4>Lembro uma inf\u00e2ncia vagarosa, em que cabem dias de brinquedos e jogos in\u00fameros. Larga, pelo amplo espa\u00e7o percorrido, onde anos contam nada, exceto hist\u00f3rias e gibis. Tudo coube nessa inf\u00e2ncia, at\u00e9 recorda\u00e7\u00f5es fantasiosas. Coube gente de lembrar, gente de esquecer, gente de continuar. Quanta coisa...\t<br><\/h4><h4>E foi vendo, assim, esses jogos digitais de fazer guerra e as crian\u00e7as marionetes, j\u00e1 contaminadas de olhar perverso, j\u00e1 contaminada de olhar perverso, que me dei conta que n\u00e3o existo mais menina. Me dei conta de que n\u00e3o existem mais meninas; n\u00e3o como deveriam ser, tais as minhas recorda\u00e7\u00f5es de tran\u00e7a. Talvez nem eu tenha sido uma delas, de magnitude inocente e pulos de corda. Mas s\u00e3o essas que hoje prego, estranhamente\u2026 Prego em meus pain\u00e9is de contar hist\u00f3rias de mim para mim mesma.\t<\/h4><h4>Talvez a inf\u00e2ncia, da minha a esta que agora observo, do ontem ao hoje, tenha ultrapassado as f\u00e1bulas farsescas e voado muito al\u00e9m, pisando c\u00e9us e infernos a n\u00fameros mancos, em desequil\u00edbrio e p\u00e9s impares: Amarelinha. Talvez a minha inf\u00e2ncia tenha sido mais ad\u00faltera do que essas perversas que hoje condeno: talvez a minha inf\u00e2ncia as tenha desenhado em percurso, nos quadrados abismos de saltar Amarelinha. Minha inf\u00e2ncia, talvez, tenha assaltado a inoc\u00eancia dessas inf\u00e2ncias de hoje, poupando-as de escolher c\u00e9us ou infernos. Trazendo-os de mesmo quadrante, homogeneizados de ch\u00e3o duro e concreto das Amarelinhas. Essas inf\u00e2ncias virtuais\u2026 <br><\/h4><h4>E, de repente, da menina adulterada, hoje, pela compreens\u00e3o triste de que amarelinhas s\u00e3o c\u00e9us-infernos de mesmo valor, e antes, quase livre e de poucos moldes, nasce uma adulta emoldurada \u00e0s faltas de menina. Sinto falta da menina, mesmo adulterada. Mesmo adulteradas, eu e a menina e todas as inf\u00e2ncias. \t<\/h4><h4>Ent\u00e3o falta-me hoje, o que um dia tentei esconder, camuflado a sobreposi\u00e7\u00f5es de cantigas. Temia, t\u00edmida, a exposi\u00e7\u00e3o das minhas caras cores essenciais, aquelas que, vez ou outra, escapavam em vestidos verde-\u00e1gua, rosas-azuis e bot\u00f5es vermelhos. Faltam-me hoje, e me calam fundo. <\/h4><h4>No fundo, falta-me, ao corpo crescido, elos de liga\u00e7\u00e3o entre as mem\u00f3rias, os vestidos verde-\u00e1gua-rosas-azuis e as amarelinhas. Talvez seja a falta das cores\u2026 <\/h4><h4>Faltam conclus\u00f5es e, se \u00e9 delas que adv\u00e9m a tal satisfa\u00e7\u00e3o, carrego fra\u00e7\u00f5es passivas em instant\u00e2neos desolados. Isolados, lampejos de um tempo, tal saltos amarelinhas, tal desmanche de membros que, uma perna e outra, vez ou outra, acomete-me o corpo crescido. <\/h4><h4>Engra\u00e7ado, n\u00e3o sentia tal desmanche nos tempos de menina. Nem saltando amarelinha sem p\u00e9s \u00edmpares. Era um corpo s\u00f3, \u00fanico. Talvez por falta de reminisc\u00eancias de ontens; que, antes, tudo era hoje\u2026 <\/h4><h4>Recorda\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 divertir de crian\u00e7a, \u00e9 ressentir adulto; de sentir de novo, sofrer de velho, amortecido. Re-sentir, re-passar, re-pensar. Viver de r\u00e9. Todos, r\u00e9us de n\u00f3s mesmos, sob acusa\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias de um corpo s\u00f3, vazio\u2026 Corpo e s\u00f3. Que corpo \u00e9 p\u00f3.\t<\/h4><h4>Mas, afinal, quem posso culpar pela solid\u00e3o, crescida assim, nos meus desenhos jogos das amarelinhas de assaltar dist\u00e2ncias? Pensava poder transgredir c\u00e9us a infernos e o vice e versa, inc\u00f3lume, pulando de tran\u00e7as, amarelinhas que pareciam t\u00e3o eternas e confi\u00e1veis. Mas que, farsescas, desfizeram-se de cor, e suas linhas n\u00e3o distinguem mais c\u00e9us e infernos, n\u00e3o indicam mais os caminhos de retorno \u00e0s inf\u00e2ncias perdidas, as minhas e daqueles que desenhei e que fazem fruto hoje, nesse jogos de existir, menos fada, em medos de mundo e c\u00e9us-infernos. \u00c9 t\u00e3o s\u00f3lida a dist\u00e2ncia\u2026 E \u00e9 r\u00e9\u2026 Todo um caminho de amarelinhas para construir uma inf\u00e2ncia que sofre, amarela e descolorida, por pular etapas e quadrantes, desavisadamente. Uma inf\u00e2ncia que n\u00e3o sabe mais saltar. Nem sonhar. Tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e3o como lembrar. Lembra? eles n\u00e3o lembrar\u00e3o mais\u2026\t<br><\/h4><h4>Uma ou outra mem\u00f3ria n\u00e3o seria de todo mal. Mas a mente adulta prefere uniformiz\u00e1-las, colecion\u00e1-las r\u00e9s, guardadas, restauradas, repulsivas. R\u00e9s pulsantes. Lembran\u00e7as \u00edmpares, aos pares, amarelinhas, jogos de guerra e toques de recolher.\t<\/h4><h4>Teriam sido ensaio \u00e0 guerra, os toques de recolher? Se soubesse, talvez n\u00e3o tivesse brincado pique-esconde; mas se n\u00e3o tivesse brincado, n\u00e3o mais os lembraria e nem teria como, hoje, culpar amarelinhas de c\u00e9u-inferno. Ser\u00e1 que as amarelinhas da inf\u00e2ncia que julgo menina, tenham mesmo desenhado os desalentos adultos e a morte das novas inf\u00e2ncias? <\/h4><h4>Como pude ser, assim, t\u00e3o infantil e saltar c\u00e9us e infernos de mesmos n\u00fameros? Como pude inventar os jogos de guerra e os dados lan\u00e7ados? Como puder assaltar as inf\u00e2ncias de hoje se era eu a sonh\u00e1-las aos quadrantes e quadrados: 3, 2, 1? Como me faz falta, mais que inf\u00e2ncia a inoc\u00eancia\u2026 <\/h4><figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-normal\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"normal\"><div><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e84649993b78ec9bc1e2390_amarelinha1%20-%20co%CC%81pia%202.png\"><\/div><\/figure><h4>E, assim, encolhida nesses descontentamentos amadurecidos, acolhendo uma e outra mem\u00f3ria, saltando tempo em tempo, par e \u00edmpar, c\u00e9u e inferno, meio corpo e meio p\u00f3, observo esses farsescos contentamentos infantis. Vejo crian\u00e7as marionetes e seus jogos de fingir ser crian\u00e7a, farsa, porque j\u00e1 n\u00e3o mais divertem de amarelinha, mas aprendem cedo o n\u00famero de saltos ida-volta ao inferno e a desist\u00eancia do c\u00e9u. N\u00e3o andam mais o concreto da rua suja, mas protegem-se coloridos em algum ventre que n\u00e3o nasce de m\u00e3e. <br><\/h4><h4>Qual minha raz\u00e3o de observ\u00e1-los assim, cruelmente nus em inoc\u00eancias? Teimo em concili\u00e1-los \u00e0s lembran\u00e7as infantis. Temo a eterna inconclus\u00e3o de mem\u00f3rias. O que roubei de mim mesma, afinal, que n\u00e3o me deixa escolher toler\u00e2ncia quanto ao tempo e as inf\u00e2ncias? Tempo que se preze faz-se prazo! Mem\u00f3ria assim o deveria; mas bastam as reflex\u00f5es, r\u00e9s, retroativas, para esquecer-me da validade do futuro e perder-me do que o tornar\u00e1 memor\u00e1vel, ou, ao menos toler\u00e1vel. O que o tornar\u00e1? Retornar\u00e1, o futuro, ileso ao que tentou faz\u00ea-lo esquecido? <br><\/h4><h4>\"Menina, o tempo volta por si s\u00f3. N\u00e3o revolta, n\u00e3o foi a inf\u00e2ncia a escrever amarelinhas, c\u00e9us ou infernos, a inf\u00e2ncia s\u00f3 os caminha\u2026 Ontem, hoje e sempre, marionete ou marionete, tran\u00e7as ou cordas, c\u00e9us e infernos\u2026\" <br><\/h4><h4>Ent\u00e3o, talvez n\u00e3o seja culpa minha, o ressuscitar das lembran\u00e7as. Talvez o nascer-morrer das inf\u00e2ncias seja curso natural, um recurso \u00e0 prostra\u00e7\u00e3o, intr\u00ednseca ao humano, de nascer de r\u00e9 como soma dos passados, de andar r\u00e9, sempre aos contras, e morrer de restos, deixando &nbsp;tantas d\u00edvidas e d\u00favidas de tempos remotos e vindouros. S\u00f3 para renascer assim, novamente r\u00e9. Retroativa e retroprojetada. <br><\/h4><h4>Essa a inf\u00e2ncia, e n\u00e3o pode culpar o tempo, que n\u00e3o promete nada a ningu\u00e9m e deixa clara sua falta de inten\u00e7\u00e3o em atender expectativas a conclus\u00f5es de hist\u00f3ria. O tempo s\u00f3 passa. Ponto passivo; e inexiste, exceto \u00e0s voltas de ponteiro, circulares e repetitivas. Ponteiro passivo! <\/h4><h4>N\u00e3o se pode culpar o tempo pelo que acaba ou se repete, pelo que perpetua ou n\u00e3o se recupera\u2026 N\u00e3o se pode culpar o tempo pelas mem\u00f3rias. N\u00e3o se pode ocupar o tempo de mem\u00f3rias. N\u00e3o hoje, em que as inf\u00e2ncias s\u00e3o instant\u00e2neas e o passado, instant\u00e2neos de se criar pontos infinais. <\/h4><h4>Qual a moral da hist\u00f3ria, em contar o tempo? Qual a moral da Hist\u00f3ria, em decantar o tempo? Transformar o c\u00e9u em inferno, amarelinha em inf\u00e2ncia, inf\u00e2ncia em quadrados de \u00edmpar e desequil\u00edbrio? E porque me conto dessa inf\u00e2ncia que n\u00e3o sei ao certo, mas que me <em>sembrava<\/em> tran\u00e7as? E vejo, hoje, essa outra que deveria contar igual, mas sufoca de cordas\u2026 Assombra.<\/h4><h4>Ser\u00e1 medo da morte? <br><\/h4><h4>\"Acorda do sonho menina! &nbsp;\u00c9 inferno: 1, 3, 5, 7, 9. Salta! \"<\/h4><h4>E por que n\u00e3o salto? <\/h4><figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-normal\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"normal\"><div><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e8465d887cb5c82c35a7188_amarelinha1%20png.png\"><\/div><\/figure><p><br><\/p><h4>\"Salta lembran\u00e7as e cai no futuro, olha &nbsp;a inf\u00e2ncia de l\u00e1! Amarelinha!\"<\/h4><h4>Por que n\u00e3o vejo? Ser\u00e1 medo da sorte?\t<br><\/h4><h4>Sorte e morte, em letras g\u00eameas, \u00edmpares pelo desequil\u00edbrio que acalentam: irrevers\u00edveis. Inconclusivas e inexplic\u00e1veis. <\/h4><h4>Talvez por isso construa hist\u00f3rias sobre as mem\u00f3rias e tente definir e distanciar inf\u00e2ncias, a sempre minha, ontem, e hoje, imune ao tempo que nem h\u00e1, saltando mem\u00f3rias a p\u00e9s \u00edmpares, em c\u00e9us que n\u00e3o se sabe se infernos, ou at\u00e9 quando. <\/h4><h4>Talvez por isso, medo de sorte ou medo de morte. Um jogo-letras de fazer rir e chorar, que nunca me sei, ainda hoje, como ontem, se crian\u00e7a ou adulto, se uma misto de dois, se c\u00e9u ou inferno. <\/h4><h4>Talvez por isso observo a inf\u00e2ncia, de perto e longe, em intermin\u00e1veis associa\u00e7\u00f5es, culpas, cantigas-desculpas e testamentos. E vejo, crian\u00e7a e n\u00e3o, saltando c\u00e9u a inferno, &nbsp;esse adultos e seus jogos de guerra, seus bonecos paral\u00edticos e suas marionetes. S\u00e3o s\u00f3 crian\u00e7as, como eu, disfar\u00e7adas de corpo em p\u00f3. Desenhando, tal se fazia amarelinha, sorte e morte, lan\u00e7ando dados e jogando letras de brincar. <\/h4><h4>S\u00e3o s\u00f3 crian\u00e7as, adulteradas como eu, que aprenderam a contar hist\u00f3rias, ouvindo hist\u00f3rias; e hoje as escrevem, de seu papel, como eu, em meu papel, por vezes indeciso, de retornar \u00e0s lembran\u00e7as que n\u00e3o dizem de tempo para reescrev\u00ea-las, exerc\u00edcio e exorcismo. <\/h4><h4>Apenas crian\u00e7as, de seus papeis irrevers\u00edveis, r\u00e9s e testemunhas de um tempo testamento, que n\u00e3o se repete: \u00e9 sempre o mesmo.<\/h4><figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width:800px\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"800px\"><div><img src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e8464fc93b78ece001e648d_amarelinha1%20-%20co%CC%81pia.png\"><\/div><\/figure><p><br><\/p><p><br><\/p><p>\u200d<\/p>","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1566","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-anima_in_cronica"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1566"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1566\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2125"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}