{"id":1532,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/ao-meio-dia\/"},"modified":"2022-08-27T18:15:15","modified_gmt":"2022-08-27T21:15:15","slug":"ao-meio-dia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/ao-meio-dia\/","title":{"rendered":"Ao meio dia"},"content":{"rendered":"<p>Meio-dia e n\u00e3o quis enxergar.<\/p>\n<p>Protegeu-se de lentes baratas, que ao longe, at\u00e9 passariam por marca de grife, dessas de vender conceito e modus vivendi.<\/p>\n<p>Sol sobre as cabe\u00e7as, e quis tolerar-lhe a presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Exceto pelas sombras espalhadas, multiplicando multid\u00f5es e a temperatura febril; o \u00e2nimo da rua era impass\u00edvel. Inverno ou ver\u00e3o, as express\u00f5es, percursos e princ\u00edpios era sempre os mesmos. Nenhuma alegria sobressalente pelas roupas mais libertas; nenhum pedinte em menor auto-flagelo; nenhuma afli\u00e7\u00e3o poupada. Tudo mais claro e contrastante \u00e0 luz radiante do meio-dia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que era aquela a inten\u00e7\u00e3o do Sol? Sadismo? Melhor mesmo proteger-se dos raios UVB, ultraviolentos. Iluminar o escurecido \u00e9 quase crime. Sol condenado&#8230;<\/p>\n<p>Talvez a cidade n\u00e3o quisesse mostrar-se assim t\u00e3o nua. Total invas\u00e3o de privacidade!<\/p>\n<p>A cidade combinava com noturno , quando se podia atentar mais aos far\u00f3is, aos luminosos, aos medos de assalto e afins. A cidade estaria protegida de julgamentos; e os mais l\u00facidos, seguros de n\u00e3o serem acometidos por consci\u00eancias contundentes.<\/p>\n<p>O meio-dia era sacana, com seus meios-termos e permissividades de conviv\u00eancia surreal: em uma mesma cal\u00e7ada, flores e pestes. N\u00e3o, n\u00e3o ratos; homens rastejantes.<\/p>\n<p>Se meios-dias prestassem, n\u00e3o admitiriam tal conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os \u00f3culos escuros, os mesmos de Raul, tinham outro significado: eram mais que prote\u00e7\u00e3o; substitu\u00edam l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>O n\u00f3 na garganta crescendo de am\u00eddalas. A porra dos \u00f3culos estavam sendo menos eficientes do que esperava. Ar restrito, de poluentes e alv\u00e9olos semi-produtivos.<\/p>\n<p>Ao meio-dia, tudo a meio-termo; nem corpo capaz de ser involunt\u00e1rio. Cada c\u00e9lula deveria ser vigiada; caso contr\u00e1rio, a meia-vida seria institu\u00edda.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria mais viver ao meio-dia, o meio-termo da meia-vida, a meia-foda das lentes cinq\u00fcenta por cento funcionais. Ultraviolentas&#8230; Talvez as lentes compartilhassem da tramoia luminosa de fazer saltar verdades permissivas de flores e pestes. Viventes de mesma cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>N\u00f3 garganta. Tinha a impress\u00e3o de que seria necess\u00e1rio bisturi. Impress\u00e3o de que seria necess\u00e1rio arranc\u00e1-la.<\/p>\n<p>E foi uma gota, evaporada assim que lhe tocou os cabelos ardidos; que nem chegou a \u00a0refrescar pensamentos. Uma ponta indolor de um \u00famido interrogativo. Aonde, afinal, haveria espa\u00e7o sobrevivente fluido, no desenho da cidade? E a gota parecia pura; ao menos o tocara como b\u00ean\u00e7\u00e3o. Uma gota incidindo pensamentos.<\/p>\n<p>Olhou para cima, esquecendo-se do meio-dia a pino. Encarou lentes ultraviolentas, a intensidade certeira dos meios-termos de Sol; as verdades parciais da luz, admitindo conviv\u00eancia compartilhada, entre seivas e cinzas.<\/p>\n<p>Foi espantoso; esperava vis\u00f5es de fim, puni\u00e7\u00e3o de cegueira absoluta. Esqueceu-se de que talvez s\u00f3is fossem imprevis\u00edveis, apesar de esconderem-se em repetitivos crep\u00fasculos e entardeceres. S\u00f3is jamais projetam as mesmas sombras.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5cfe532804ff07bd12d0c43d_1.1%20-%20MEIODIA.jpg\" \/><\/div>\n<p>E S\u00f3is n\u00e3o antev\u00eaem cen\u00e1rios n\u00e3o iluminados. Aquele meio-dia chorava, gelo seco cutucando id\u00e9ias sob lentes.<\/p>\n<p>L\u00e1grima sobressalente. Talvez n\u00e3o tivesse sido proposital expor, ao meio-dia, felicidades forjadas daquela gente, cinquenta por cento oxig\u00eanio, cinquenta por cento fuligem. Apenas um ter\u00e7o de alv\u00e9olos.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5cfe533d6023d730f3a148d7_1.1%20MEIO%20DIA%20.jpg\" \/><\/div>\n<p>Um Sol decepcionado, quase eclipse volunt\u00e1rio. Um luto e \u00fanica gota g\u00e9lida escolhendo, ao acaso, o observador que tentava poupar-se das vis\u00f5es meio-flores, meio-pestes.<\/p>\n<p>Um Sol envergonhado, desculpando-se por dar a luz \u00e0s aberra\u00e7\u00f5es desvendadas \u00e0s doze horas. Meio percurso.<\/p>\n<p>Todos aqueles urbanos na mira de um Sol desolado; guiados \u00e0s cegas e lentes violentas, por uma estrela desorientada. Afinal, fora em parte respons\u00e1vel pela den\u00fancia dos meios-termos da justi\u00e7a humana. Afinal, fora frustrada a tentativa de colorir o caos. Uma pena&#8230; O Sol n\u00e3o esperava falhar.<\/p>\n<p>Pingou \u00fanica gota; e se chovesse em milh\u00f5es, seria indiferente. E se chovessem milh\u00f5es, ainda assim se cumpriria \u00a0a mis\u00e9ria . Inverno ou ver\u00e3o traziam os mesmos passos, percursos e express\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso o Sol poupou-se: uma \u00fanica gota. Escondeu-se entre nuvens e qualquer outro pretexto. Apagou-se, empalidecendo em alguns tons a paisagem.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m notou, exceto o observador escolhido, escorrido pela gota herdeira.<\/p>\n<p>O homem iluminou-se; entendeu, agradecido, as mazelas de luzir. Sentiu-se at\u00e9 aliviado; afinal, seu problema \u00fanico eram os olhos mais h\u00e1beis. Qualquer cegueira inventada, ou mesmo p\u00e1lpebras, funcionariam. J\u00e1 o Sol, pobre Sol&#8230; e sua culpa de fazer gelar. A. Sina: expor, indefinidamente, flores e pestes, equivalentes, sobre o mesmo concreto.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5cfe541204ff07bea4d0c8d5_1.1%20MEIO%20DIA.jpg\" \/><\/div>\n<p>\u200d<\/p>\n<p>O texto \u00e9 parte do livro Cr\u00f4nicas da Cidade Cr\u00f4nica e da performance teatral &#8220;A via: Passageiros<\/p>\n<p>A cidade \u00e9 cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Em seus dejetos, defeitos, detritos, destratos.<\/p>\n<p>&#8220;Cr\u00f4nicas da Cidade Cr\u00f4nica&#8221; \u00e9 um projeto pessoal que envolve literatura e express\u00e3o como ant\u00eddoto \u00e0s mazelas humanas da \u00a0cidade. Uma forma de digerir o real para n\u00e3o ser consumido pelas suas fantasias de grotescos.<\/p>\n<p>Escrevo -me em cr\u00f4nicas, cr\u00f4nica, doente de lucidez e insanidade.<\/p>\n<p>Cr\u00f4nica, escrevo cr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Cr\u00f4nica, que n\u00e3o tenho e nem quero ter cura,<\/p>\n<p>Cr\u00f4nicas que n\u00e3o tratam de um ponto de vista ou partida, um ponto final ou interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cr\u00f4nicas que se \u00a0inserem em um conjunto de outras tantas, nascidas sangue frio e navalha afiada \u00e0 l\u00edngua e letra; e um tanto de remorso por enxergar o que n\u00e3o se devia, ou n\u00e3o se queria: o humano posto nu em suas fragilidades e escudos intranspon\u00edveis.<\/p>\n<p>Essa dor cr\u00f4nica \u00e9 comum, comunit\u00e1ria, minha-sua-nossa, de todos, e por isso intransfer\u00edvel.<\/p>\n<p>Intranspon\u00edvel, de semente enterrada viva:<\/p>\n<p>A dor-cr\u00f4nica da cidade.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<p>\u200d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meio-dia e n\u00e3o quis enxergar. 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