{"id":1545,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/o-milagre-de-uma-lagrima\/"},"modified":"2022-08-27T18:11:58","modified_gmt":"2022-08-27T21:11:58","slug":"o-milagre-de-uma-lagrima","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/o-milagre-de-uma-lagrima\/","title":{"rendered":"O milagre de uma l\u00e1grima"},"content":{"rendered":"<p>Tirou o papel do bolso. Uma folha de caderno seca, morta, mal dobrada. Desvencilhou-a dos vincos. N\u00e3o fossem as linhas azuis claras impressas, que nem pareciam retas, a folha estaria de fato em branco. Linhas tortas, belo come\u00e7o de uma hist\u00f3ria; talvez final feliz, talvez ao menos plaus\u00edvel.<\/p>\n<p>Sacou a caneta improvisada, sem tampa. Caneta sem porqu\u00ea, que lhe serviria como qualquer outra. Sem qualquer caracter\u00edstica especial; nada al\u00e9m da marca popular e a escrita esferogr\u00e1fica de deixar borr\u00f5es. Aquarela. Talvez fosse essa a real fun\u00e7\u00e3o de sua caneta: borrar a realidade transportada em papel. Faz\u00ea-la plana e com nuances, faz\u00ea-la arte, faz\u00ea-la ser.<\/p>\n<p>As primeiras palavras surgindo velozes, em imagens e momentos lembrados, imaginados, subvertidos. N\u00e3o se sabia. Ele e seus quilos de papel de adivinhar vidas, vontades e temores.<\/p>\n<p>A biblioteca movimentada, at\u00e9 mais do que o normal. Ru\u00eddo de p\u00e1ginas, passos e pensamentos. N\u00e3o precisava de muita concentra\u00e7\u00e3o para viver no papel; at\u00e9 gostava do ir e vir daquelas pessoas; aparentemente ocupadas com seus saberes de raz\u00e3o. Pouco razo\u00e1veis; afinal, com o tempo, a mem\u00f3ria se perderia e haveria apenas a vaga lembran\u00e7a de uma tarde de p\u00e1gina de livro. O pior: a tal tarde jamais seria registrada, os livros a consumiriam sem pagar direitos, e a cuspiriam fora, n\u00e3o deixando nem mesmo agradecimentos na contra-capa.<\/p>\n<p>Por isso odiava a leitura, apenas enxergava em bons e maus pren\u00fancios, hist\u00f3rias de colorir e contar. Em vezes, escritas, descritas; n\u00e3o importava se desacreditadas ou n\u00e3o. Hist\u00f3rias de ler em livros eram fic\u00e7\u00e3o de papel real. Poderiam toc\u00e1-las se quisessem; mas entre leitores e enredos, impunha-se a dist\u00e2ncia imperatriz que separa os sonhos do concreto.<\/p>\n<p>Odiava os livros. Estava ali apenas para poupar algum iludido aprendiz da companhia das id\u00e9ias letradas e ensinamentos est\u00fapidos. O lugar que ocupava, sentado \u00e0 beira das enormes estantes, era benfeitoria. Ele os livros n\u00e3o enganavam; talvez outro menos preparado n\u00e3o tivesse a mesma sorte.<\/p>\n<p>As primeiras palavras, entremeadas por pensamentos e criticas; descritivas daquela uma vis\u00e3o, mais e mais pr\u00f3xima, mais e mais n\u00edtida: uma l\u00e1grima. Quase mil em sua intensidade, quase chorando em coro de almas. No entanto, uma \u00fanica gota transl\u00facida. Sal e assimetria, recortando uma pele clara, de ma\u00e7\u00e3s rosadas e textura suave. Quase p\u00f4de tocar a l\u00e1grima, mas teve medo de interromp\u00ea-la em seu percurso.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 l\u00e1grima.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a imagem se afastava, p\u00f4de ver o rosto triste, mas de uma amargura consciente, uma amargura que n\u00e3o lhe inspirou pena. Inspirou-lhe a pena que, fren\u00e9tica, buscava palavras tradutoras de sentir; palavras que decifrassem o destino de uma l\u00e1grima. P\u00f4de v\u00ea-la escorrer, em ang\u00fastia de mo\u00e7a desamparada na busca por semelhantes. Teve vontade, n\u00e3o de secar a l\u00e1grima, mas de unir-se a ela em sal e salva\u00e7\u00f5es. Queria percorrer o mesmo destino, levar-se \u00e0 mesma corrente. Queria deixar-se escorrer, ser em lugares nunca percorridos, queria o oposto das bibliotecas de contar mentiras.<\/p>\n<p>Entristeceu-se de um pouco; n\u00e3o o suficiente para brotar-lhe l\u00e1grima. N\u00e3o aquela t\u00e3o pr\u00f3pria, t\u00e3o justificada. Estava seco. Desejou uma gota, uma \u00fanica que lhe evitasse o papel comum; mas quem desordenou suas letras foi a tinta grossa, esferogr\u00e1fica. Sua l\u00e1grima n\u00e3o passava de tinta grossa esferogr\u00e1fica&#8230; Por enquanto j\u00e1 lhe bastava observar um rosto estranho e uma gota de sal alheia, sublime a desenhar percurso. Pensou que se se esfor\u00e7asse, poderia contar a vida da mo\u00e7a atrav\u00e9s dos rabiscos invis\u00edveis de l\u00e1grima. Milagre.<\/p>\n<p>E a vis\u00e3o que se seguiu, foi ainda mais bela. Uma gota, desmantelando-se em concreto, cal e cimento. Uma \u00fanica l\u00e1grima, contra o cinza \u00e1spero, nem cor, nem aus\u00eancia dela. Uma \u00fanica l\u00e1grima, fazendo brotar uma flor. Vermelho-cereja. Flor, n\u00e3o importando a esp\u00e9cie ou ci\u00eancia; uma flor nascida de concreto e l\u00e1grima. Mil\u00e1grima&#8230;<\/p>\n<p>A imagem findou-se, dando lugar aos pensamentos e cr\u00edticas, aos passos e mentiras de livraria. Ainda estava at\u00f4nito. Desenhou, ao final da folha amassada, uma flor. Margarida, mas n\u00e3o tinha certeza; sabia apenas ser vermelha, e a mais viva que j\u00e1 vira. Talvez pelo contraste frio do cimento asfalto, ou fosse l\u00e1 o que fosse o concreto vislumbrado. A mais viva e mais bela que j\u00e1 vira; de certo, pela for\u00e7a opositora. De fato, devia ser esta a mensagem.<\/p>\n<p>Dobrou o papel novamente. Uma, duas, tr\u00eas vezes; certificando-se de t\u00ea-lo dobrado \u00e0s previs\u00edveis metades, o que o incomodou. Por que, afinal, deixamos retas as coisas que prezamos? Regulares, quase med\u00edocres.<\/p>\n<p>O pensamento fez com que amassasse a folha com a vis\u00e3o anotada. N\u00e3o queria v\u00ea-la \u00e0s metades. Queria-a transtornada, ileg\u00edvel, para que apenas ele entendesse a mensagem; apenas ele a guardasse para si. N\u00e3o queria, de forma alguma, aprisionar o milagre daquela l\u00e1grima.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tirou o papel do bolso. Uma folha de caderno seca, morta, mal dobrada. Desvencilhou-a dos vincos. N\u00e3o fossem as linhas azuis claras impressas, que nem pareciam retas, a folha estaria de fato em branco. Linhas tortas, belo come\u00e7o de uma hist\u00f3ria; talvez final feliz, talvez ao menos plaus\u00edvel. Sacou a caneta improvisada, sem tampa. 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