{"id":1542,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/a-barca-e-o-arco-iris\/"},"modified":"2022-08-27T18:17:34","modified_gmt":"2022-08-27T21:17:34","slug":"a-barca-e-o-arco-iris","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/a-barca-e-o-arco-iris\/","title":{"rendered":"A barca e o arco-\u00edris"},"content":{"rendered":"<p>A barca e o arco-\u00edris; carregando gente, transportando sonhos. Vivendo em dias os dias que vir\u00e3o, a expectativa por detr\u00e1s da travessia; as cores que ser\u00e3o acerca do Sol e c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>A barca e o arco-\u00edris, enfrentando dist\u00e2ncias, inventando ponto de chegada. E cada alma aplacada de correnteza ou calmaria, dire\u00e7\u00e3o de vento e b\u00fassola de morte; cada alma um ponto combust\u00edvel, uma estrela guia acendendo \u00e2nimos em noite escura.<\/p>\n<p>A madeira de transporte j\u00e1 era gasta, nem t\u00e3o confi\u00e1vel. Desenho humilde, econ\u00f4mico em inventividades: remos de cada lado, totalizando n\u00famero quatro. Uma e outra ferida no casco, cuidados \u00e0 tinta branca; um resto de lata quase quase estragada. S\u00f3 mesmo serviu ali a boa vontade do pincel, e alguma esperan\u00e7a-cicatriz.<\/p>\n<p>Da gente disposta a seguir faziam-se tr\u00eas: quatro bra\u00e7os adultos, dados ao trabalho do remo; e dois, mirins, ainda em aten\u00e7\u00f5es de aprendiz. Bra\u00e7os remavam de muitos m\u00fasculos; o que fazia ind\u00edcio de longa viagem e extrema virtude-paci\u00eancia. J\u00e1 a crian\u00e7a, pouca idade, devia ter, por pouco, n\u00e3o nascido ali, em casco de travessia.<\/p>\n<p>Resumia-se a velha madeira e todo mar o c\u00e9u-horizonte seu &#8220;em respeito ao mundo&#8221;, seu respeito ao mundo. Uma vis\u00e3o totalit\u00e1ria e s\u00edntese. Um mundo simples assim: madeira navegar, remo de assistir, mar , c\u00e9u e desejos de arco-\u00edris.<\/p>\n<p>Como seria cruzar cores? L\u00e1, talvez logo em frente, descobririam; talvez demorasse menos do que imaginavam. A crian\u00e7a crescera desse despertar de alcan\u00e7ar arco-\u00edris; devem ter sido os bra\u00e7os persistentes dos adultos, sempre-remo, incans\u00e1veis pelo objetivo final. Bra\u00e7os adultos deram-se, sem querer, como exemplo de extrema vontade \u00e0 crian\u00e7a. Embora n\u00e3o se soubesse onde previam chegar, nem suspeitasse, qual lhes era o tal objetivo; a crian\u00e7a usara-os modelo ao seu sonho de atravessar caminho arco-\u00edris.<\/p>\n<p>De seu pouco entender, os remos serviam a esse prop\u00f3sito: abra\u00e7ar arco-\u00edris. E eram tardes e amanheceres de ser mesmo vision\u00e1rio; os olhos apontados a \u00e2ngulo de infinito, colorindo sete cores do arco que ele talvez nunca tivesse presenciado, mas j\u00e1 lhe era t\u00e3o convic\u00e7\u00e3o, que existia tal fosse concreto, existia mais que casco madeira, remos e bra\u00e7os \u00e0 crian\u00e7a. As cores de querer eram-lhe t\u00e3o fortes, que m\u00fasculos tornavam m\u00ednimos. Os olhos infantis apontando l\u00e1pis sete tons, rabiscando sonho arco-\u00edris que ningu\u00e9m conhecia, nem ouvira falar. Seus companheiros de barco sabiam apenas cascos e dire\u00e7\u00f5es mapeadas. Sabiam dos meios, sem entender a que fins. Companheiros de barco, justo eles, que viabilizavam-se bra\u00e7os de m\u00fasculos desenvolvidos; justo eles n\u00e3o criam em arco-\u00edris, nem outro tipo de sonho.<\/p>\n<p>Objetivo dos quatro bra\u00e7os adultos consistia em sofrer de remo; o que causava tristes, alguns momentos da crian\u00e7a de mira infinita. No come\u00e7o, a atitude resignada dos outros dois, cabe\u00e7a baixa e movimentos mec\u00e2nicos, n\u00e3o incomodava. Mesmo porque ,ainda n\u00e3o lhe havia sentido &#8220;resignada&#8221;. Foi s\u00f3 com o passar do tempo, que os outros dois corpos passaram a fazer contraste absurdo com o sonho arco-\u00edris, cada vez mais pr\u00f3ximo, mais palp\u00e1vel. S\u00f3 com o tempo, a alegria infantil de imaginar-se imerso em cores, sete cores que cruzavam c\u00e9u em arco, contaminou-se do pouco querer alheio.<\/p>\n<p>N\u00e3o que o sonho tenha sofrido algum tipo de altera\u00e7\u00e3o (a vis\u00e3o continuava intacta); foi s\u00f3 mesmo a crian\u00e7a que aprendeu, sem letra ou vocabul\u00e1rio,&#8221;resignado&#8221;. Aprendeu assim, intuitivamente; processo natural, tal correnteza e mar\u00e9. Aprendeu observando cabe\u00e7as baixas e quatro bra\u00e7os a remo, sem rumo.<\/p>\n<p>Aos poucos, o corpo pequeno foi tomando novas formas; crescendo em vontades de cruzar aquele mesmo arco-\u00edris; que talvez, nunca tivera sido visto, mas se fazia ainda mais presente que os incans\u00e1veis companheiros de barco.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o arco-\u00edris existia? O pensamento surgiu de repente, em crian\u00e7a j\u00e1 crescida; j\u00e1 acrescida de palavras tristes e id\u00e9ias displicentes, tanto observar a falta de rumo dos outros. Nasceu fantasma; e o entusiasmo inicial de apontar \u00edris aos c\u00e9us, fosse para realmente ver ou imaginar o arco-\u00edris&#8230; O entusiasmo condensou-se. Fez chover em \u00e1guas. Era a primeira tempestade na vida da crian\u00e7a, agora crescida, adulta. Entendeu-se adulta assim, sem vocabul\u00e1rio ou psicologia; da forma mais intuitiva que lhe restava arquivada.<\/p>\n<p>Deve ter sido a \u00faltima intui\u00e7\u00e3o; que, quem descobre-se adulto, geralmente, perde dons e espontaneidades. Estava tornando-se apenas bra\u00e7os, a exemplo adquirido, sem querer, de companheiros de barco. Logo, sua fun\u00e7\u00e3o se tornaria o remo; e o fim, a falta de rumo.<\/p>\n<p>Entendeu, sob forte tempestade, que tornara-se adulto.Suportaria f\u00e1cil, f\u00e1cil: m\u00fasculos mec\u00e2nicos. &#8221; Resignado &#8221; era apalavra; de resigna\u00e7\u00e3o, de resignar-se e outros derivados de falta de sentido e dire\u00e7\u00e3o. B\u00fassola sem porqu\u00ea. Que, o que haveria a norte, ou sul, ou leste a mar aberto e cabe\u00e7a baixa? Se n\u00e3o lhe existisse o arco-\u00edris, de que valeriam-lhe as lembran\u00e7as do trajeto? Tudo o que conhecera de si, sobrevivia al\u00e9m do arco-\u00edris. Se, de fato, n\u00e3o existisse pincel de cores tal sugeria idade adulta; seria triste ter de contentar-se com boa vontade de tinta branca, quase quase estragada, para cicatrizar feridas de barco. Seria fim de hist\u00f3ria, sem meio, sem justi\u00e7a; afinal, nem chegara a tentar a pr\u00f3pria for\u00e7a para remar em dire\u00e7\u00e3o ao arco-\u00edris. Perder esperan\u00e7as, logo agora, que os bra\u00e7os se faziam m\u00fasculos de condi\u00e7\u00e3o&#8230; Nem tinta branca cicatrizaria&#8230; Agora, que podia tomar o remo, e mudar de rumo; justo agora, descobria-se adulto e resignado, tanto quanto, sem querer, se faziam os companheiros.<\/p>\n<p>Quatro remos, quatro bra\u00e7os e o destino da ex-crian\u00e7a, \u00e0 parte, morrendo afogado do lado de fora. Em seu lugar, um adulto adulterado em princ\u00edpios, preso de casco e madeira antiga. Injusto o agora. Em meio \u00e0 tempestade, a primeira e \u00faltima que sentia t\u00e3o cruel; que adultos aprendem a desativar-se decertas fun\u00e7\u00f5es. Aprendem a fingir que nunca se decepcionam: &#8220;resignar-se&#8221; \u00e9 a palavra. Aprendem a sofrer sem letra; resignar apalavra.<\/p>\n<p>Foi em meio \u00e0 tempestade, que batizou de adulto, a crian\u00e7a dos sonhos, e a fez baixar os olhos, n\u00e3o mais mirar a \u00edris em cores; foi em meio \u00e0 tempestade, que fez-se cor.<\/p>\n<p>Surgiu no c\u00e9u, \u00e0 mar aberto, o barco a remo, de tr\u00eas viajantes, um concreto n\u00e3o palp\u00e1vel, um desenho muito mais belo e sutil que aquele tra\u00e7ado em sonho mirim. Surgiu o arco-\u00edris, assim que o Sol antecipou-se ao fim da chuva. Assim que esperan\u00e7as misturaram-se a expectativas e alguns teores de frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Arco-\u00edris, sete cores, como o previsto. Mas de uma m\u00e1gica t\u00e3o improv\u00e1vel, que ficava evidente que tudo o que a crian\u00e7a entendera antes como arco-\u00edris, tinha sido ilus\u00e3o. Nenhuma fantasia se comparava \u00e0 beleza instant\u00e2nea daquela aprecia\u00e7\u00e3o. Aquela sim, era real. Somente a Natureza seria capaz&#8230; Nem mesmo inoc\u00eancias infantis seriam t\u00e3o engenhosas. O verdadeiro arco-\u00edris fez o sonho do rec\u00e9m-adulto convalescer da mesma falta criatividade de casco de barco, cicatrizado a tinta branca. O verdadeiro arco-\u00edris&#8230; Sete das mais belas cores, muito mais vivas que em sonho; muito mais cont\u00e1gio. E o meio, fora a tempestade; o meio para que a crian\u00e7a, j\u00e1 adulto, enfim, cruzasse arco-\u00edris.<\/p>\n<p>E todos, todos os tr\u00eas puderam assistir \u00e0 vis\u00e3o acalantada tempos, guardada segredo, dentro do barco, pelo mirim, que nem bra\u00e7os remos fazia, h\u00e1 pouco atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Os dois resignados desprenderam-se de sem rumo, hipnotizados pelo arco iluminado que se estendia lado a lado, ocupando-se de todas as dire\u00e7\u00f5es; tomando-os em sentido mais profundo de existir, mais que mar aberto. N\u00e3o eram nem deviam ser apenas m\u00fasculos-motrizes; havia algo a recuperar; talvez afogado fundo de mar, tal quase se fizera da crian\u00e7a que sonhava arco-\u00edris. \u00a0Havia algo a abra\u00e7ar novamente. &#8220;N\u00e3o resignar-se &#8220;; essa a palavra.<\/p>\n<p>O r\u00e9cem-adulto, o terceiro viajante; o pequeno esperan\u00e7a de sonho cores fincou-se novamente olhos de altura. Seu arco-\u00edris era real. \u00cdris com \u00edris, \u00edris e cores. Podia enxerg\u00e1-lo, e a muito de si mesmo, pintado de toda boa vontade e tinta magia. Tinta inexplic\u00e1vel: Sol e tempestade, l\u00e1grimas pesadas e brilhos de contentamento, aquarela de paisagens, mar aberto e s\u00f3 o c\u00e9u&#8230; S\u00f3 seu.<\/p>\n<p>Tinta inexplic\u00e1vel; mais enfeite que o c\u00e9u de antes, o c\u00e9u imaginado. E o meio para chegar a existir, de fato, sonho de crian\u00e7a, tinha sido tornar-se adulto. Bra\u00e7os que podiam, agora, remar; mas j\u00e1 haviam escolhido-se de outro rumo. Afinal, de que adiantaria mover-se \u00e0 for\u00e7a sobre \u00e1guas, se o que aspirava, caminhava de c\u00e9u?<\/p>\n<p>Tinha sim, tornado-se adulto, e s\u00f3 o que fez com os bra\u00e7os, que poderiam, a exemplo de outros, contentar-se de remo e remo e remo e sem rumo; s\u00f3 o que fez, foi resgatar a crian\u00e7a afogada do lado de fora. Tinha for\u00e7a suficiente para tanto e, agora, sabia, para muito mais.<\/p>\n<p>S\u00f3 o que fez com os bra\u00e7os, foi dar gra\u00e7as aos c\u00e9us por ter encontrado seu arco-\u00edris. Remo a qu\u00ea, se o que lhe vinha b\u00ean\u00e7\u00e3o, descia de asas?<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A barca e o arco-\u00edris; carregando gente, transportando sonhos. Vivendo em dias os dias que vir\u00e3o, a expectativa por detr\u00e1s da travessia; as cores que ser\u00e3o acerca do Sol e c\u00e9u aberto. A barca e o arco-\u00edris, enfrentando dist\u00e2ncias, inventando ponto de chegada. E cada alma aplacada de correnteza ou calmaria, dire\u00e7\u00e3o de vento e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2151,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1542","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-anima_in_cronica"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1542","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1542"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1542\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2151"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1542"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1542"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1542"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}