{"id":1529,"date":"2022-04-18T13:38:09","date_gmt":"2022-04-18T16:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/pesadelo\/"},"modified":"2022-08-27T18:40:36","modified_gmt":"2022-08-27T21:40:36","slug":"pesadelo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/fernandabellicieri.com\/it\/pesadelo\/","title":{"rendered":"Pesadelo"},"content":{"rendered":"<p>A crian\u00e7a segura um sonho.<\/p>\n<p>De olhos fixos, abertos de gulodice; intensos de sabor.<\/p>\n<p>Um sonho em m\u00e3os inocentes.<\/p>\n<p>Segura tesouro.<\/p>\n<p>Teve receio da primeira mordida, absorto na beleza quente do doce.<\/p>\n<p>E se interferisse no desenho perfeito de massa e a\u00e7\u00facar? Talvez o sonho n\u00e3o parecesse t\u00e3o belo dentado.<\/p>\n<p>Mas, enfim, sonhos s\u00e3o assim, precisam ser provados.<\/p>\n<p>Talvez o aroma e as expectativas superassem-no em sabor. Quem saberia?<\/p>\n<p>E ele ali, a alguns cent\u00edmetros da constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Caberia no est\u00f4mago?<\/p>\n<p>Do tamanho de duas m\u00e3os.<\/p>\n<p>A m\u00e3e dizia que bastava fechar uma delas para se saber o tamanho do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o seu sonho media dois cora\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>Pulsantes \u00e0s vontades e alegrias do menino.<\/p>\n<p>A m\u00e3e ocupa-se de p\u00e3es. O sonho do menino n\u00e3o estava previsto.<\/p>\n<p>Mas fora sua insist\u00eancia e a express\u00e3o de contentamento, antecipando satisfa\u00e7\u00e3o esfomeada, que fizeram com que a m\u00e3e comprasse a sobremesa.<\/p>\n<p>M\u00e3es n\u00e3o s\u00e3o dadas a sonho de padaria.<\/p>\n<p>Nunca se sabe se frescos ou amanhecidos.<\/p>\n<p>Mas ela teve que admitir: aquele estava realmente convidativo.<\/p>\n<p>Rec\u00e9m frito, de creme displicente \u00e0s beiradas, pintado de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>At\u00e9 engoliu seco.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o, o que pensariam dela?<\/p>\n<p>Uma mulher da sua idade, lambuzando-se de sonho?<\/p>\n<p>Pareceu-lhe rid\u00edcula a id\u00e9ia. Bobagem de garoto. Um sonho para o filho e olhe l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 desviou olhares a cobi\u00e7a do brinquedo a\u00e7ucarado.<\/p>\n<p>M\u00e3es n\u00e3o vivem de sonho.<\/p>\n<p>Que nunca viessem a saber daquele seu deslize, mesmo que fosse s\u00f3 pensamento.<\/p>\n<p>Um sonho para o menino, e olhe l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>A crian\u00e7a salivava esperan\u00e7as de a\u00e7\u00facar, e s\u00f3is amarelados de creme.<\/p>\n<p>Satisfaziam, as farturas de recheio, incontidas de papel de p\u00e3o.<\/p>\n<p>Papel de p\u00e3o n\u00e3o protege sonho; \u00e9 comum,<\/p>\n<p>acostumado \u00e0 mediocridade pouco salgada das fornadas de fazer iguais.<\/p>\n<p>Papel de p\u00e3o n\u00e3o \u00e9 papel de sonho. Distintos, inconfund\u00edveis.<\/p>\n<p>P\u00e3o de miolo mole, oco. Miolo de p\u00e3o \u00e9 previs\u00edvel.<\/p>\n<p>Recheio de sonho \u00e9 colorido, inventado, criativo.<\/p>\n<p>Sonhos n\u00e3o servem ao paladar comum.<\/p>\n<p>Sonhos servem \u00e0s bocas famintas, n\u00e3o triviais, espetacularmente originais.<\/p>\n<p>Bocas aventureiras.<\/p>\n<p>Mas as pressas de m\u00e3e, enormes, puxam o menino pelo bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Derrubam o sonho r\u00e9cem-descoberto, no concreto da cal\u00e7ada suja.<\/p>\n<p>Entre sonho e concretude, apenas o papel de p\u00e3o:<\/p>\n<p>conter, inutilmente, derrame de recheio e esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Mediocridade faz trabalho semelhante.<\/p>\n<p>Sonhos ca\u00eddos n\u00e3o renascem&#8230;<\/p>\n<p>Talvez p\u00e3es n\u00e3o derramem recheio no concreto. Sonhos s\u00e3o mais fr\u00e1geis&#8230;<\/p>\n<p>A m\u00e3e sentiu al\u00edvio por n\u00e3o ver a crian\u00e7a deliciar-se de creme amarelo.<\/p>\n<p>Um tanto de desd\u00e9m, vingado com a morte prematura daquele sonho.<\/p>\n<p>Continuou apressada. Uma olhadela r\u00e1pida para o creme escorrido no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Quis guardar a lembran\u00e7a de sonhos assim, transfigurados de concreto sujo, consolados de papel de p\u00e3o;<\/p>\n<p>Sim, aqueles mesmos ins\u00edpidos p\u00e3es de sacola, a quem os sonhos julgavam-se t\u00e3o superiores&#8230;<\/p>\n<p>A crian\u00e7a parecia n\u00e3o ter entendido ainda o acontecimento, extasiada de expectativas e a\u00e7\u00facares cantantes.<\/p>\n<p>O sonho assassinado n\u00e3o condizia, em absoluto, com o que h\u00e1 pouco carregava nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>O que, h\u00e1 pouco, media dois cora\u00e7\u00f5es: o seu e o seu.<\/p>\n<p>Que papel de m\u00e3e n\u00e3o consola;<\/p>\n<p>tal papel de p\u00e3o,<\/p>\n<p>apenas testemunha desapontamento e derrame de sonhos.<\/p>\n<p>\u200d<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads-ssl.webflow.com\/5cf96b419c5f05509f54fbc1\/5cfe553904ff07207cd0cb53_Slide45.jpg\"><\/div>\n<figure class=\"w-richtext-figure-type-image w-richtext-align-normal\" data-rt-type=\"image\" data-rt-align=\"normal\"><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crian\u00e7a segura um sonho. 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