{"id":1546,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/sorri-um-estranho\/"},"modified":"2022-08-27T18:13:30","modified_gmt":"2022-08-27T21:13:30","slug":"sorri-um-estranho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/sorri-um-estranho\/","title":{"rendered":"Sorri um estranho"},"content":{"rendered":"<p>Sorri um estranho. E estranhou-me. Estranhei.<\/p>\n<p>Por que, afinal, estranhou-me? Ser\u00e1 que n\u00e3o convenci? Ser\u00e1 que os olhos exprimiam algo em contr\u00e1rio? Mas como, se justo os olhos se faziam complacentes, contentes instant\u00e2neos por simplesmente ter algu\u00e9m ali na frente. Algu\u00e9m para enxergar-me e sorrir rebatedor. Algu\u00e9m capaz de comunica\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. Pensei que o estranho fosse esse algum; s\u00f3 que estranhou-me&#8230; Desconheceu-me os sinais.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que sou eu, o estranho, por tentar contato com estranhos? O que me move: humanidade ou anomalia car\u00e1ter?<\/p>\n<p>Estranhei o estranhamento do estranho, em rela\u00e7\u00e3o a minha atitude (que lhe deve ter soado esquisita), de sorrir a estranhos na rua. Desfiz do sorriso. Decidi sufoc\u00e1-lo no bolso ou arremess\u00e1-lo de lixo mais pr\u00f3ximo. Na falta de lixo, o ch\u00e3o matou-o de igual servi\u00e7o&#8230; N\u00e3o h\u00e1 como guardar sorrisos. Eles perecem em instantes se n\u00e3o conseguem oportunidades para crescer, se n\u00e3o alcan\u00e7am rebatedor que os devolva . Sorriso n\u00e3o foi feito para ser s\u00f3 .<\/p>\n<p>Lancei-o ao ch\u00e3o. Se tivesse sorte, algu\u00e9m perceberia um resto de alegria empoeirada, confusa de asfalto e solas de sapato. Se o sorriso tivesse sorte, algu\u00e9m perspicaz recolheria-lhe a ess\u00eancia&#8230; Acho que algo al\u00e9m, seria pedir demais.Ressuscitar sorriso \u00e9 coisa de poucos, raros&#8230; E tamb\u00e9m, quem se prontifica a ca\u00e7ar sorrisos abandonados no ch\u00e3o ? Coisa de insano &#8230;<\/p>\n<p>Caminhei mais alguns quil\u00f4metros. Ningu\u00e9m sorriu-me; nenhum estranho. Tamb\u00e9m n\u00e3o tive \u00edmpetos de sorrir ningu\u00e9m; ainda traumatizado pelo sorriso arremessado; ainda remoendo-o. Alguns quil\u00f4metros de olhos baixos, desacreditados; at\u00e9 que, de repente, cutucaram-me o ombro. Virei, e estranhei: um estranho sorria-me, sem precedentes. Tive at\u00e9 medo&#8230; larguei o que se atinha de minhas m\u00e3os: pasta, picol\u00e9, papel ou carteira. Nem lembro, tamanho o estarrecimento.<\/p>\n<p>Sai correndo, voltando atr\u00e1s, os quil\u00f4metros j\u00e1 percorridos. Queria achar o sorriso meu, que eu mesmo lan\u00e7ara ao ch\u00e3o. Ser\u00e1 que o estranho o havia encontrado e roubado para si? Ser\u00e1 que era meu o sorriso em boca estranha? Ou ser\u00e1 que o fulano simplesmente achara e viera devolver? Tive medo de n\u00e3o mais recuperar o sorriso perdido.Quando voltei-me para o estranho, ele j\u00e1 havia desaparecido&#8230;<\/p>\n<p>E se aquele sorriso que me oferecia, fosse o meu; aquele que, sem pensar, eu arremessara lixo, pelo ch\u00e3o? Medo de n\u00e3o mais recuper\u00e1-lo; um sorriso t\u00e3o espont\u00e2neo, t\u00e3o sinceridade a olhos vistos&#8230; Andei-desandei os mesmos quil\u00f4metros percorridos. Nada de meu sorriso pelo ch\u00e3o. E passei a procur\u00e1-lo nos rostos estranhos; algu\u00e9m devia t\u00ea-lo roubado. Mas n\u00e3o havia ind\u00edcio. Ser\u00e1 que escondiam?Talvez o tivessem engolido&#8230; Do\u00eda est\u00f4magos imaginar-me o sorriso mastigado de processos digestivos outros; sofriam boca e dentes .<\/p>\n<p>Em desespero, comecei a perguntar, coisa de insano: \u201cAlgu\u00e9m viu um sorriso no ch\u00e3o? N\u00e3o tem nome ou endere\u00e7o; responde de anonimatos. \u00c9 meu&#8230; Eu o assassinei. \u00c9 meu!\u201d. Estranhamento geral&#8230; \u201cAlgum estranho roubou-me o sorriso&#8230;\u201d. Desesperou-me n\u00e3o sab\u00ea-lo vivo ou morto; \u00e9 ci\u00fame admitir que, talvez, algum estranho o tivesse resgatado e dado-lhe vida novamente. Ressuscitar sorriso era dom que eu devia, ao inv\u00e9s de assassin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Um estranho qualquer, mais importante do que eu , para meu pr\u00f3prio sorriso &#8230;<\/p>\n<p>Jamais o encontrei. E minha causa passou a ser o medo de sorrir a estranhos; medo de olh\u00e1-los olhos e , quem sabe, reencontrar meu sorriso, minha tal alegria roubada, em outra boca. Reencontr\u00e1-lo grato, ao tal estranho que o resgatou. Meu medo: meu pr\u00f3prio sorriso sorrir-me estranho, desconhecido. Juro que n\u00e3o suportaria.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sorri um estranho. E estranhou-me. Estranhei. Por que, afinal, estranhou-me? Ser\u00e1 que n\u00e3o convenci? Ser\u00e1 que os olhos exprimiam algo em contr\u00e1rio? 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