{"id":1544,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/o-trevo-e-o-deserto\/"},"modified":"2022-08-27T18:11:17","modified_gmt":"2022-08-27T21:11:17","slug":"o-trevo-e-o-deserto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/o-trevo-e-o-deserto\/","title":{"rendered":"O trevo e o Deserto"},"content":{"rendered":"<p>A imagem do deserto nem parecia t\u00e3o \u00e1rida assim, mas \u00e1vida&#8230;<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado como se enxerga melhor o horizonte no deserto, quando se descobre o qu\u00e3o seco e falta de vida contaminam os p\u00e9s.<\/p>\n<p>E um \u00fanico olfato era p\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>E houve, ent\u00e3o, a mem\u00f3ria de um mar. Quente e gelo, e a sensa\u00e7\u00e3o cores. Um Sol que queimava apenas para aliviar-se depois em \u00e1guas; um Sol que sal e entrega&#8230;<\/p>\n<p>Sim, ali do mar-mem\u00f3ria, tamb\u00e9m se via um horizonte&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 que, assim, contaminado de \u00e1gua, al\u00edvio, e sede de vida, nem parecia horizonte, parecia logo ali.<\/p>\n<p>Sempre teve vontades de mar, impiedosas mar\u00e9s, o suspiro resgate \u00a0de quando se retorna \u00e0 superf\u00edcie em um cheiro de sal e um ardido nos olhos que n\u00e3o era l\u00e1grima; era mergulho no horizonte azul, infinito de t\u00e3o presente.<\/p>\n<p>Lembrava as vontades de mar e caminhava os p\u00e9s, j\u00e1 insens\u00edveis, na areia deserto. Ele, que mergulhara horizontes de azul, agora s\u00f3 enxergava um sonho distante , l\u00e1 longe.Muito menos que horizonte.<\/p>\n<p>E n\u00e3o havia cor&#8230;<\/p>\n<p>Preferiu-se cinza, porque seria do\u00eddo demais colorir o deserto, resping\u00e1-lo aos mesmos tons de suas mar\u00e9s de mem\u00f3ria de mar.<\/p>\n<p>Por isso negava o Sol do deserto, o ocre de areia e o azul desconcertante do firmamento: n\u00e3o queria admitir o deserto uma vez tendo experimentado o mar.<\/p>\n<p>Se o deserto n\u00e3o brotava, ele desistiria de suas mar\u00e9s.<\/p>\n<p>As \u00e1guas de lembran\u00e7a e seriam apenas sal.<\/p>\n<p>Andou mais uns p\u00e9s&#8230; Os passos, nem frios, apenas em preto e branco.<\/p>\n<p>E no trevo denestrada que costurava a \u00faltima tentativa de &#8230;<\/p>\n<p>Existe sorte?<\/p>\n<p>No trecho mais azul de sua treva branda, que pedia para voltar atr\u00e1s, a um suposto tempo que n\u00e3o mais havia&#8230; No trecho quase fim, t\u00e3o distante e horizonte se fazia no seu deserto que era azul e ele insistia em preto e branco&#8230; No trecho quase fim, reviveu de um lapso, um lance, os p\u00e9s de areia da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>E era a mesma areia que mandava no deserto&#8230; E eram os mesmos p\u00e9s&#8230;<\/p>\n<p>O menino velho derrubou, desavisado, uma l\u00e1grima. Talvez tenha sido o azul insistente ou o Sol causticante, ou o mar de mem\u00f3rias&#8230;<\/p>\n<p>Derrubou, \u00a0desencantado, uma l\u00e1grima, e era o mesmo sal&#8230; O gosto do mar de um antes era sua alma.<\/p>\n<p>E a l\u00e1grima percorreu-lhe o corpo quase morto, nunca t\u00e3o vivo, fazendo vazar o que ele havia represado na ang\u00fastia de ter guardado, a chaves, um tempo tesouro que n\u00e3o voltava mais, mas que era sempre seu, tal o sal da l\u00e1grima era o mesmo sal domar.<\/p>\n<p>E sua mem\u00f3ria de mar, em l\u00e1grima salgada, tocou a areia, tal onda que pincela beira-mar, tal sua l\u00e1grima tocaria de presente as areias de seu deserto. Tal o tempo, ampulhetas, pararia, irrigado, da mistura sal-areia. L\u00e1grima e deserto.<\/p>\n<p>E p\u00f4de-pode verem cores, seu deserto&#8230; De mesma \u00e1gua-areia que experimentava em dias meninos.<\/p>\n<p>O mesmo sal, o mesmo Sol, os mesmos p\u00e9s.<\/p>\n<p>E o menino-velho, e o velho-menino encontraram-se no trevo de estrada em que o olho, cego de passado, lacrimou-se de presente.<\/p>\n<p>E a l\u00e1grima de mar fez nascer inesperado, no trevo de estrada que costurava o fim do destino do homem \u00a0aos desejos de ressuscitar passados e aos anseios de morte, um trevo.<\/p>\n<p>Existe sorte?<\/p>\n<p>Um trevo, em quatro folhas, acenando ao velho-menino e ao menino-velho.<\/p>\n<p>Um \u00fanico trevo brotado de l\u00e1grima \u00a0e deserto.<\/p>\n<p>E o velho menino e o menino velho que, at\u00e9 ent\u00e3o, eram apenas menino e mar e velho sufocado, viveram em um s\u00f3.<\/p>\n<p>Uma l\u00e1grima de sal fez brotar diante das promessas do imposs\u00edvel, a vida.<\/p>\n<p>E o velho entendeu que n\u00e3o era velho por culpa do tempo, mas por n\u00e3o ter perdoado as incr\u00edveis mem\u00f3rias de sal. Ele nem percebera que o que seguia desde sempre era o mesmo Sol, aquele do deserto, o mesmo que brincava com o menino. Os mesmos&#8230;o Sol e o sal de sua alma.<\/p>\n<p>E o trevo nasceu assim, de uma sorte improv\u00e1vel de um tempo sem m\u00e9trica, de um instante lucidez.<\/p>\n<p>Sol, sal e areia j\u00e1 eram a mesma alma do velho-menino.<\/p>\n<p>O trevo que era uma falha na l\u00f3gica do tempo de fazer tudo passar, trouxe ao velho deserto, o menino de si.<\/p>\n<p>No trevo da estrada, quase o fim, o tempo desistiu-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia mais tempo:<\/p>\n<p>O velho sorriu, o menino sorriu e o deserto tornou-se c\u00e9u como sempre deveria ter sido&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o havia mais, o tempo.<\/p>\n<p>S\u00f3 mem\u00f3ria e alquimia da alma que era onda, todo o mar.<\/p>\n<p>O menino velho mergulhou como fosse a primeira vez que sentira o azul gelado e o frio calor daquele c\u00e9u que, seu e sal e Sol, e sul. Mergulhou como aquele menino que entendia o mundo a poucas letras mas que o decifrava em cores, ao passo em que se desvelava o tempo que ele ainda n\u00e3o entendia de fazer escapar tal gr\u00e3os de areia, que ele nem sabia serem deserto e mar. O menino que ele nem sabia seria o velho que n\u00e3o se saberia mais menino.<\/p>\n<p>O menino velho mergulhou velho menino, e daquele trevo que encruzilhava esses S&#8217;s de Sol, sal e da pr\u00f3pria alma, descobriu-se nem velho nem menino. Era s\u00f3, somente, do mar&#8230;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imagem do deserto nem parecia t\u00e3o \u00e1rida assim, mas \u00e1vida&#8230; Engra\u00e7ado como se enxerga melhor o horizonte no deserto, quando se descobre o qu\u00e3o seco e falta de vida contaminam os p\u00e9s. E um \u00fanico olfato era p\u00f3&#8230; E houve, ent\u00e3o, a mem\u00f3ria de um mar. Quente e gelo, e a sensa\u00e7\u00e3o cores. 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