{"id":1562,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/unidunite\/"},"modified":"2022-08-27T17:53:49","modified_gmt":"2022-08-27T20:53:49","slug":"unidunite","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/unidunite\/","title":{"rendered":"Unidunit\u00ea"},"content":{"rendered":"<p>Ouvi a m\u00fasica que tocava cores na minha inf\u00e2ncia e falava em notas aquarelas. Os quadros de uma inoc\u00eancia que n\u00e3o uso mais nas parede: desmoronados.<\/p>\n<p>A m\u00fasica era uma nova vers\u00e3o, uma releitura dos antigos sonhos, em outras vozes; que as crian\u00e7as cantoras da minha can\u00e7\u00e3o, a original, cresceram. Adultizaram-se, adulteraram-se. Talvez nem lembrem mais das palavras que ensinavam, ainda que sob o mandato de contrato assinado de alguma gravadora. Talvez, j\u00e1 daqueles dias, exercessem as leis do trabalho for\u00e7ado; talvez j\u00e1 fossem adultos, e o que lhes valia era poupan\u00e7a e cach\u00ea, e quase nada a aquarela. Mesmo assim, duvido n\u00e3o terem emocionado-se desse ou aquele significado de cantar cores. Duvido\u2026 Afinal, eram os porta-vozes de tantas e tantas crian\u00e7as. Unidunit\u00ea: e todas as vozes de m\u00e3os dadas, correndo cantos, esconde-esconde, jogos de bola. Todos somos crian\u00e7as.<\/p>\n<p>E a m\u00fasica regrava\u00e7\u00e3o, nova coreografia e rostos meninos desconhecidos&#8230; a m\u00fasica despertou-me um n\u00f3 de garganta. A mesma garganta que, antes livre, soltava versos de salam\u00ea-mingue, express\u00f5es inventadas e gritos de alerta.<\/p>\n<p>\u201cAlerta!\u201d. E l\u00e1 vinha outra brincadeira de manipular o tempo veloz; distra\u00ed-lo enquanto aproveitava-se dias meninos. Juro: pensava que jamais passariam.<\/p>\n<p>E aquele quadro que at\u00e9 outra hora ocupava a parede do quarto? O quadro da menina-bailarina, feito de mesma aquarela da can\u00e7\u00e3o e de peda\u00e7o de madeira improvisada\u2026 Aquele quadro, aonde foi parar? At\u00e9 dif\u00edcil imaginar-me as m\u00e3os, essas mesmas de enfiar em bolsos\u2026 essas m\u00e3os, artistas criaram o quadro bailarina. Parece imposs\u00edvel que m\u00e3os de agora guardar em bolso, grudadas a notas de comprar quaisquer, essas m\u00e3os j\u00e1 pintaram-dan\u00e7aram p\u00e9s-bailarina.<\/p>\n<p>Ah, as notas de hoje comprar quaisquer\u2026 A bem lembrar, tamb\u00e9m passei uma inf\u00e2ncia de notas, amarrada aos boletins: uma r\u00e9, em chamada oral. Contraventora. Talvez seja essa a fun\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias, curriculares, de calend\u00e1rio escolar. Educar um eu contraventor. A inf\u00e2ncia vendida \u00e0s notas: uma figura de linguagem qualquer que justifique o duplo sentido da frase, quando adulta. Quando essa frase crescer, ter\u00e1 o mesmo valor : a idade adulta vendida \u00e0s notas .<\/p>\n<p>Mas que palavra substitui inf\u00e2ncia quando crescida? Idade adulta mesmo? Ou adulterada ou o qu\u00ea? Que ainda tenho as m\u00e3os grudadas a notas de comprar quaisquer\u2026 o que seja. O que s\u00e3o o qu\u00eas, afinal ? Notas de comprar o qu\u00eas? S\u00f3 sei de notas que s\u00e3o todas falsas e n\u00e3o confio em valor que trago no bolso. Ali\u00e1s, que valores trago no bolso? Esqueci ou os perdi no caminho? Esqueci at\u00e9 as m\u00e3os pintoras, essas tinha posto de lado, do lado oposto da minha crian\u00e7a bailarina. Onde mesmo foi parar aquele quadro? S\u00f3 sei de notas, porque confio ouvidos a do, r\u00e9, mi; \u00e0 can\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia unidunit\u00ea. S\u00f3 sei de notas, que notei, bem l\u00e1 aqui dentro, um desenho aprisionado do sorriso de um antes. S\u00f3 sei de notas, que o sorriso era meu e estava amorda\u00e7ado no n\u00f3 da garganta.<\/p>\n<p>Quando da regrava\u00e7\u00e3o da minha can\u00e7\u00e3o inf\u00e2ncia, quando do triste notar as m\u00e3os de bolso, quando das cores aquarelas raptadas, quando do unidunit\u00ea sorrateiro assaltando-me passados\u2026 Enfim, quando do meu dia de crian\u00e7a surpreendendo-me presente, percebi que o tempo transcorrera percurso implac\u00e1vel. Percebi que jogos e bolas e petecas e ritmos contagiantes tinham aberto-me passagem para outro mundo. Tal conto de ninar, prometendo escolhas pr\u00f3prias, destinos a seguir, falando final, feliz ou n\u00e3o. Falando apenas de finais, sem m\u00e9rito condecorativo. Percebi que de todas as brincadeiras que gostava, nenhuma restou: nem corda, el\u00e1stico, barbante ou polichinelo. Passe de m\u00e1gica: e quadrados enumerados amarelinha, no ch\u00e3o, tinham virado simplesmente est\u00fapida polui\u00e7\u00e3o visual e tinta velha. Nem vontades de um p\u00e9 s\u00f3 causavam mais .<\/p>\n<p>C\u00e9us e infernos rabiscados n\u00e3o faziam sentido; j\u00e1 n\u00e3o se vivia a certeza da oposi\u00e7\u00e3o, a vida adulterada era de meio termo, metade boa, metade m\u00e1. Conviv\u00eancia de paradoxos sob uma esp\u00e9cie de resigna\u00e7\u00e3o que crian\u00e7as de aquarela, aquelas que pintam p\u00e9s de bailarina, n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia her\u00f3is que n\u00e3o forjados a marketing sint\u00e9tico; n\u00e3o havia her\u00f3is que n\u00e3o direcionados a inoc\u00eancias infantis que tudo cr\u00eaem. Pr\u00e9 fabricados. Vivo desse mundo em que n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o notar que se cativam inf\u00e2ncias a troco de nota. Pena ter perdido a ingenuidade, e triste fazer parte do time inimigo: adultos de sufocar.<\/p>\n<p>Hoje sou eu a julgar de notas, classificar intelig\u00eancias infantis, a desacreditar de sonhos meus pr\u00f3prios filhos. Eu, a preencher chamada oral como que alistamento militar. Eu ,a ensinar a amarrar os n\u00f3s de garganta.<\/p>\n<p>E um &#8220;sem querer&#8221; unidunit\u00ea, tamb\u00e9m, \u00e9 claro, proposto a marketing de gravadora, premeditado\u2026 Unidunit\u00ea de faturar notas\u2026 Um &#8220;sem querer&#8221; unidunit\u00ea, a quatro vozes meninas, presenteando-me, amargo, meu dia de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Senti-me est\u00fapida: claro que haviam regravado a can\u00e7\u00e3o para comover os ent\u00e3o pais, e faz\u00ea-los cantar cat\u00e1rticos unidunit\u00eas e inf\u00e2ncias esquecidas. Claro que a regrava\u00e7\u00e3o era estratificada para ataque ao mercado alvo. Mas e os tais produtores, os tais gerentes, diretores, arranjadores e toda a corja&#8230; n\u00e3o tinham sido crian\u00e7as ? Como podiam brincar assim com a mem\u00f3ria do tempo veloz; que at\u00e9 ontem prendia parede, meu quarto bailarina? &#8220;N\u00e3o era justo! Estavam roubando! Vou chamar a minha m\u00e3e&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Ouvir aquela m\u00fasica era trazer espectros de mim mesma, figuras encantadas, recortadas da inf\u00e2ncia perdida. Talvez fossem esses os duendes que tanto tentei encontrar: proje\u00e7\u00f5es dos instantes pequeninos, caricaturas do passado colorido. Unidunit\u00ea era chorar os gr\u00e3os de feij\u00e3o percorridos todo esse caminho de olhar para tr\u00e1s, e v\u00ea-los perder-se, sem volta, do ponto inicial.<\/p>\n<p>Unidunit\u00ea era saber que contos de fada nunca mentiram, exceto quando designavam final feliz: nas entrelinhas existe sempre o perverso, c\u00e9us e infernos na mesma amarelinha quadriculada. E se pisa de um p\u00e9 s\u00f3, metaf\u00f3rico, ensaiando-se as faltas de ch\u00e3o do futuro, em que frutos sofrem de veneno, e s\u00e3o os ratos que montam carruagens\u2026 Dorme-se cem anos e quando se acorda\u2026 A corda e o n\u00f3 na garganta. Unidunit\u00ea e j\u00e1 se ouvem outras vozes.<\/p>\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 mais quadro bailarina na parede, e outras crian\u00e7as roubam-me brinquedos e gritam-me de m\u00e3e, e sou eu a ganhar notas julgando-as em notas, em suas fr\u00e1geis intelig\u00eancias infantis e erros de portugu\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, contos de fada jamais mentiram: convivem, bem e mal de mesma balan\u00e7a, sustentados pelo tempo veloz, que nem cantoria, nem bambol\u00ea, nem pega-pega conseguem ludibriar. N\u00e3o se esconde-esconde. Unidunit\u00ea&#8230; e hoje sou eu o vil\u00e3o da hist\u00f3ria. Adulto.<\/p>\n<p>Ouvir a m\u00fasica foi saber-me t\u00e3o distante de tudo o que me cabia. Foi lembrar-me pap\u00e9is de carta que sonhava um dia escrever, um a cada amigo, com poema e perfume. Pap\u00e9is de carta que primeiro viraram desinteresse, depois, infantilidade, depois lixo; carregando sementes de amizades e palavras de querer bem. Bem-me-quer, o nome do \u00e1lbum de figurinhas, de colecionar e grudar em todo canto, at\u00e9 parede; a mesma de criatividades de quadro dan\u00e7ador. E at\u00e9 mal-me-quer n\u00e3o era desgosto algum; s\u00f3 mais um passatempo de despetalar flores. S\u00f3 mais tarde entendi a dor das rosas mortas; s\u00f3 mais tarde mal-me- quer ficou triste de dizer. E havia ainda a outra cole\u00e7\u00e3o de figurinha: Amar \u00e9\u2026, e retic\u00eancias de completar com significados, sempre as retic\u00eancias de um quase Amar \u00e9\u2026 eterno.<\/p>\n<p>Ah, os desenhos de coloridos suaves, de tardes de correria de p\u00e1tio e trocar pap\u00e9is. Pap\u00e9is de carta ou personagens de brincadeira, que toda crian\u00e7a quer ser tudo, de bruxa m\u00e1 \u00e0 fada madrinha; que toda crian\u00e7a quer ter tudo, de um amar \u00e9 eterno a toda cole\u00e7\u00e3o de bem viveres. Olhava desenhos e coloridos suaves de gibi, figurinha ou papel de carta, e fazia parte daquilo. Escolhera de voz pr\u00f3pria ser crian\u00e7a e o era, em toda plenitude. Nada que n\u00e3o fosse vontade pertencia aos olhos ou ocupava pensamentos. Unidunit\u00ea era a pr\u00f3pria vida que, hoje, falada em outras vozes, de novas crian\u00e7as, pegou-me desprevenida. Acho que n\u00e3o sei mais pega-pega. Acho que nem corro, \u00e9 s\u00f3 o tempo. Quanto tempo, mesmo, sem o quadro na parede?<\/p>\n<p>Unidunit\u00ea: a vontade de cantar de pr\u00f3pria voz, soltar as pr\u00f3prias tran\u00e7as, morder a ma\u00e7\u00e3 envenenada e sonhar pr\u00edncipe encantado. Se tivesse ousado antes, escolheria o papel de bailarina e &#8220;dan\u00e7aria a vida em quatro cantos do mundo&#8221;. Era como respondia \u00e0s indaga\u00e7\u00f5es adultas, cheias de incredulidade \u00e0 pergunta do est\u00fapido habitual: &#8220;O que vai ser quando crescer ?&#8221;. Se tivesse ousado antes, jamais me perderia do meu quadro bailarino; usaria asas, as m\u00e3os de bolso. Unidunit\u00ea: sonho encantado, onde est\u00e1 voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouvi a m\u00fasica que tocava cores na minha inf\u00e2ncia e falava em notas aquarelas. Os quadros de uma inoc\u00eancia que n\u00e3o uso mais nas parede: desmoronados. A m\u00fasica era uma nova vers\u00e3o, uma releitura dos antigos sonhos, em outras vozes; que as crian\u00e7as cantoras da minha can\u00e7\u00e3o, a original, cresceram. Adultizaram-se, adulteraram-se. 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