{"id":1558,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/retrovisor\/"},"modified":"2022-08-27T18:01:52","modified_gmt":"2022-08-27T21:01:52","slug":"retrovisor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/retrovisor\/","title":{"rendered":"Retrovisor"},"content":{"rendered":"<p>Um aceno. Rabisco de adeus em m\u00e3os de quase beijar; n\u00e3o fosse a dist\u00e2ncia que, mesmo pouca, causava quil\u00f4metros. M\u00e3os de se ter, assim, bem pr\u00f3ximas, aperto de peito; n\u00e3o em agonia: ajustadas ao peito, em sustenta\u00e7\u00e3o. M\u00e3os de caminhar conjuntas, n\u00e3o importando quantos fossem os quil\u00f4metros ou curvas de estrada. M\u00e3os de t\u00ea-las sempre, indissoci\u00e1veis; t\u00ea-las a despeito de dist\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Um aceno fotogr\u00e1fico, de bra\u00e7os que carregavam-no impresso, impress\u00f5es na carne. Luminosidade \u00edmpar, o movimento coreografado dos acenos. Era o que tinham a oferecer com os acenos: todas as melhores inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, o menino n\u00e3o entendeu o quadro, n\u00e3o desvendou sorrisos estampados; que se faziam incomuns. Nunca vira bocas sem palavras dizerem tanto; sem som, s\u00f3 silencio. Sem saber-se de raz\u00f5es, quis abra\u00e7\u00e1-los, um a um, as figuras do cen\u00e1rio de aceno. Ao, fundo um mar&#8230; O som de \u00e1guas antepondo-se a valores de s\u00edlabas que n\u00e3o necessitavam ser ditas. Sorrisos e acenos; um poema visual.<\/p>\n<p>De fundos de mar, um suspiro sem conclus\u00e3o, do menino observador: &#8220;De quem, afinal, aqueles bra\u00e7os e risos irm\u00e3os, desejando-lhe toda a boa sorte, das mais puras vontades? Por que aquele mar em retaguarda, guardando esperan\u00e7as de um pr\u00f3ximo encontro? Por onde, um \u00faltimo abra\u00e7o? &#8220;.<\/p>\n<p>O menino nem sabia como, mas sentia t\u00ea-los abra\u00e7ado antes. N\u00e3o conseguia mem\u00f3rias, mas a certeza de um algo de mar invadia-lhe o peito: j\u00e1 havia beijado-lhes as m\u00e3os; abra\u00e7ado-lhes sorrisos. Conhecia-os daquele cen\u00e1rio mar ao fundo\u2026<\/p>\n<p>Intrigou-se \u00a0da mensagem, quis sab\u00ea-los ou, ao menos, responder-lhes o amor enviado. Concentrou-se, instantes duradouros, em cada um. Algo de si em cada boca que sorria, na composi\u00e7\u00e3o que cantava, sonora, liberdade de \u00e1gua irrefre\u00e1vel. Algo de si na paix\u00e3o daquele adeus conjunto. Concentrou-se, m\u00e1ximo que lhe cabia. Queria acenar-lhes em resposta.<\/p>\n<p>E olhando, assim, pr\u00f3ximo o poss\u00edvel, notou que a dist\u00e2ncia aumentava. Menores e menores tornavam-se os bra\u00e7os em acenos; j\u00e1 quase dilu\u00edam-se em \u00e1gua. Se pudesse c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas ou lentes de zoom; se pudesse notar detalhes, veria que, escorrendo sorrisos, mareavam-se l\u00e1grimas. Mas ainda assim; ainda, sim, a olhos emba\u00e7ados, as figuras em aceno podiam enxergar-lhe alma. Podiam inspir\u00e1-lo do mesmo amor; e n\u00e3o importava a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Olhando assim, o mais pr\u00f3ximo que podia, o menino percebeu que n\u00e3o se tratava de fotografia; que as imagens de um vivo como aquele n\u00e3o se tratavam em laborat\u00f3rio e qu\u00edmicas de revela\u00e7\u00f5es. O mais pr\u00f3ximo que podia, percebeu que o aceno em conjunto, destinando-lhe toda boa sorte, fazia-se mensagem em espelho. Era atrav\u00e9s do espelho que ele tentava decifrar as tais almas endere\u00e7adas a amar, a um abra\u00e7o que era todo seu.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de um espelho, mais e mais distante do \u00faltimo aceno: espelho retrovisor.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e46de78dd13077fb2d2779d_RETROVISOR%20-recorte.png\" \/><\/div>\n<p>\u200d<\/p>\n<p>Olhando assim, percebeu que, por mais se aproximasse tentando reconhec\u00ea-los, seria in\u00fatil. Algo de percurso dianteiro em velocidade inalien\u00e1vel fazia-o seguir al\u00e9m. Um seu ve\u00edculo, apontando ao retrovisor de dist\u00e2ncias, mem\u00f3rias j\u00e1 incorporadas \u00e0 alma; mem\u00f3rias que n\u00e3o mais necessitariam raz\u00e3o ou s\u00edlabas. N\u00e3o mais utilizariam-se de rostos, acenos, sorrisos ou l\u00e1grimas. Mem\u00f3rias que j\u00e1 lhe eram a alma, mista das pessoas que amou. Mem\u00f3ria apenas mar; que, de todo profundo, ele era aos seus, dos seus. De todo o profundo, um mergulho das almas iguais.<\/p>\n<p>Percebeu-se, desentendido, guiando o ve\u00edculo de retrovisor, que se afastava. Desapareciam acenos dos bra\u00e7os em que, tinha certeza, j\u00e1 estivera envolto. Percebeu-se guiando a dist\u00e2ncia entre seu peito e aquelas m\u00e3os; seus risos e aquelas l\u00e1grimas; seus mares e aqueles rios. Guiando a dist\u00e2ncia em um percurso que pareceu-lhe natural; pareceu-lhe luz e estrada infinita.<\/p>\n<p>E s\u00f3 \u00e0quela dist\u00e2ncia, que n\u00e3o dizia quil\u00f4metros ou outra regra num\u00e9rica do conceb\u00edvel; s\u00f3 \u00e0quela dist\u00e2ncia de acenos dilu\u00eddos e fundos de mar, p\u00f4de descobrir-se em gratid\u00e3o; p\u00f4de espelhar-se de comuns. P\u00f4de-se o adeus daquele aceno, transpondo solid\u00f5es conseq\u00fcentes, sanando, de mar, qualquer resqu\u00edcio de dor. S\u00f3 \u00e0quela dist\u00e2ncia, p\u00f4de entender-se amado como poucos; p\u00f4de ter claro, luz e fotogr\u00e1fico, o privil\u00e9gio de ter sido o um, o \u00fanico a entender os la\u00e7os em perspectiva de retrovisor.<\/p>\n<p>Compreendeu que o mar envolvia os seus em aceno, embrenhando-os num abra\u00e7o. E essa era a resposta do menino ao amor endere\u00e7ado. Essa era sua alma em retribui\u00e7\u00e3o. O mar zelaria por eles, acalmando-lhes saudade, salgando-lhes felicidade e boa-sorte na estrada cada um. Que cada um tamb\u00e9m dirigia seus ve\u00edculos de retrovisores; cada um guardaria mem\u00f3rias de espelhos. E, de certo, o menino estaria, algum dia, acenando-lhes fotografias de momentos s\u00f3 luz; que \u00e9 o brilho, s\u00f3 brilho, a marcar eternidades. De certo ele se faria mem\u00f3ria. Mas j\u00e1 era mais que isso: a partir de ent\u00e3o estaria l\u00e1, c\u00famplice de mar\u00e9 em retaguarda \u00e0s almas, suas iguais.<\/p>\n<p>S\u00f3 ali, \u00e0quela dist\u00e2ncia, entendeu-se livre; e foi esse, seu primeiro ou \u00faltimo mergulho. Sua indel\u00e9vel vis\u00e3o capaz de eternidade&#8230; \u00a0E, assim, s\u00f3, de si e dos seus, \u00a0o menino p\u00f4de seguir, em paz.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um aceno. Rabisco de adeus em m\u00e3os de quase beijar; n\u00e3o fosse a dist\u00e2ncia que, mesmo pouca, causava quil\u00f4metros. M\u00e3os de se ter, assim, bem pr\u00f3ximas, aperto de peito; n\u00e3o em agonia: ajustadas ao peito, em sustenta\u00e7\u00e3o. M\u00e3os de caminhar conjuntas, n\u00e3o importando quantos fossem os quil\u00f4metros ou curvas de estrada. 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