{"id":1535,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/sobre-os-dentes-compartilhados\/"},"modified":"2022-08-27T18:16:20","modified_gmt":"2022-08-27T21:16:20","slug":"sobre-os-dentes-compartilhados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/sobre-os-dentes-compartilhados\/","title":{"rendered":"Sobre os Dentes Compartilhados"},"content":{"rendered":"<p>Entraram intrusos, com seus passos de p\u00e9s distantes, destoantes do azul celeste do cobertor largado canto. Dissonantes de uma aparente calma, gritavam tal fossem monstros, em dentes famintos. Grunhiam por entre os espa\u00e7os de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O ritmo dos passos doloria, machucava os ouvidos fr\u00e1geis. Fr\u00e1geis por ouvirem demais, mas n\u00e3o em volume: fr\u00e1geis do tempo que, em silencio, descama qualquer algo de seus significados; e o faz de tal maneira que a perda n\u00e3o se pode suplantar.<\/p>\n<p>Suportar talvez, jamais suplantar&#8230;<\/p>\n<p>A consci\u00eancia n\u00e3o desfaz a fragilidade. Dentes s\u00e3o fr\u00e1geis e ilusoriamente c\u00e1lcio.<\/p>\n<p>Compulsoriamente eternos&#8230;<\/p>\n<p>E os passos&#8230; e os passos&#8230; e os passos. Paulatinamente tomavam conta da casa, cada canto, cada m\u00f3vel, cada mem\u00f3ria que as pesadas cortinas teimavam esconder, tentando preservar o que os cantos j\u00e1 haviam esquecido. Cantos s\u00e3o assim, ef\u00eameros em mem\u00f3ria. Basta uma mudan\u00e7a na disposi\u00e7\u00e3o deste e aquilo outro, uma mesinha de centro, um tapete \u00e0 direita, a poltrona de ver televis\u00e3o; e o canto some, reaparece quando decidirem-se dele. Cantos s\u00e3o concreto, mas n\u00e3o duram absolutamente nada&#8230; Cantos n\u00e3o gritam como o som dos sapatos de borracha-a\u00e7o, n\u00e3o reagem tal armas de guerra, tal se fazem dos dentes, ou desfazem-se deles.<\/p>\n<p>Como os cantos, as paredes e a madeira de lei n\u00e3o percebiam? Como se deixavam enganar pelo som dos sapatos? N\u00e3o, n\u00e3o eram canto: os sapatos eram armas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ouvia? Ningu\u00e9m percebia?<\/p>\n<p>O pequeno ensurdeceu-se de um ouvido que n\u00e3o tinha: talvez fosse a alma que cantasse triste em tons muito mais altos que os p\u00e9s sapatos. A alma esquecida em um canto desencanto, de n\u00e3o ser mais canto, ser qualquer outra coisa que n\u00e3o mais casa. A alma do pequeno parecia enorme escapando-lhe em dor pelos ouvidos. E a alma gritava, n\u00e3o mais cantava, um latido triste de despedida dos cantos. De cada canto daquela casa.<\/p>\n<p>Mas os sapatos nem notaram, entraram de salto em assalto aos anos que passaram t\u00e3o depressa&#8230; Quantos anos mesmo? As cortinas n\u00e3o lembravam. O piso de madeira muito menos, em sua mania vaidosa de disfar\u00e7ar idades. Quanto tempo mesmo? Mas j\u00e1 n\u00e3o importava, porque todo o tempo era aquele infinito agora que parecia, ontem, n\u00e3o teria fim, mas que trai\u00e7oeiro, extirpava qualquer lembran\u00e7a de passado do pequeno c\u00e3o que n\u00e3o mais latia. O c\u00e3o que se lembrava de cada canto daquela sala que um dia cantava&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o percebiam que o c\u00e3o chorava? Ningu\u00e9m via? Ningu\u00e9m ouvia?<\/p>\n<p>E o som dos passos em seu dever de morte, esmagando o resto de mem\u00f3ria que o latido, que era choro, tentava resgatar. Ningu\u00e9m queria ouvir&#8230; Ningu\u00e9m ouvia&#8230; E os homens caminhavam pela sala, como homens, a dois p\u00e9s e alguns palmos do pequeno que chorava latindo, porque n\u00e3o lhe fora dada outra arma, outra voz. E caminhavam a anos luz da esperan\u00e7a do pequeno, que sempre sorria a casa de seus brinquedos e bolinhas mastigadas pelo tempo, porque n\u00e3o lhe fora dada outra alma, n\u00e3o lhe fora dada outra escolha sen\u00e3o a de sempre resistir: aos fins, aos ciclos, \u00e0s batalhas, \u00e0s hist\u00f3rias acabadas, aos pisos de madeira submissos, ao sil\u00eancio das cortinas. N\u00e3o lhe fora dada outra alma sen\u00e3o a de colorir os cantos da casa que dias atr\u00e1s eram alvenaria, e, de um repente, haviam virado s\u00f3 areia. Como podiam? Como podiam esquecer-se do tempo em que a sala vivia crian\u00e7a como se fosse durar para sempre, e havia brincadeira de bolinha e correr quintal \u2013cozinha?<\/p>\n<p>Como podiam esquecer que n\u00e3o existia solid\u00e3o e desfazer-se da promessa de que tudo duraria para sempre? Como esqueceram de que tudo era um quintal, uma sala, tr\u00eas quartos, a bolinha e uma fam\u00edlia? Como deixariam a casa ser tomada por estranhos em seus sapatos apertados que arranhavam a garganta do pequeno de latir seco, latir mudo, latir do\u00eddo a dor de n\u00e3o mais existir.<\/p>\n<p>O cachorro do\u00eda real, mas n\u00e3o era concreto. Sentia como nunca o que jamais ousara: a dor do que n\u00e3o existia mais.<\/p>\n<p>E foi s\u00f3 ao som dos passos dos entrantes intrusos, mais e mais altos, mais e mais ensurdecedores, que p\u00f4de perceber que os cantos estavam certos em sua desist\u00eancia: n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m na sala, h\u00e1 tempos&#8230; As brincadeiras de bolinha s\u00f3 habitavam sua insistente inocente mem\u00f3ria; porque n\u00e3o lhe fora dada outra escolha sen\u00e3o resistir, sen\u00e3o existir suas cores das recorda\u00e7\u00f5es que os cantos da casa, sabiamente j\u00e1 haviam deixado para tr\u00e1s. A sala estava vazia&#8230; Por quanto tempo? Ou o tempo todo estivera?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o as pessoas de seu colo, as pessoas que habitavam suas brincadeiras de bolinha j\u00e1 n\u00e3o eram mais as mesmas; haviam humanizado-se&#8230; talvez at\u00e9 usassem os mesmos sapatos dos intrusos; afinal foram as pessoas de seu colo que haviam aberto a porta aos inimigos. Os inimigos que em pouco tempo tomariam os cantos da casa, cada um deles e os fariam zelar por suas novas pr\u00f3prias hist\u00f3rias. A sala n\u00e3o mais seria do pequeno, e suas marcas de pata e latidos provavelmente n\u00e3o passariam de sujeira e ru\u00eddo de um antigamente.<\/p>\n<p>E algu\u00e9m que nem entendia de afeto ou pertencimento limparia dos veios do piso da madeira de lei, suas patas corredias, seus jogos pega-pega, os brinquedos estragados, o velho cobertor azul turquesa. Tudo seria vendido a pre\u00e7o de pedra: concreto, cimento, as alegrias de uma vida. Uma vida que se compunha das muitas, de todos daquela casa; mas que ao final das contas, reduzira-se a uma \u00fanica resist\u00eancia, naquele momento em que os intrusos tomariam sua hist\u00f3ria e a hist\u00f3ria dos seus. N\u00e3o havia madeira de lei, nem pisos ou concretos, tudo n\u00e3o existia mais; desistindo ali, sob as patas j\u00e1 cansadas do pequeno.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m entedia? Ningu\u00e9m mais pertencia? O que houve com aqueles que lhe davam os bra\u00e7os \u00e0s mordidas brincantes, aqueles que lhe entendiam a l\u00edngua?<\/p>\n<p>Aqueles que lhe compartilhavam os dentes? Compartilhavam a dor de perder sua hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Que n\u00e3o tentassem convenc\u00ea-lo de que historias v\u00eam e v\u00e3o, que in\u00edcios outros trariam de volta os cantos da casa&#8230; Que n\u00e3o tentassem enfeiti\u00e7ar de concreto vil, suas mem\u00f3rias de sorrir. Sim, c\u00e3es sorriem&#8230;<\/p>\n<p>E em um \u00faltimo esfor\u00e7o de fazer lembrar que o tempo podia voltar atr\u00e1s, tal as correrias de quintal, tal a l\u00f3gica leva e traz das brincadeiras de lan\u00e7ar longe um treco-trique na confian\u00e7a de que ele sempre traria de volta; na \u00e2nsia cega em sua compet\u00eancia para trazer de volta o tempo, a casa, os cantos, os filhos da fam\u00edlia, as tardes de parque, os sonos largados no sof\u00e1 empapu\u00e7ado de p\u00ealos e patas, o pequeno foi em busca de sua maior arma: a bolinha do Natal, a mais dentada de todas, a mais compartilhada de dentes eternos. Precisava trazer todos de volta!! Por que justo agora teimavam em ser fr\u00e1geis, em desistir de rugir a dor de perder o tempo que nunca se pode ganhar? Precisava traz\u00ea-los de volta aquela sala de sempre estar!<\/p>\n<p>O c\u00e3o alcan\u00e7ou a bolinha e veio, a dentes certeiros aos p\u00e9s de homem da casa. Um misto de fo\u00e7a e piedade, uma certeza que precisou fazer-se cega e inocente para tentar recuperar o que s\u00f3 ele entedia: a casa ainda podia existir&#8230;<\/p>\n<p>O pequeno latia enquanto tentava desesperadamente oferecer a velha bolinha de dentes ao homem da casa.<\/p>\n<p>Lembra como se joga? Lembra como se joga? Mas o homem da casa parecia ensurdecido pelos passos intrusos que nem mais precisavam cantar, j\u00e1 faziam fazem parte dos cantos da casa que n\u00e3o mais era de seu canto, era de um choro engasgado que n\u00e3o latia mais. Os passos intrusos j\u00e1 haviam tomado lugar das patas correrias. Tanto que os cantos nem se lembravam mais&#8230;<\/p>\n<p>Lembra como se joga? N\u00e3o se joga mais&#8230; A casa j\u00e1 havia desistido.<\/p>\n<p>E o homem da casa sorriu, apertando a m\u00e3o do intruso, antes mesmo de dar bola \u00e0 bola do c\u00e3o; como se nem fossem da mesma esp\u00e9cie, como se s\u00f3 houvesse um raso ru\u00eddo de tudo aquilo que tinham e comum&#8230; Ainda tinham?<\/p>\n<p>O embate havia terminado&#8230; E ent\u00e3o n\u00e3o mais ouviram-se disparos de passos. O intruso havia ganhado, definitivamente.<\/p>\n<p>E o homem da casa sorriu, de uma trai\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha dono, n\u00e3o tinha sono, n\u00e3o tinha mais como ser em paz. O homem da casa sorriu, um sorriso de dentes; e o c\u00e3o p\u00f4de ver que n\u00e3o eram mais os mesmos dentes compartilhados. Que sua dor de salvar a casa que j\u00e1 n\u00e3o mais existia era sua s\u00f3, e tristemente era; jamais seria a mesma das pessoas de seu colo, das pessoas que foram, ao longo do tempo, se transformando em humanos e deixaram das quatro patas e deixaram os dentes de toda dor do tempo passar, do lado de fora da casa que n\u00e3o existia mais. O pequeno desistiu, agarrado de dentes que s\u00f3 ele agora compartilhava com o passado, de uma dor que rasgava o cobertor de seu azul celeste. Sim, c\u00e3es tamb\u00e9m choram&#8230;<\/p>\n<p>E o homem da casa sorriu, sem querer, da mesma dor que o pequeno sentia&#8230;<\/p>\n<p>Dentes compartilhados. Talvez fosse humano demais para lidar com a perda de um passado; humano demais para vencer o tempo. Talvez o intruso fosse o tempo; e os cantos, as salas, os quartos, as pessoas de colo, adultas e humanas, todos eles soubessem, por isso n\u00e3o tentavam lutar. S\u00f3 o pequeno, mais fiel aos dentes eternos e \u00e0s bolinhas de brincar, s\u00f3 o pequeno, em sua bravura de concreto, mais que cal e cimento; s\u00f3 o pequeno resistia, quase re-existindo, revestido das paredes da casa que n\u00e3o existiria nunca mais. C\u00e3es e homens choram e sorriem do homem e do c\u00e3o que queria lhe pertencer, dentes compartilhados, a dor anzol azul celeste do cobertor de ninar que jamais acordaria: a casa n\u00e3o existiria nunca mais.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entraram intrusos, com seus passos de p\u00e9s distantes, destoantes do azul celeste do cobertor largado canto. Dissonantes de uma aparente calma, gritavam tal fossem monstros, em dentes famintos. Grunhiam por entre os espa\u00e7os de sil\u00eancio. O ritmo dos passos doloria, machucava os ouvidos fr\u00e1geis. 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