{"id":1557,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/confissoes-de-um-primata-i\/"},"modified":"2022-08-27T18:01:34","modified_gmt":"2022-08-27T21:01:34","slug":"confissoes-de-um-primata-i","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/confissoes-de-um-primata-i\/","title":{"rendered":"Confiss\u00f5es de um Primata I"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Estamos quase vivos\u2026 Vivos, exceto pelas faltas cometidas, acometidas de um \u00edmpeto de culpa que j\u00e1 nos parece inato.<\/p>\n<p>Culpados ao nascer. Exceto pelos erros insistidos e remorsos plantados e acolhidos, que uma parte boa qualquer, algum resto de consci\u00eancia, teima em tornar ferida n\u00e3o cicatrizada. Exceto pelos dias passageiros e aqueles que latejam <em>in memoriam<\/em>, desmemoriados, hemorragias e fluido vital desperdi\u00e7ado. Exceto pelas ruas conhecidas, resistentes ao presente, ruas que, apesar de passos novos de mesmos p\u00e9s, agora envelhecidos, teimam em negar outros rumos de caminho.<\/p>\n<p>Ruas que indicam sempre as mesmas placas, as mesmas vistas, os mesmos rostos, existam ou n\u00e3o. O mesmo concreto que se guarda em lembran\u00e7a de passado; n\u00e3o importando qu\u00e3o recente, ou qu\u00e3o long\u00ednquo. Apenas um passado que passou, enla\u00e7ando os tais asfaltos; trancafiando-as, todas as ruas tracejadas, em formol, distantes de tudo que cative um agora. Ruas que se foram&#8221;<\/p>\n<p>Imaginou as palavras, assim, em\u00e9ticas, sequenciais, e as anotou em papel profissional. Como era Tolo: palavras profissionais n\u00e3o nasceriam de m\u00e3os; nasceriam digitais, nem mais impressas. Impressionante sua ingenuidade amadoresca.<\/p>\n<p>Ficou expresso no rosto um desapontamento de si mesmo: Tolo, um rapaz amador de letras que n\u00e3o sabia que tudo que nasce \u00e0 m\u00e3o, seria nati-morto. Mesmo assim, se pudesse trazer \u00e0 luz das letras o mundo inescrupuloso que reinventava em sonhos e acr\u00e9scimos de entendimento, se pudesse faz\u00ea-lo frase de contar hist\u00f3ria, jamais desdenharia o direito de tantos outros de falar l\u00edngua de livros. Queria poder express\u00e3o. Querer o poder do \u00edntimo expresso, que \u00a0podia ser anseio de muitos mas, concreto, de poucos.<\/p>\n<p>Parou para um caf\u00e9, um expresso, para ele, vindo de trem. Atrasado, sempre atrasado; afinal, n\u00e3o chegaria a lugar algum. Melhor um caf\u00e9 expresso do que um bilhete r\u00e1pido de trem. O gole quente e sentado de bar o levaria mais adiante do que o trem atravessador de cidade.<\/p>\n<p>E, por falar nisso, aonde pretendia terminar sua tarde mesmo? Ah, sim, claro \u00a0uma visita ao analista . Uma novidade! A consulta das quatro e meia da tarde, hora do ch\u00e1 e bolachas. Serviriam algum tira-gosto a julgar o pre\u00e7o competente, competindo com o curto custo de suas longas horas em carteira assinada. O que diabos o analista cuspiria como seus problemas? E n\u00e3o se surpreenderia em perceber-se conivente com as suposi\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico prozaquiano, dali a tr\u00eas ou quatro semanas. N\u00e3o se surpreenderia\u2026<\/p>\n<p>Nem se lembrava de quem fora a tal id\u00e9ia. Fam\u00edlia? Gente do trabalho? Del\u00edrio de hero\u00edna? Auto-comisera\u00e7\u00e3o? Nem se lembrava\u2026 Mas o fato de a consulta estar marcada significava que, em algum momento de suas linhas recentes, pontuava um desconforto, um agudo incompreendido, um &#8220;qu\u00ea&#8221; de anormal.<\/p>\n<p>Sa\u00edra mais cedo do trabalho; sua dispensa m\u00e9dica servira ao menos para desaborrec\u00ea-lo em algumas horas de servi\u00e7o. Sa\u00edra expresso do escrit\u00f3rio-escrot\u00f3rio; tal a x\u00edcara de caf\u00e9, at\u00e9 entusiasmado, em velocidades de quem vai ao encontro de algo. S\u00f3 agora, refletido em l\u00edquido negro coado de cafe\u00edna barata, apoiado em balc\u00e3o b\u00eabado de boteco; s\u00f3 agora percebia n\u00e3o haver motivo de agita\u00e7\u00e3o. Seu expresso ia de encontro ao analista; uma doen\u00e7a, um dist\u00farbio. Esse o t\u00e3o animador destino de sua passagem de trem.<\/p>\n<p>Bebeu um gole quente, sem a\u00e7\u00facar. Amargo de caf\u00e9 e de seu \u00edntimo, expresso t\u00e3o friamente: uma consulta para avaliar insanidades, para julg\u00e1-lo um erro, um assombro. Um \u00edntimo expresso amargamente, engolido seco em x\u00edcara de caf\u00e9 .<\/p>\n<p>Tirou o endere\u00e7o do bolso. Nas costas do papel, algumas frases de caminho, nascidas dessas suas fecunda\u00e7\u00f5es absurdas de cruzamento de avenidas. Frases surgidas de seu observat\u00f3rio de sensa\u00e7\u00f5es, inspiradas de transeuntes de dias comuns atropelados, de far\u00f3is fechados, s\u00f3is repetitivos, florestas de cal. Suas frases falando pelas costas do papel que endere\u00e7ava a cl\u00ednica do tal analista. Suas frases, debochando do doutor e seu div\u00e3 psiqui\u00e1trico, do doutor e suas p\u00edlulas cerebrais, quase cir\u00fargicas .<\/p>\n<p>Queriam arrancar-lhe o c\u00e9rebro criativo. As frases protegiam-no, cuspindo em Dr Manoel da N\u00f3brega; o nome da rua que ele mesmo assinalara a caneta Bic. Dr Manoel da N\u00f3brega &#8230; A rua ent\u00e3o tamb\u00e9m tinha t\u00edtulo de curandeiro; a rua tamb\u00e9m era doutor. Doutor de ter gente, ou deter gente, ou doutor detergente, de ensaboar perfume envenenado.<\/p>\n<p>Doutores n\u00e3o eram confi\u00e1veis; ainda mais aquele, residente em rua que n\u00e3o permitia outro t\u00edtulo; uma rua s\u00f3 de doutores. Repetitiva, sinalizadora das mesmas placas, intitulada de doutor\u2026 Doutor de receber infinitas visitas, sinalizador da mesma chaga, analista. Pregador, martelando c\u00e9rebros com psicossomatiza\u00e7\u00f5es enlouquecidas, vendendo droga a pre\u00e7o de pomada. Doutor analista de sistemas, desprogramando os c\u00e9rebros pessoais, desconectando-lhes a tomada a toque de pomada e pre\u00e7o&#8230; Pre\u00e7o infinitamente mais caro que os miolos pacientes. Ele n\u00e3o era paciente. Ruas com nome de Doutor n\u00e3o eram confi\u00e1veis. E talvez se visitasse o tal endere\u00e7o do papel, jamais voltaria livre. Poderia ser considerado louco, em suas frases de falar \u00e0s costas, em seus pensamentos expressos em rascunhos, desalinhados, desprotegidos. Apenas conclus\u00f5es de um homem que ainda n\u00e3o se conhecia louco ou s\u00e3o. Um homem que ainda n\u00e3o se conhecia; mas que, no fundo, n\u00e3o se julgava um erro.<\/p>\n<p>Temeu ser desqualificado por um doutor prozaquiano qualquer. Um doutor que habita em endere\u00e7o de doutor; um qualquer de marchar buscando ser igual. Um expresso vazio de identidade .<\/p>\n<p>Misturou os pensamentos ao \u00faltimo gole de expresso; r\u00e1pido, decidido. No c\u00e9rebro duvidoso, as frases, suas e as das costas de papel, impressas tal livro profissional.<\/p>\n<p>No c\u00e9rebro duvidoso, pass\u00edvel de psicanalista doutor, a vontade de ter desvendadas todas as suas vis\u00f5es de mundo; insanas e n\u00e3o. O c\u00e9rebro duvidoso era muito mais leal do que as odes psicanalistas. Psicanaletas, de jorrar alus\u00f5es cient\u00edficas e suposi\u00e7\u00f5es emp\u00edrico-ilus\u00f3rias. Psicanalhas, de julgar as novas teorias de mundo submerso, suas frases autorais que falavam \u00e0s costas de papel.<\/p>\n<p>Deixou o bar e esqueceu o endere\u00e7o da consulta, que sua chaga era desvendar a vida. Se a curasse, n\u00e3o haveria mais prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Na boca, um expresso de gosto doce: era o esp\u00edrito agradecido, mesmo sem dizer palavra.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Estamos quase vivos\u2026 Vivos, exceto pelas faltas cometidas, acometidas de um \u00edmpeto de culpa que j\u00e1 nos parece inato. Culpados ao nascer. Exceto pelos erros insistidos e remorsos plantados e acolhidos, que uma parte boa qualquer, algum resto de consci\u00eancia, teima em tornar ferida n\u00e3o cicatrizada. 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