{"id":1559,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/pinky\/"},"modified":"2022-08-27T18:02:11","modified_gmt":"2022-08-27T21:02:11","slug":"pinky","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/pinky\/","title":{"rendered":"Pinky"},"content":{"rendered":"<p>Em roda, m\u00e3os dadas e can\u00e7\u00f5es aprendidas. Crian\u00e7as meninas e seus afazeres de brincar. Em bando, bandolim imagin\u00e1rio criando cada qual protagonista; metamorfoseadas feiti\u00e7o de fada. Borboletas, saltitavam, quase esquecendo-se de que faltavam-lhes as asas. Quase borboletas, qualquer personagem lembrada, nem precisava ser voadora, qualquer personagem fantasiaria-as perfeitamente.<\/p>\n<p>Em segundos passavam de fadas a m\u00e3es, de filhas a rosas, de gotas de chuva a donzelas enfeiti\u00e7adas. As meninas em roda giravam a vida sem sair do lugar; rodavam de tempo, anti-hor\u00e1rias, despreocupando-se de segundos.<\/p>\n<p>Meninas em roda nem t\u00eam conta de valor. Contam cinco, contam dez, contam grupo e m\u00e3os amarradas. Sabem de n\u00fameros apenas em cantigas, sabem de n\u00fameros at\u00e9 onde podem alcan\u00e7\u00e1-los de dedos. Cinco, dez. Um bando de meninas em hora de recreio.<\/p>\n<p>Uma delas, bem mi\u00fada, de algod\u00f5es cor-de-rosa e letras estrangeiras dizendo PINKY, afastou-se do c\u00edrculo aglomerado. Talvez um cansa\u00e7o, ou apenas disposi\u00e7\u00e3o para o lanche embrulhado na mala. Bisnaga e queijo cremoso, achocolatado e uma fruta, banana de insist\u00eancias de m\u00e3e.<\/p>\n<p>N\u00e3o que a disposi\u00e7\u00e3o para o lanche fosse maior do que a roda; mas o hor\u00e1rio pedia est\u00f4mago cheio: dez e meia em seu rel\u00f3gio colorido, quase de brinquedo. Tempo l\u00fadico, sem sentidos contando hor\u00e1rios contra ou a favor. Sem sentido eram os c\u00edclicos circuitos num\u00e9ricos de percorrer, minuto sim, minuto n\u00e3o. Sorte as meninas contarem s\u00f3 at\u00e9 dez; sorte rodarem de cantiga sem cron\u00f4metro. S\u00f3 a pequena cor-de-rosa, PINKY, de letras vivas, usava rel\u00f3gio; s\u00f3 ela marcava tempo. Tic-tac, tic-tac; seu digital n\u00e3o cantava. &#8220;Passa tempo tic-tac, tic-tac passa hora. Chega logo tic-tac, tic-tac n\u00e3o demora&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Seu rel\u00f3gio n\u00e3o batia tic-tac como se cantava na can\u00e7\u00e3o de roda. E tic-tac era tum-tum de cora\u00e7\u00e3o do tempo? Seu rel\u00f3gio n\u00e3o teria cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Abocanhou a bisnaga, e um resto de queijo pingou-lhe o PINKY das letras estampadas. Bem a blusa preferida&#8230; Pensou r\u00e1pido, com o dedo indicador, recolhendo o creme esbranqui\u00e7ado do fundo cor-de-rosa. Levou-o fartamente \u00e0 boca; gostava de queijo creme. N\u00e3o gostava de bronca de m\u00e3e lavadeira. Uma mancha restou, maculando o rosa t\u00e3o perfeito, cab\u00edvel de roda e cantiga. A m\u00e3e que se virasse com o sab\u00e3o.<\/p>\n<p>Continuou em sua fome programada de dez e meia recreativa: leite com chocolate, aquele que na TV mostrava um bonequinho. Engra\u00e7ado ele nunca ter-lhe dado caras, nem ouvidos. Escondida, vez ou outra, tentava segredar \u00e0 figura estampada na caixinha do achocolatado, coisas de menina borboleta, coisas de crian\u00e7a sem asa. Mas a m\u00e3e vinha explicar que o boneco era s\u00f3 brincadeira de gente da televis\u00e3o, mentirinha. Uma pena mesmo mentirem assim a crian\u00e7as de roda. Pena mesmo terem de castrar-lhe asas com verdades tristonhas.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, a banana; nem bom nem ruim; ordem da mesma m\u00e3e que desmascarou o boneco e brigava com manchas infantis. A banana \u00a0e s\u00f3. Limpou m\u00e3os e migalhas, livrou-se dos pap\u00e9is guardanapos, e sentou-se \u00e0 beira da escada do p\u00e1tio, assistindo, contemplativa, \u00e0 roda incans\u00e1vel das meninas outras. N\u00e3o que n\u00e3o quisesse compartilhar a brincadeira, mas obedecia ordem de rel\u00f3gio digital: depois das dez e meia de lancheira, nada de correrias; um descanso e s\u00f3. N\u00e3o que n\u00e3o tivesse pensado em atrever-se, mas j\u00e1 chatearia a m\u00e3e um bocado com a mancha na PINKY cor de rosa. Uma chatea\u00e7\u00e3o era o bastante; um ainda estava sob controle, ainda se contava em dedo indicador. Aquietou-se, tamb\u00e9m imaginando-se princesa, fada, qualquer criatura de conto infantil que vestia-se rosa. Ajeitou-se em pernas de fazer pose, sand\u00e1lias de pl\u00e1stico cristal, um sorriso sozinho de encanto satisfeito. Imaginou-se em port\u00f5es de castelo, tapete m\u00e1gico, ab\u00f3bora salvadora; at\u00e9 corcel alado. Tudo ali, minutos descansados, na escadaria \u00e0 sombra do p\u00e1tio ensolarado.<\/p>\n<p>A roda girava tic-tac, tic-tac, cantando a tal can\u00e7\u00e3o do tempo &#8220;Chega hora tic-tac, tic-tac vai-se embora&#8230;&#8221;. A roda girava ao Sol, vozes meninas e sonhos de m\u00e3os compartilhadas. Sonhos compartilhados de m\u00e3es e filhas, e pais, e tempos tic-tac. E a menina da m\u00e3e de sab\u00e3o, sentada na sombra, com seu rel\u00f3gio sem tic-tac. &#8220;J\u00e1 perdi toda alegria, de fazer meu tic-tac, dia e noite, noite e dia&#8230;&#8221;. Ser\u00e1 que seu rel\u00f3gio n\u00e3o tinha cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ruim ele era um tanto, por faz\u00ea-la horas de descanso, e horas de lancheira e horas comprimidas. Ruim ele era; talvez por isso n\u00e3o cantasse tic-tac; talvez por isso ela tivesse que contemplar a roda, descontentar-se de tempo sentado.<\/p>\n<p>Viu quando a professora aproximou-se do grupo girat\u00f3rio de crian\u00e7as outras. Entrou, \u00e0s palmas, na brincadeira, ocupando o centro da roda, cada vez mais animada. O tic-tac girando tempo e alegrias em torno da mo\u00e7a; os tic-tacs ofertados das meninas; doando, de suas vidas infantis, c\u00edrculos que lhes pareciam infinitos. &#8220;Dia e noite, noite e dia, tic-tac, tic-tac, dia e noite, noite e dia &#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>A professora alimentando as m\u00e1gicas de uma s\u00f3 voz, um s\u00f3 espa\u00e7o, uma s\u00f3 correria. No centro do mundo infantil das pequenas borboletas. E a menina de PINKY e creme de queijo, torcendo para que a mo\u00e7a a resgatasse da escada de sentar-se \u00e0 sombra. A mo\u00e7a dos sorrisos confiantes e cabelos de negros volumes lisos. Compridos, bem compridos; que quase rimavam comprimidos, mas que em nada eram parecidos. S\u00f3 em letras&#8230; Esse dom das palavras de rimar realidades desentendidas, tal verdade e mentira de achocolatado de TV. Essa maldi\u00e7\u00e3o de palavras enganosas&#8230;<\/p>\n<p>Mas a mo\u00e7a de ensinar nem notou-a em seu imagin\u00e1rio desenhado na escada, seu tapete ab\u00f3bora alado, seus mistos desdenhados de querer girar o tempo tic-tac na roda ensolarada. A mo\u00e7a nem notou suas letras cor de rosa; j\u00e1 envergonhadas por n\u00e3o ocuparem destaque, descontentes por n\u00e3o dan\u00e7arem vivas junto a outras cores. Logo, logo as letras fugiriam-lhe da camisa; logo, logo fartariam-se dela e seus cremes de queijo \u00e0 hora m\u00e9dica. Ela n\u00e3o merecia mesmo o furor de cores fortes; era fraca. Como na mentira de chocolate, sua realidade de asas n\u00e3o passava de coisa inventada, imagina\u00e7\u00e3o de escada, \u00e0 sombra de p\u00e1tio ensolarado. A mo\u00e7a das meninas de brinquedo, rodeada, nem fez por mal, nem quis fer\u00ed-la; mas pareceu-lhe linda, personagem principal do tic-tac infantil. A professora de cabelos alados nem precisava de asas, nem tapete; sorria de toda a facilidade que a menina do degrau desejava em letras cor de rosa. Felicidade&#8230; e a maldi\u00e7\u00e3o est\u00fapida das palavras, assemelhando-se desavisadas de seus significados discordantes. Facilidades n\u00e3o combinavam felicidades, n\u00e3o as suas dif\u00edceis regras de bem-estar: dez e meia de lanche e comprimido, outra hora qualquer de afastar-se de s\u00f3is, outras tantas digitais de minutos compromissados. As tais regras de estar bem suas dificuldades.<\/p>\n<p>E mesmo assim ela fingia, forjava imagens de Aladin, l\u00e2mpada e Cinderela; imitava desejos de outras meninas; tentava fazer-se de um infantil delinq\u00fcente das preocupa\u00e7\u00f5es. Tentava-se de tic-tac de rel\u00f3gios que n\u00e3o correm contra o tempo. Mentia; e desde sempre soube o porqu\u00ea das propagandas fantasistas de achocolatado. Soube, porque seus her\u00f3is tamb\u00e9m n\u00e3o existiam e nenhum pr\u00edncipe poderia salv\u00e1-la, nem em asas, nem em sonhos. Soube, porque seu rel\u00f3gio n\u00e3o cantava de brinquedo: &#8220;J\u00e1 perdi toda alegria de fazer meu tic-tac, dia e noite, noite e dia&#8230;&#8221;. Seu rel\u00f3gio pulsava vida rala, sentada triste na escada \u00e0s sombras de Sol. \u00c0s sobras, s\u00f3.<\/p>\n<p>E a menina percebeu que por mais inventasse parecer-se de roda, mo\u00e7a bonita e meninas m\u00e3os dadas ao descarte; por mais que for\u00e7asse, ela era \u00fanica. A \u00fanica em faltas; a \u00fanica a quem, apesar da letra cor de rosa, faltavam cabelos. Dan\u00e7ariam todos, c\u00edrculos e c\u00edrculos, tran\u00e7as, rabos de cavalo e fitilho. La\u00e7o, tiara \u00a0ou fios alados de professora. Lan\u00e7ariam todas, ventos livres de tic-tacs desprovidos de fim t\u00e3o pr\u00f3ximo, desdoentes, desenhando v\u00f4o livre, borboletas ou qualquer outro desejo de futuro. As rodas de cantiga girariam tempo de mo\u00e7a professora tornar-se m\u00e3e, de meninas tornarem-se mo\u00e7as e at\u00e9 mulheres de ensinar. E ela? E ela, a pequena cor de rosa, sem os cabelos escorrendo ombros? E a pequena de cabe\u00e7a esquisitamente nua, cuidados m\u00e9dicos e doses a cumprir?<\/p>\n<p>A menina contaria ainda dez e meia de hora do recreio, sentada, observando a roda do tempo girar as vidas, fazer as coleguinhas vestirem-se adultas e a professora tornar-se m\u00e3e. A menina contaria o tic-tac inventado a seu rel\u00f3gio sem cora\u00e7\u00e3o: &#8220;Chega logo tic-tac, tic-tac vai-se embora&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Cansou-se de ser ali sem corpo, protegida ao esquecimento, inventada feliz de seus mecanismos de mem\u00f3ria de fadas, colet\u00e2nea de hist\u00f3rias de m\u00e3e, um e outro comercial achocolatado de TV. Gosto aguado, saliva misturada ao choro desmamado na garganta. \u00c1gua e sal, n\u00e3o mar. \u00c1gua e sal, n\u00e3o Sol; \u00e1gua e sal. Enroscou-se de uma l\u00e1grima que ningu\u00e9m notou; e nem p\u00f4de esconder o rosto em madeixas. N\u00e3o p\u00f4de e ningu\u00e9m notou.<\/p>\n<p>Tomou o comprimido de quase onze; as digitais de rel\u00f3gio, fincando-lhe o pulso, propriet\u00e1rias, donas da menina cor de rosa. &#8220;J\u00e1 perdi toda alegria&#8230;&#8221;. A roda convulsionando, cabelos enroscados e cansa\u00e7o de pulm\u00f5es, pleno cansa\u00e7o de sa\u00fade corredeira. O suor que cabia frio, \u00e0 menina PINKY sentada, quase sem cabe\u00e7a de vergonha, quase querendo-se outra, ensurdecida de roda.<\/p>\n<p>N\u00e3o fora inten\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m, nenhuma das outras de cabelos e medula; mas a pequena sentiu-se ainda menor. Encolheu-se da pose de fada que se queria inventar; recolheu-se dos sonhos cortantes, das rodas gigantes de cantar futuros. N\u00e3o se escolheu tomada em comprimidos, n\u00e3o se escolheu. Recolheu figuras inventadas em final feliz; arrumou a lancheira, \u00a0secou \u00e1gua e sal de l\u00e1grima. Recolheu-se vergonhas carecas. Melhor nem a terem notado, melhor&#8230; De que papel julgariam-na? Qual seu conto enfeiti\u00e7ado?<\/p>\n<p>Dissolveu-se das vistas de roda. Melhor despistar-se, e crer que n\u00e3o entendia disparidades de hom\u00f4nimos meninas e meninas; crer que cria em tapetes de voar e leites fabricados. Crer que se criavam, inocentes, as can\u00e7\u00f5es de cantigas de roda. &#8220;Passa tempo tic-tac, tic-tac vai-se embora. J\u00e1 perdi toda alegria. Tic-tac noite e dia. Tic-tac, tic-tac, dia e noite, noite e dia&#8221;.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a prematura em tons de rosa era entender, ami\u00fade, sua hist\u00f3ria triste.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em roda, m\u00e3os dadas e can\u00e7\u00f5es aprendidas. Crian\u00e7as meninas e seus afazeres de brincar. 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