{"id":1547,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/sobre-a-historia-das-ostras\/"},"modified":"2022-08-27T18:14:46","modified_gmt":"2022-08-27T21:14:46","slug":"sobre-a-historia-das-ostras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/sobre-a-historia-das-ostras\/","title":{"rendered":"Sobre a historia das ostras"},"content":{"rendered":"<p>Estive pensando sobre a hist\u00f3ria das ostras, escusas, escondidas; rumo a um mesmo final.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 ostras falantes, m\u00edmicas, vivas de pernas ou outras possibilidades; foram feitas para profundos, densidade, escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 ostras que se queiram livres do legado, que se queiram outro destino. N\u00e3o h\u00e1, exceto em desenho humano animado, em contos imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, em hist\u00f3rias de ostras, rebeldia; porque inexistem finais felizes, e inexistem infelizes, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 ostras querendo-se outras , porque tudo o que se sabe e sempre se ouviu dizer, foram fundos de mar, densidades e profundos .<\/p>\n<p>Encaixe perfeito, a solid\u00e3o, \u00e0 vida de ostra; sem que se fa\u00e7a sentimento pejorativo, sem que se fa\u00e7am tristes os dias a cumprir.<\/p>\n<p>Ostras n\u00e3o conhecem solid\u00e3o e n\u00e3o se concedem, o prazer ou delito, de quererem-se algo diverso.<\/p>\n<p>Ostras s\u00e3o; e n\u00e3o h\u00e1 bons ou maus press\u00e1gios quanto a isso.<\/p>\n<p>Se lhes houvesse o c\u00e9rebro perturbador, talvez fosse insuport\u00e1vel condescender com fundos de mar. Talvez fosse pena, talvez se tornassem v\u00edtimas da injusti\u00e7a natural; ou pensassem-se descartadas, desimportantes, de pouco interesse e nenhuma valia. Feitas sob impulso e erro; nascidas para morrerem &#8220;esconderijas&#8221;, submersas, quase invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Se ostras fossem de mentes humanas &#8230; E talvez at\u00e9 sejam. Quem pode afirmar contr\u00e1rio? Se mentes s\u00e3o ostras, sementes de solid\u00e3o; ent\u00e3o por que n\u00e3o se pode operar o inverso? Por que ostras n\u00e3o podem ser \u00a0mentes?<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ostras outras, , umas poucas&#8230; vezes, raras. H\u00e1 ostras que, mesmo sem mente, mesmo sem pensar, sentem solid\u00e3o. Ostras maculadas, que um dia entristeceram doloridas, que o corpo n\u00e3o foi mais o mesmo. Incomuns \u00e0s demais, violaram as tais ostras; o sexo prematuro desperto a pauladas. Invadidas, permissivamente, sob olhos da injusti\u00e7a natural, que tudo e nada pode.<\/p>\n<p>Marcaram-se de medo e fragilidade, e jamais puderam voltar a ser como as outras. Jamais puderam voltar a desentender-se de solid\u00e3o, de culpas, desculpas e outras dores. Jamais puderam voltar a apenas ser: haviam sido maculadas, \u00a0a concha aberta, escancarada, sem vontade ou permiss\u00e3o. Engoliram a semente amarga a trai\u00e7\u00e3o. Mesmo sem mente humana, o que lhes valesse qualquer pensar, prever, racionalizar, sofreram de perda. \u00a0Molestadas&#8230;<\/p>\n<p>E o ruim que tinha sido, permaneceu; como se ostras tivessem mem\u00f3ria. A semente desgrudou-se de bom crescimento e tudo o que sempre houve foi cultivo maligno.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe; nenhuma outra ostra de vida comum. Ningu\u00e9m adivinha. E as ostras especiais, essas violadas, capaz jamais se abram. Jamais se deixem expor em ferida. Uma fenda que que n\u00e3o cicatriza, tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00f3i mais a carne; mas dormente, cintila um outro tipo de sulco, um outro tipo de assass\u00ednio: a esperan\u00e7a desfeita.<\/p>\n<p>Permanecem ostras, caladas, conforme lhes cabe. Cansadas do sexo perdido, que lhes podia ter sido dado presente. Cansadas de reviv\u00ea-lo doente, na ferida de perman\u00eancia indeterminada, poupada-enterrada pela concha. O sexo esfaqueado, que lhes poderia ter sido dado em fun\u00e7\u00e3o comum \u00a0de nascer tantas outras ostras semelhantes, de mesmo destino de fundo de mar; sem que houvesse nisso, qualquer triste ou insatisfeito. O sexo adeus, que lhes poderia ter sido poupado; que lhes poderia ter poupado da dor tamanha da diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>As ostras molestadas sentem, e n\u00e3o sentem-se iguais \u00e0s outras. As ostras molestadas e seu todo ostracismo mol\u00e9stia.<\/p>\n<p>Mas um dia, enfim, escolhem-nas, as ostras da diferen\u00e7a; sob os mesmos olhos permissivos da injusti\u00e7a natural. Escolhem-nas assim, a dedo, ao acaso semente; que talvez tarde, por\u00e9m n\u00e3o falcatrua a lei da compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E talvez tarde o tempo exato para que a concha seja aberta. O tempo, em espanto, as presenteia: as ostras de mol\u00e9stia cospem p\u00e9rolas; as mais belas e enormes p\u00e9rolas de que se tem conta. O tempo exato, a demora do acaso \u00a0para que a ferida cicatrize j\u00f3ia, riqueza, e todo o diferencial.<\/p>\n<p>As ostras molestadas s\u00e3o, sim, diferentes: especiais. Que guardaram para si o medo, sem culpar as outras, sem desdenhar-lhes a liberdade de nada sentir, sem tentar praguejar-lhes a mesma dor que sentiram. Especiais.<\/p>\n<p>E puderam comprovar, lan\u00e7adas \u00e0 confian\u00e7a tempo, que n\u00e3o h\u00e1 olhos de injusti\u00e7a natural, mas m\u00e3os de justi\u00e7a, natural e irrevog\u00e1vel.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e14f83b232f150d1c1dd0eb_CONCHA.png\" \/><\/div>\n<p>As ostras molestadas fazem nascer p\u00e9rolas, em um sexo muito, muito mais operante do que jamais se p\u00f4de imaginar.<\/p>\n<p>Estive pensando sobre a hist\u00f3ria das ostras e, talvez , todo sofrimento seja s\u00e3o. Talvez nenhum seja sofrimento; se, ao menos, se desvinculasse a mente humana de seu falso papel protetor de inventar v\u00edtimas, calcular danos e inibir percursos.<\/p>\n<p>Talvez nem haja dores, mas cicatrizes especiais, que, se bem trabalhadas fortalecem, quase que em um novo \u00f3rg\u00e3o, uma parte produtiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o mem\u00f3ria morta de algum cancro. Talvez s\u00f3 haja, de fato, m\u00e3os de justi\u00e7a natural e tempo preparat\u00f3rio. Talvez s\u00f3 haja p\u00e9rolas&#8230;<\/p>\n<p>Quem \u00e9 capaz de desmentir a beleza de uma p\u00e9rola , e negar seu tempo triste de ostracismo?<\/p>\n<p>Talvez sejam p\u00e9rolas que trago presas ao pesco\u00e7o. P\u00e9rolas &#8230;<\/p>\n<p>E at\u00e9 antes, estive sufocada de cordas, que julguei suicidas, porque simplesmente julguei&#8230;<\/p>\n<p>E s\u00e3o s\u00f3 p\u00e9rolas, no mais rico dos colares, valendo-se de anos, finalmente desenhado pelo tempo preparat\u00f3rio e m\u00e3os calmas de uma justi\u00e7a operante que jamais julguei houvesse.<\/p>\n<p>S\u00f3 p\u00e9rolas , do diante , at\u00e9 eternidade &#8230;<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5e14f6b6232f15b84d1d18c0_ostra2.png\" \/><\/div>\n<p class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-fullwidth\" style=\"max-width: 800px;\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"fullwidth\" data-rt-max-width=\"800px\">Ilustra\u00e7\u00f5es: Maria Lucia Nardy<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estive pensando sobre a hist\u00f3ria das ostras, escusas, escondidas; rumo a um mesmo final. 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