{"id":1564,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/senzala\/"},"modified":"2022-08-27T17:55:02","modified_gmt":"2022-08-27T20:55:02","slug":"senzala","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/senzala\/","title":{"rendered":"Senzala"},"content":{"rendered":"<p>Camisa branca de contrastes. Engomada \u00e0 m\u00e3o de m\u00e3e. Lambuzada de m\u00e3e melosa e cuidados de exagero. Cal\u00e7a do melhor cinto e sapato emprestado de pai. P\u00e9s de festa, marrom escuros, engraxados de v\u00e9spera, com a ajuda do irm\u00e3o mais novo. V\u00e9spera marrom-escura, de um tanto de temor e outros tantos pesadelos.<\/p>\n<p>Primeira entrevista. Soava interrogat\u00f3rio. Suava, sem repostas, desmanche salgado . Mas colo de m\u00e3e n\u00e3o era de v\u00e9spera; sempre amparo, sempre quente; encorajando-o a novos passos. As esperan\u00e7as de recorte de jornal procuravam candidatos: ca\u00e7ado.<\/p>\n<p>O rapaz, apreensivo aprendiz, sabia que qualquer perseveran\u00e7a lhe despertaria algo de bom . Semente de vit\u00f3ria resguardada. Quem sabe, estrela? Tal os jogadores de futebol, milion\u00e1rias descobertas. Talvez ele tamb\u00e9m tivesse um talento inato. S\u00f3 n\u00e3o tinha certeza se era esse do jornal. Rotulado a classificados. Auxiliar, pedreiro, vendedor, pizzaiolo&#8230; Qual seria seu talento?<\/p>\n<p>Existe talento de doutor, mas esse n\u00e3o ia dar mesmo&#8230; Varredor ou gari n\u00e3o tinha gra\u00e7a, nem precisava ler para ter esse talento. N\u00e3o valia a pena. No final, escolheu o dom de vendedor. Meio incerto, mas a escolha n\u00e3o o deixaria sem dom.<\/p>\n<p>As letras do an\u00fancio pediam boa apar\u00eancia, segundo grau completo, vontade de vencer. A boa apar\u00eancia foi por conta da m\u00e3e; j\u00e1 a escolaridade e vontade de vencer, eram incontest\u00e1veis. Era bom de jogo, artilheiro do time do bairro. Ent\u00e3o ningu\u00e9m podia falar que nunca sentira sabor de vit\u00f3ria. As gl\u00f3rias t\u00eam apetites semelhantes. Embora beirasse, agora, patamar diferente; afinal, tratava-se de sua carreira, sua profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>A m\u00e3e, dom\u00e9stica, orgulhou-se da atitude do filho. \u201cAo menos estaria procurando servi\u00e7o digno. A vida n\u00e3o era s\u00f3 bater bola e voar papagaio, n\u00e3o\u201d. Sempre fez quest\u00e3o de ensinar \u00e0s suas duas crias, o valor do dinheiro e da boa vontade. Via para seu menino futuro parecido com o do filho da patroa. \u201c Precisava ver as vestes impec\u00e1veis , o cabelo penteado, as gotas de perfume importado; logo, logo Hudson chegava l\u00e1; ah, chegava &#8230; E cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e n\u00e3o se engana\u201d. O menino e todas as expectativas&#8230;<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e69354d1aae15d6c621891f_pussy%20e28%20-%20co%CC%81pia%202.png\" \/><\/div>\n<p>O pai, gari, gostou da id\u00e9ia do filho, exceto pela goma da camisa e gotas de perfume barato emprestado. Ajuda no or\u00e7amento era bem vinda. Mas, que inferno a mulher tinha que incentivar o moleque a andar fantasiado? Exagero era de mundo de engravatado. Roupa de trabalho tinha que ser surrada mesmo. Perfume era coisa de fresco. Talvez para vender fosse diferente; mas trabalho que o pai conhecia, n\u00e3o tinha luxo n\u00e3o.<\/p>\n<p>Em sua estupefa\u00e7\u00e3o contemplativa, a m\u00e3e nem ligava. Hudson estava lindo! Que ele n\u00e3o ligasse para o pai lixeiro; quem mexia com lixo ficava daquele jeito. Hudson que fosse fazer coisa mais interessante&#8230;<\/p>\n<p>A\u00ed come\u00e7avam as discuss\u00f5es e trocas de ofensa. E a mulher, que estava gorda feito porca? Tanto comer ra\u00e7\u00e3o de rico! E pior, imitava trejeito de madame, vestida com trapo de ch\u00e3o. Logo, logo virava esfreg\u00e3o, e daqueles tamanho jumbo. E o gari finalizava dizendo que rico era bicho de outra esp\u00e9cie, n\u00e3o adiantava se fingir de igual n\u00e3o. Revides e ataques; e a ansiedade de Hudson, flamejante.<\/p>\n<p>Faltava pouco para a entrevista. Hora marcada: dez da manh\u00e3. Tomou seu caf\u00e9leitep\u00e3omanteiga; ajeitou cabelo ruim, engoliu pasta de dente. Saiu logo depois do pai alaranjado de uniforme, que apesar do mau humor, desejou-lhe boa sorte. A m\u00e3e, t\u00e3o gorda de aconchego, deu-lhe o \u00faltimo abra\u00e7o. Um abra\u00e7o em seu doutor. O poss\u00edvel filho pr\u00f3digo, recompensa concreta a seus anos dedicados. O irm\u00e3o mais novo ainda dormia. Deixou-lhe carinhos telep\u00e1ticos, dividindo as excessivas un\u00e7\u00f5es de m\u00e3e generosa.<\/p>\n<p>Carteira de identidade, passe de \u00f4nibus, duas ou tr\u00eas balas \u00e0 tira colo, len\u00e7o para limpar as lentes dos \u00f3culos. Ver melhor uma realidade que n\u00e3o conhecia: trabalho urbano.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus demorou a passar. Recortes de mem\u00f3ria para matar o tempo. Recortes de jornal para morrer qualquer coisa. Qual era mesmo a sua voca\u00e7\u00e3o? Ah, sim; vendedor de aparelhos ortop\u00e9dicos, das oito \u00e0s dezoito, e sal\u00e1rio de trezentos.<\/p>\n<p>No letreiro a caminho: \u201cVila Formosa\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o era seu destino. Nem seu, nem dos aparelhos ortop\u00e9dicos, nem dos milh\u00f5es de desempregados. Qual o seu dom? Todo mundo tem&#8230; At\u00e9 que jogava uma boa bola &#8230;<\/p>\n<p>Letreiro: \u201cMandaqui\u201d. Nem esse era seu destino. Seu destino de aparelhos ortop\u00e9dicos. Artilheiro, Hudson, do S\u00e3o Paulo Futebol Clube. \u00c0s vezes ouvia arquibancadas em ova\u00e7\u00e3o, mais vibrantes que o cora\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. Ouvia em seu walkman barato de camel\u00f4, do natal passado. Bastava trocar as pilhas e trilha sonora para confeccionar novo sonho de menino. Tornava-se mito futebol\u00edstico, criado a horas de pelada de bairro, treinado a falsas ilus\u00f5es de periferia.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e69341a2a370729ab51b1ef_pussy%20e23%20-%20co%CC%81pia.png\" \/><\/div>\n<p>\u201cD. Jo\u00e3o VI\u201d. Chegou seu destino, antes mesmo que se decidisse entre o dom da bola e os aparelhos ortop\u00e9dicos. Sabia que est\u00e1dio era coisa de televis\u00e3o e fen\u00f4menos esportivos, idolatria descart\u00e1vel. Ele mesmo dizia que bom de bola, tinha de penca . Mas l\u00e1 dentro, tensionava, pulsante, qualquer m\u00fasculo de desejo. Qualquer Hudson her\u00f3i.<\/p>\n<p>Naquele dia, quis ser s\u00f3 vendedor; s\u00f3 leria em letras de jornal. Classificados. A imagem da m\u00e3e e seu avental pintado a caf\u00e9 e faltas na dispensa. Garfo de modos primatas do pai, \u00e0 mesa de etiquetas coladas de patroa. O sapato engraxado a dedos de irm\u00e3o ca\u00e7ula. Naquele dia era todas as expectativas das pessoas na ed\u00edcula de endere\u00e7o errado. Era s\u00f3 vendedor.<\/p>\n<p>O caminho foi curto, quinze minutos. S\u00e3o Paulo do centro. No recorte: Rua Xavier de Toledo, 363. Dois ou tr\u00eas far\u00f3is dali, a passos nem t\u00e3o largos. Estava adiantado. Orgulhoso de si. N\u00e3o era Hudson do gramado, mas ingressaria no mercado de trabalho. Passou por vitrine; viu-se espelhado. O pai devia estar no orgulho. Olha s\u00f3 a camisa! A m\u00e3e tinha raz\u00e3o, parecia doutor. Prometeu para si mesmo; com o primeiro sal\u00e1rio compraria uma pasta, s\u00f3 para ir se acostumando. N\u00e3o que gostasse de sair gastando por a\u00ed; mas a pasta seria \u00edcone, inaugurando nova vida.<\/p>\n<p>Lentes de \u00f3culos emba\u00e7adas. Sorte ter trazido flanela no bolso. Sinal de pedestres piscando de vermelho. Pensou que o tempo fosse suficiente. Foi impreciso nos passos, e mesmo correndo, precisou recuar. Derrubou os \u00f3culos de anivers\u00e1rio passado. Mal p\u00f4de tentar recuper\u00e1-lo; e os carros, liberados de sem\u00e1foro verde, avan\u00e7aram. Deixou os \u00f3culos de cacos, mortos de desapontamento na faixa de pedestres.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e69349b574d253c5eea18ca_pussy%20e28.png\" \/><\/div>\n<p>Foi um carro caro, desse de gr\u00e3-finos e patroas. Branco, nem de t\u00e1xi, nem de ambul\u00e2ncia. Branco emerg\u00eancia. Emergente da sujeira. A quatro rodas, dois bra\u00e7os e duas pernas. Asfixiante, destruidor. Um carro, de portas e janelas, de pre\u00e7o maior que de ed\u00edcula; e assento de couro. Do mesmo couro da pasta \u00edcone de Hudson. S\u00f3 que couro de Hudson n\u00e3o \u00e9 legitimo; s\u00f3 assento de couro de carro branco. Assinta: nem o cinto nem o sapato. Sinto muito &#8230;<\/p>\n<p>Foi a buzina. Voz de palavras claras, soletradas da arquibancada lotada, em ecos; contaminado at\u00e9 o walkman de natal de Hudson menino:<\/p>\n<p>&#8211; \u201c Volta pra senzala , preto filho da puta! N\u00e3o enxerga nem farol?\u201d<\/p>\n<p>S\u00f3 isso, e o res\u00edduo t\u00f3xico do escapamento \u00e0 distancia. A quil\u00f4metros, Hudson, a arquibancada vazia, os \u00f3culos quebrados de realidade. Tudo na faixa de pedestres, na cara de pedestres.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e69357f1289a6a60a0026d8_pussy%20e28%20-%20co%CC%81pia.png\" \/><\/div>\n<p>Ningu\u00e9m notou. Finge-se muito bem. Talvez todos tivessem concordado com o branco escarro. O carro de couro leg\u00edtimo. Talvez s\u00f3 Hudson n\u00e3o pertencesse ao mundo colorido. Verde, vermelho, amarelo. At\u00e9 esqueceu-se das lentes. Melhor ver emba\u00e7ado, com olhos de m\u00e3e e pai gari. Melhor n\u00e3o ver cores.<\/p>\n<p>Decidiu voltar \u00e0 ed\u00edcula, envergonhado da blusa alva, dos filhos da patroa, dos p\u00e9s engraxados. Doutorzinho de piche&#8230;<\/p>\n<p>Virou costas aos far\u00f3is, \u00e0 faixa in\u00fatil de pedestres, \u00e0s faces imparciais, aos cacos de vista. Tomou seu destino, a qualquer letreiro. Destino de volta: Senzala. De onde nunca deveria ter sa\u00eddo.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e69343e88ff9fe0e80e17aa_pussy%20e23.png\" \/><\/div>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camisa branca de contrastes. Engomada \u00e0 m\u00e3o de m\u00e3e. 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