{"id":1551,"date":"2022-04-18T13:38:10","date_gmt":"2022-04-18T16:38:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/acordei-pensando-em-sonhos\/"},"modified":"2022-08-27T17:57:46","modified_gmt":"2022-08-27T20:57:46","slug":"acordei-pensando-em-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/acordei-pensando-em-sonhos\/","title":{"rendered":"Acordei pensando em sonhos"},"content":{"rendered":"<p>Acordei pensando em sonhos\u2026<\/p>\n<p>Em como uso, inconsciente, o termo tempo nesses dias passageiros.<\/p>\n<p>Que uso-me de seu t\u00e9rmino, culpando-o da fugacidade e ferozes pontos finais. Ferozes porque n\u00e3o se sentem. S\u00e3o escusos, retic\u00eancias travestidas, disfar\u00e7adas borracha e fraco pigmento de tingir hist\u00f3rias, desenhando, as atitudes de uma natureza morta. Altitudes de papel.<\/p>\n<p>E quem ser\u00e1, a preencher-me as linhas cronom\u00e9tricas; a contar-me a lenda? Estarei sendo bem interpretado, ou julgam-me pelo que sou em verdade: a figura incessantemente frustrada, pedindo tr\u00e9gua aos segundos em devaneio? Tr\u00e9gua para que se fa\u00e7a justi\u00e7a aos anseios de uma alma como todas as outras.<\/p>\n<p>E meu apelo , ser\u00e1 o \u00fanico? Ou apenas mais um, entoando o grande coro dos desesperados amortecidos, dos escravos errantes, movidos n\u00e3o apenas a diesel, derivados e \u00edndices de mercado; mas empurrados quase a pontap\u00e9s pela vertigem dos rel\u00f3gios.<\/p>\n<p>Acordei pensando em sonhos; em como durmo vida afora, impregnando as materialidades corriqueiras de significados-recalque; decalcando-me \u00a0a carne de temores e impulsos vividos, apreendidos no est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Espont\u00e2neos instant\u00e2neos, capturados, n\u00e3o chegam a ter voz.<\/p>\n<p>Muda! Que n\u00e3o vingar\u00e1!<\/p>\n<p>Ou\u00e7o em sonhos, completamente desperto, a frase de uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8221; Veja s\u00f3 as crian\u00e7as mudas paral\u00edticas &#8220;.<\/p>\n<p>Referem-se a estados vegetativos sob a cust\u00f3dia da medicina, ou a estados de alma? Sob cust\u00f3dia de quem?<\/p>\n<p>Crian\u00e7as mudas \u00f3rf\u00e3s: s\u00e3o esses os impulsos apreensivos, amarrados bem na boca do est\u00f4mago, impedidos de florescer ou tornar-se adultos. Amarrados a n\u00f3 inconsciente, a n\u00f3s, inconsistentes; a mim, e a todas as primeiras pessoas de que me privo por escolher definir-me um \u00fanico.<\/p>\n<p>Um \u00fanico, com direito \u00e0 \u00fanica linearidade de tempo. \u00c1tomo de exist\u00eancia , um n\u00facleo mal resolvido.<\/p>\n<p>Vivo as outras primeiras pessoas, aquelas que me caberiam, cada qual vestindo um n\u00famero, e infinidade deles. Vivo as outras primeiridades em suaves, sonhos ou pesadelos. Suaves pela pluma liberdade de tanger ins\u00f3litas consci\u00eancias. Pensando em sonhos &#8230;<\/p>\n<p>Acordei desacordado. Uma quebra de sigilo, uma calma de s\u00f3 gelo, um vulto intr\u00ednseco aos pontos de vista; que nunca s\u00e3o pontos finais.<\/p>\n<p>Retic\u00eancias disfar\u00e7adas que n\u00e3o fazem sentir os fins, deixam em aberto conclus\u00f5es e decis\u00f5es de tempo. Tudo de um em um, caminhando quase lento, n\u00e3o fosse o ritmo brutal das constata\u00e7\u00f5es. Essas, feitas em espantosos piscares. Tudo de um em um, como que para ficar bem resolvido e saltar est\u00f4magos e impulsos amargurados.<\/p>\n<p>Uma a uma, as constata\u00e7\u00f5es dos sonhos que se quer aprisionar para depois poder julgar e culpar os segundos perdidos.<\/p>\n<p>O tempo, em seu papel de terceiro, desvinculado da exist\u00eancia que, de fato, me pertence; e que, de um fato ainda mais evidente, divido com a mania de quantificar.<\/p>\n<p>Acordei sonhando sonhos, de tempos que n\u00e3o importa classificar, que \u00e9 sempre inconsciente, sempre inconsistente, sempre de manipular. Sonhos de n\u00e3o necessitar ponteiro nem dire\u00e7\u00e3o, de calcar em almas um caminho pr\u00f3prio, um destino \u00fanico e t\u00e3o flex\u00edvel quanto atemporal.<\/p>\n<p>E a \u00fanica virtude fundamentada em certeza \u00e9 a tal individualidade que nos permite, das escolhas , todas; a tal contagem regressiva que nos insiste das escolhas, a melhor.<\/p>\n<p>Todo esse tempo, que posso tornar \u00ednfimo, desimportante . Todo esse tempo julguei mal o significado da fugacidade. Todo esse tempo \u00e9, talvez, de colher sonhos\u2026 Ou planta-los.<\/p>\n<p>As mudas paral\u00edticas vingaram\u2026 Vingaram-me, tomando lugar, em reticencias, dos fechamentos de ponto final.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o escrevo, pensando-sonhando, sonhos em tempo, de tempo, em tempo, \u00a0n\u00e3o ressentida dos contadores regressivos; mas talvez, um dia, grata, por haver morrido em mim os t\u00e9rminos, antes que o tempo me matasse.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o haja tempo para queles que escolhem acordar pensando em sonhos, ou sonha-los `a velocidade do tempo real .<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordei pensando em sonhos\u2026 Em como uso, inconsciente, o termo tempo nesses dias passageiros. Que uso-me de seu t\u00e9rmino, culpando-o da fugacidade e ferozes pontos finais. Ferozes porque n\u00e3o se sentem. 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